As equipas que nunca se preocupam em enganar os adversários

27 de Setembro de 2014

As equipas que nunca se preocupam em enganar os adversários

Trepar a rede para abraçar adeptos ou subir a bancada para ir beijar a namorada, mas, apesar da força respeitável de todos estes laços emocionais, nenhum supera o que Florenzi fez no último jogo da Roma, após marcar o golo, e subir a bancada, até à tribuna, para ir abraçar a avó, de 82 anos, que por fim o tinha ido ver jogar pela primeira vez e que nem acreditava em tudo o que o rodeava. Foi o festejo de um golo mais apertado que vi na história do futebol. Os grandes planos seguintes foram Florenzi a levar um cartão amarelo e a avó a chorar com um lenço de papel a enxugar as lágrimas.

Depois disto dizer que a Roma está a jogar bem, em 4x3x3, e que apesar disso também muda muito a equipa de jogo para jogo, parece não fazer sentido. Mas o futebol é tudo isto. E muito mais.

O técnico Garcia continua o seu projeto de bom futebol e no momento em que tanto de debate a “rotatividade” como impedimento das equipas ganharem rotinas de jogo, fica o registo que esta Roma líder do Scudetto (com a Juventus) e a brilhar na Champions (5-0 ao CSKA) alinhou seis titulares diferentes nesse jogo europeu em relação ao jogo anterior e agora, no seguinte, contra o Cagliari (4-0) mudou outros cinco. A questão não está, portanto, na rotatividade, mas na criação de um jogar precedente perfeitamente adquirido a partir de posições que chave, capaz de ser depois absorvido pelos jogadores que entram, já taticamente familiarizados entre si e com o sistema (suas variantes).

Dificilmente esta Roma conseguirá incomodar muito a Juve no caminho do título, mas o seu futebol tem a sedução das “causas perdidas”. Ataca bem sem ter um grande nº9 e move a bola a meio-campo jogando com Totti, o 10 mais tecnicista da história do calcio pós-Baggio, muitas vezes como homem mais adiantado, falso 9. Para jogar em 4x2x3x1 e meter Pjanic, costuma baixar um dos médios para perto de De Rossi, um papel feito com grande rotação de jogo por Nainggolan 8a outra opção é Keita, mas menos vertical e mais posicional.

Na frente, a nº9, neste último jogo, alinhou Destro, um jogador que continua sem ser possível definir o que é verdadeiramente. Com 23 anos, pode jogar numa ala (o que acontecia com Zeman, mais na direita) ou no meio. A mobilidade e o seu forte, mas a ausência de uma referência posicional mais clara pode travar a sua evolução para um nível superior, seleção inclusive.

Em Turim, na Juventus, Allegri tem a missão facilitada para desmistificar ser um treinador de contra-ataque como o acusavam no Milan. A equipa mesmo sem Pirlo nem Vidal controlou todo o jogo frente ao Milan, porque tem uma capacidade de pressão alta que não deixa o adversário sair em quase nenhum momento. É neste momento do jogo, a transição defensiva baseada num jogo posicional forte que se baseiam as melhores equipas europeias da atualidade. Mesmo passando para 3x5x2, manteve esse rigor.

Sem aquelas referências a meio-campo, salta também a evidência do eficaz turnover (a rotatividade) quando o processo de jogo não enche de dúvidas os jogadores e até aqueles que são contatados com, claramente, intenção de reforçar o plantel (sem perspectiva óbvia de serem titulares), entram e pegam no jogo com naturalidade. Sucede com o médio-centro argentino Pereyra (vindo da Udinese). Qualidade táctica pura (com capacidade de inserimento).

Entre subir a bancada para abraçar a avó e as análises tácticas mais profundas, existe, por estranho que pareça, uma relação. Tudo isto é futebol e nenhuma emoção ou razão vive uma sem a outra.