As faces da Luz: Rodriguez, Luisão, Cardozo e Adu

26 de Setembro de 2007

O «alicate» Luisão

O estilo desengonçado, ameaçando desmontar-se todo quando se prepara para aliviar a bola, não seduz à primeira vista. Nem, afinal, à segunda ou à terceira. Luisão é quase como um gigante alicate humano em forma de defesa-central. Convêm frisar que, futebolisticamente, esta definição é um elogio. Falta, depois, o lado prático da imagem em campo. Como alterna bons cortes com falhas que arrepiam, nunca será um jogador consensual. Acredito que, sejam os que o apreciam como os que o criticam, ficam muitas vezes confusos e trocam de posições.

No futebol, não existem verdades absolutas. Para Luisão, cada jogo, cada jogada, parece que se tornou um teste. Esta semana desabafou. Sente-se quase o «patinho feio» da equipa. Disse não compreender porque não gostavam dele. Compreende-se o desabafo. Por princípio, os adeptos gostam mais de cisnes. Luisão nunca o será. Mas, na fábula, como na vida, os «patinhos feios» sempre foram mais inteligentes que os «cisnes». Num campo de futebol, também. Nota: Depois de escrito este texto, Luisão marcou um golo de calcanhar em Coimbra. Aparição de «cisne futebolistico» a cinco minutos do fim!

A «Cebola» móvel

As faces da Luz Rodriguez, Luisão, Cardozo e AduUma cebola com rabo-de-cavalo a correr com garra e inteligência com a bola dominada à sua frente. Posto nestes termos, parece estranho. É esta, no entanto, uma das faces mais entusiasmantes do melhor futebol do actual Benfica. O jogador é Cristian Rodriguez. O seu jogo tem o código genético da picardia uruguaia. Nos pés, a destreza técnica. Recordo como ele era no Uruguai. Desde esse tempo, a cebola ganhou maior robustez física. O ideal para se aculturar ao ritmo e aos choques europeus que tanto estranhou ao chegar a Paris. No Benfica, joga quase sempre sobre a esquerda.

O seu futebol pede maior amplitude periférica. Durante os jogos estou sempre à espera de o ver mais na zona central. É nesse espaço que aquela cebola abana mais com o jogo. Rui Costa entende bem isso e, vendo-o a aproximar-se, cai ele em troca posicional na esquerda. É este movimento que faz hoje a melhor expressão do Benfica de Camacho. Eis, portanto, um bom princípio para atacar: apostar numa cebola móvel e pensadora.

Fredy Adu, «Pop Art»

As faces da Luz Rodriguez, Luisão, Cardozo e AduChamam-lhe a «Terra das Oportunidades». Mais do que um país, os Estados Unidos da América são um micro cosmos do Mundo, babilónia dos tempos modernos. Como a pop-art de Warhol espelhou. Marilyn, Brando, Elvis, Nixon e Mao. Todos, lado a lado com a comida enlatada, a sopa Campbell, as novas Giocondas, a cadeira eléctrica e os acidentes de trânsito, o banal, o poético e as flores. Qualquer tema é passível de ser assimilado, reduzido, ilustrado, colorido, multiplicado. Em toda esta encenação nunca entrou o futebol, o soccer, um ser menor na sua dimensão europeia dentro da sociedade americana de caricaturas, insensível a lado multiétnico que o domina na «Grande Maça». Foi dele que emergiu dele um miúdo ganês que aos 18 anos já jogou três Mundiais Sub-20.

Freddy Addu. Muitos fizeram dele, quase desde o berço, um novo Pele. O próprio Pele entrou nesse jogo lunático. Mas, apesar disso, ninguém com alta patente futebolística europeia viu nele essa reencarnação mágica. Só poderia ser o país dos descobrimentos, claro, a fazê-lo. E o «kid» ganês rumou a Lisboa. Para um espanhol gordo que «sale a ganar» nada disto o comove. O miúdo ainda não é um jogador de futebol, disse aos ver os primeiros treinos. Poderá vir a ser, mas ainda não é. E, de repente, Adu entra em campo. Quase sempre quando a equipa está na cadeira eléctrica. Com o seu jogo simples (vê-se que nunca leu muitos livros de táctica) agarra nele como um miúdo num livro para colorir. A cada passo ou passe, estremece com o lado banal do jogo. E faz golos.

Não digo que se ainda fosse vivo, Warhol lhe fizesse um desenho, mas há algo nos seus gestos e olhares que me faz gostar dele. Quando tiver a certeza do que é, volto a escrever sobre isso. Até lá, sigam as suas pegadas. É o destino de Adu. Entre a «pop art» e uma bola de futebol.

Cardozo, «Colt 45»

As faces da Luz Rodriguez, Luisão, Cardozo e Adu4x4x2 ou 4x2x3x1? Não. Apenas «Salir a ganar» e «dar cien por cien». No Paraguai, onde os adeptos seguem os jogos com um «Colt 45» em cima da mesa, é facilmente perceptível esta mensagem. Não, não é a temida arma americana, mas antes a mais famosa cerveja paraguaia. Um nome e imagem que simboliza a expressão futebolística de Cardozo, o gigante nº9 guarani cujo olhar se iluminou quando, por fim, a bola obedeceu á sua ordem e foi para o fundo da baliza. Diz Cruyff que, quando jogava, não havia som mais fantástico do que a bola a bater no poste e ouvir o «Ooooh!» do público. Mas explicava que só tinha essa sensação quando o fazia já a ganhar por 4-0. Na Luz, contra o Celtic, o mesmo som da bola no poste, só aumentou os olhares desconfiados para o perna-longa paraguaio. A forma como festejou o golo foi quase como um gesto de libertação. Como se apontasse uma «Colt 45» a todo o Estádio. O melhor, agora, é levá-la para todos os jogos. Para tentar recriar o mesmo habitat e jogo de estimulos que tanto me fez gostar dele na relva gaúcha...