As gerações “não espontâneas”

29 de Março de 2016

Uma boa seleção tem, em tese, duas vias mais básicas para ser construída. Uma curta e outra longa.
A curta, é pegar no bloco de um clube (ou dois), juntá-los e eles como que andam sozinhos.
A longa, é olhar as bases e construir um estilo de jogo adaptado ao perfil de jogadores que temos (e/ou queremos formar). No meio, existem as chamadas “terceiras vias”, mas em termos de criar solidez só aquelas duas a garantem.

Se a primeira é algo conjuntural, obra do acaso do feito nos clubes, na segundo é algo estrutural que passa por fazer um diagnóstico mais profundo.
Sei que não é fácil, neste momento, fazer este trabalho no futebol português. Nunca foi, de resto, mas alguém já o fez. E assim se criam “gerações” que ao contrário do que a natureza futebolística pode fazer parecer não nascem assim tão espontaneamente. Um, dois jogadores é uma coisa. Um grupo que faz a base de um onze é outra.

Pensando nisto vendo o jogo com a Bulgária, fiquei com a sensação clara de que Fernando Santos procurou reproduzir na seleção (reunindo-os) os modelos de jogo/forma de jogar das duas equipas portuguesas em melhor forma e qualidade solidificada de jogo neste momento. O Sporting e o Braga.
Ambas têm movimentações semelhantes no jogo interior dos alas e juntam bem dois médios-centro (os únicos médios puros dos seus sistemas) e soltam dois homens na frente.
Ali estava uma boa forma de pegar nessas “espécies de 4x4x2” e passa-lo para a nossa seleção. A tentação era maior porque quatro dos seus elementos podiam ser transplantados diretamente nas posições e dinâmicas (sistema e estilo) e todos juntos fazerem a tal “sala de máquinas” do onze: Willam-Adrien, médios no centro, Rafa-João Mário, falsos alas desde as faixas.

Os “transplantes” de equipa, porém, nem sempre são assim tão lineares. Sobretudo quando na frente dois avançados (Ronaldo-Nani) mais do que se associar a esse trabalho táctico, pelo contrário como que o “sugam” para a sua vocação goleadora de remate (nunca participando depois na primeira pressão defensiva, como fazem os avançados, “meramente terrenos”, dos dois clubes em questão).
Entendo a tentativa de Fernando Santos. É, porém, mais humano do que táctico. Continua, no fundo, em busca da fuga do “labirinto” do(s) sistema(s). Desistiu de procurar a “porta nº9” e quer agora descobrir uma “equipa-ovo de colombo” .