As grandes noites europeias

19 de Abril de 2002

As grandes noites europeias

É nesse momento que a memória dos verdadeiros amantes do futebol volta a emergir, recordando as grandes noites europeias do passado, seus heróis e feitos, quando a televisão era um figurante e o calor do Estádio o grande protagonista. Tudo isso se recupera com jogos a duas mãos de eliminação directa. Um confronto épico. Neste baú de míticas recordações, um clube emerge acima de todos: o Real Madrid e as suas fabulosas reviravoltas nos jogos da segunda mão, encetadas no inferno do Bernabéu, provocador, como diria Jorge Valdano, de um paralisante medo cénico nas equipas adversárias.

A lenda das remontadas atingiu o auge nos anos 80 (com 4-0 ao Borússia Monchengladbach, 6-1 ao Anderlecht e 5-1 ao Inter, após, respectivamente, 1-5, 0-3 e 1-3, na 1ª mão). O seu grande catalisador era um nº7 cujos dez anos do seu falecimento se celebraram a semana passada, poucos dias antes de outro épico jogo europeu -Real Madrid-Bayern- destinado a ficar para sempre na memória dos adeptos do futebol. O seu nome: Juanito, o jogador que, juntando a fúria natural com a técnica andaluza, sua terra natal, melhor combinou o cocktail de estilos do futebol espanhol.

Recordar o seu carisma é penetrar num mundo que já não parece existir, quando os futebolistas pareciam a extensão passional dos desejos de vitória do mais fanático adepto. Conta quem o conheceu que nessas noites europeias, onde era necessário virar resultados impossíveis, ele sozinho era capaz de fazer todos acreditar no milagre, porque como dizia aos mais cépticos: “Noventa minutos no Bernabéu são muito longos...” Tudo obedecia a um ritual domador da ansiedade combinado nos balneários, onde se selava o pacto em que os três primeiros remates, as três primeiras faltas, para não deixar o adversário entrar no jogo, e até os primeiros três protestos contra o árbitro fossem do Real. Tudo precedido de uma entrada em campo com Juanito aos murros nas barras metálicas que, no túnel, separavam as equipas, gritando-lhes de tudo, embora eles não entendessem nada, nem tinham que entender, pois eram alemães, ingleses, etc...

O futuro do futebol só terá sentido recuperando estes mitos. Caso contrário, é trair a sua genética emocional, pois como diria Panzeri, velho jornalista argentino “o futebol é a dinâmica do impensado”. A história ditará a ultima sentença.