As “luvas e a táctica” do clássico

13 de Fevereiro de 2016

1. Como nascia o perigo

Primeira imagem do jogo: Maxi tenta meter uma bola longa para Brahimi e Jardel vai buscar rapidamente o espaço nas costas retirando a profundidade à tentativa de ataque portista. Mais do que assumir um bloco alto, o projeto deste FC Porto traduz-se em campo numa defesa muito subida, esperando o adversário em zonas muito altas. Se ganha a bola ai pode sair perigosa. Se não o faz, e o Benfica salta essa linhas subida, a equipa fica defensivamente exposta. As grandes oportunidades de golo benfiquistas (remates de Pizzi, Mitroglu a aparecer, Jonas, Gaitan...) tiveram essa origem tática de posicionamentos coletivos.
A perda de bola do FC Porto quase sempre deixava a equipa a ter de correr muito para recuperar o posicionamento defensivo. Tinha, nesse momento, de correr toda para o sua área e era como se ficasse de “pernas para o ar” taticamente.
Peseiro viu isso e conseguiu controlar melhor esses momentos quando passou a ocupar melhor os espaços a meio-campo mas aquela situação de esteve sempre latente no jogo. A qualquer momento podia aparecer. E aparecia, porque não existia controlo portista da profundidade. No fim desse precipício tático estavam, porém, as defesas de Casillas. Elas foram os grandes momentos do jogo.

herrera

2. Herrera, o “jogador-extra”

Peseiro resistiu a recuar Danilo para central porque sabia que com essa opção tirava o poder de autoridade que este jogador personifica hoje na “sala de máquinas” do seu meio-campo. Dessa forma, com um 6 claramente “dono do jogo”, Herrera podia tentar sair da sua “casa tática” e subir no terreno, mas, na base, ter dois médios-centro mais recuados (embora não pressionantes) dava mais liberdade à segunda linha do meio-campo. Era onde André André surgia desde a faixa para equilibrar dando peso tático ao sector e soltar o lado vagabundo do futebol de Brahimi (entre faixa e centro, nas costas de Aboubakar).
Seria. no entanto, quando passou a jogar mais aberto na faixa que Brahimi (no meio sufocado por Samaris-Renato) passaria a jogar melhor para a equipa. Foi então que, quase como um “objeto misterioso”, Herrera se tornou, na primeira parte, no elemento mais perigoso a aparecer desde trás. Ninguém lhe deu de inicio grande relevância tática e foi nesse ponto que o Benfica sofreu mais a defender e a controlar o meio-campo. Subitamente o FC Porto passava a ter mais jogadores em todas a zona nuclear central do meio-campo.

3. Ganha quem tem mais médios

O crescimento da confiança de um jogador dentro duma equipa vê-se muito a partir da forma como com o decorrer dos jogos ele vai conquistando cada vez mais a liberdade para sair do seu posicionamento base e começar a invadir com autoridade outros espaços.
Renato Sanches crenato sanchesonquistou essa maior amplitude periférica de ação (sem com isso perder rigor tático sem bola). Quando sai em posse, porém, confronta-se quase sempre com as condicionantes de jogar dentro dum 4x4x2 quase clássico, isto é sem um apoio próximo para tabelar (só há “terceiro médio” quando Pizzi aparece por dentro mas nessa altura rouba-lhe o espaço e a... bola) e sem que Jonas se movimente para lhe dar linhas de passe pois tem mais uma dinâmica de movimentos de segundo-avançado.
Renato é hoje o meio-campo do Benfica com “duas pernas”, na sua ligação entre sectores. A intensidade do seu jogo e consequentemente o desgaste físico-táctico que sente é enorme. Só quando Pizzi aparece por dentro ou Jonas recua a pegar, ele (como todo sector) poe respirar um pouco.
Desta forma, a insustentável leveza dum meio-campo com apenas dois médios posicionais puros voltou a sentir-se na hora de um grande jogo.

4. A “mordaça” em Gaitan

Marcar Gaitan, mesmo que zonalmente quando pega na bola em zonas de maior perigo, é uma missão que nenhum adversário responsável pode deixar para a entrada da sua área. Conscirui vitoriaente disso, a “zona” do FC Porto procurou pegar no criativo encarnado logo na origem dos seus movimentos diagonais, ainda longe do centro. Condicionava assim os seus movimentos e quando arrancava levava sempre um “guarda-costas azule-branco” consigo. Travando a criatividade de Gaitan, punha uma “mordaça” no jogo mais inventivo encarnado.
A entrada de Carcela buscou esse reativar criativo e a de Talisca dar nova velocidade de trás para a frente. Era, no entanto, uma fase em que o oxigénio tático estava todo do lado do meio-campo portista que o geriu na ocupação em superioridade numérica quase sempre melhor.
O Benfica teve sempre mais jogadores no ataque (e por isso pareceu sempre mais perto do golo) mas teve sempre menos no meio-campo (e por isso pareceu sempre mais longe de controlar o jogo). Nem sempre as duas coisas tem esta relação causa-efeito tão direta mas nestes 90 minutos é impossível fugir a essa “fotografia do jogo”.

FUTEBOL - Danilo durante o jogo Fc Porto - Chelsea, referente a 2 jornada do grupo G da Liga dos Campeoes. Estadio do Dragao, no Porto. Terca, 29 de Setembro de 2015. (ASF/PAULO ESTEVES).

FUTEBOL - Danilo durante o jogo Fc Porto - Chelsea, referente a 2 jornada do grupo G da Liga dos Campeoes. Estadio do Dragao, no Porto. Terca, 29 de Setembro de 2015. (ASF/PAULO ESTEVES).

5. Os “donos do jogo”

Para a última meia-hora, Peseiro lançou Marega, saindo Corona sem ter conseguido entrar verdadeiramente no jogo, mas foi na junção André André-Brahimi por dentro, na zona central, já num espaço entrelinhas em cima da área benfiquista, que mais uma vez o desequilíbrio foi criado e aproveitado depois pela potência de Aboubakar. A verdade, porém, é que com Marega, descaído sobre a faixa direita, o ataque ganha maior potência para “esticar” o jogo em profundidade.
Na hora de tentar meter o jogo no “congelador”, quem emergiu, porém, não foi o colectivo mas sim o poder táctico de um jogador que se torna cada vez mais no “patrão do onze”: Danilo. Posicionamento, dobras, cortes, saídas. Tudo sem mexer um nervo da face. O “dono do jogo” nos momentos em que a equipa teve de defender mais atrás baixando o bloco, realizando Chidozie uma exibição segura.
Os jogos passam todos por diferentes momentos. O FC Porto “agarrou” o seu depois de ter tocado os seus limites defensivos. De Casillas a Danilo, as “luvas e a tática” da vitória.