AS MÁQUINAS TAMBÉM TÊM ARTE

09 de Agosto de 2014

O relatório final do Mundial. A “posse de bola” não imperou como em 2010. Este Mundial 2014 teve mais profundidade. Ganhou quem melhor conciliou os vários estilos. A Alemanha. O momento decisivo foi quando Low passou Lahm para lateral e montou a “sala de máquinas” do meio-campo alemão

Ao longo dos dias, fui escrevendo as minhas sensações (tácticas, jogadores, emoções) que este Mundial me provocou. Encontrar uma moral (táctica ou técnica) para este Mundial não é fácil. Ele passou por diversos estados de alma, até nas tendências tácticas. O 4x3x3, o ponta-de-lança puro como espécie em extinção substituído pelo “falso 9”, o 4x2x3x1, o aumento dos sistemas de três defesas, os laterais ofensivos. Vários pontos para um relatório completo.
Não existiu, porém, um estilo que verdadeiramente se tenha imposto a outros.

Se em 2010 a Espanha-estilo Barça consagrou a “cultura da posse de bola”, em 2014, a Alemanha não traduz essa mesma filosofia. Não está, porém, assim tão distante como possa fazer parecer à primeira vista. É a ilusão do seu lado tradicionalmente musculado, sobretudo no meio-campo e no jogo de trás para a frente.
Este debate entre a cultura da posse e o jogo em profundidade, é, no entanto, colocar a discussão tática em extremos. Afasta-nos do coração do Mundial.

Diria que as melhores seleções foram as que melhor conciliaram ambos estilos em diferentes momentos do jogo.
Não vimos equipas muitos pressionantes e, sobretudo, dominou a tendência de buscar sempre um organização mais em bloco médio-baixo. A Alemanha é a maior exceção desse comportamento global. Tal sucede impulsionado pelo seu forte “jogo interior” subido. Tem, claro, ideologia, cultura e jogadores para fazer isso. O melhor triângulo: Khedira-Schweinsteiger-Kroos. Por isso, o momento táctico decisivo deste Mundial foi quando Low passou Lahm para lateral e montou essa “sala de máquinas” no meio-campo alemão.

A partir desse momento, o “exército alemão” nunca mais perdeu o controlo do jogo e agarraram todos os adversários pelo pescoço. A maior dificuldade contra a Argentina resultou mesmo da falta de peças-chave nesse sector (lesão de Khedira, depois Kramer e acabou com o “aburguesado” Ozil metido numa sala táctica de trabalho que não é a sua). A Argentina aproveitou, cresceu e com um posicionamento perfeito atrás da linha da bola controlada pelo “chefe tático” Mascherano” quase dava outro final a esta fantástica história mundialista.

Outro traço táctico relevante deste mundial foi o resgate do duplo-pivot por muitas equipas, mesmo as grandes (ver caixa ao lado). A Alemanha, porém, sabia como o fazer aparecer (para começar o... jogo) e desaparecer/transformar (para começar a... jogar). Receio o que o duplo-pivot possa provocar nas mãos de treinadores mais receosos, mas nas de Low deu uma equipa com dinâmica que mal começava o jogo o desfazia e punha Khedira ao lado de Kroos a “comer” o jogo, subindo o meio-campo pra perto dos avançados, a mobilidade de Muller (nº9 falso e verdadeiro), a classe de Klose e, por fim, a melhor forma da boa táctica se exprimir num gesto técnico: o golo poema de Gotze.

OS TRÊS DEFESAS: MITO?

AS MÁQUINAS TAMBÉM TÊM ARTEFalou-se de muitas equipas surgir a jogar com sistemas de três defesas (3x5x2, 3x4x3, depende das variantes). É habitual nos sul-americanos. Na Europa, só os italianos o utilizam mais, mesmo que sejam cinco defesas pois os laterais recuam.

Quem lançou o debate foi a Holanda, mas dentro de um modelo contranatura para a sua história e até dos princípios mais lógicos para este sistema: grande percentagem de posse e jogar apoiado, como fazia a “Holanda do passado” no mesmo sistema (subindo os laterais para um meio-campo a 5) e não para como fez a “Holanda do presente” jogar em profundidade para avançados rápidos. Não acredito que seja o seu futuro.

Em termos de organização e modelo dentro deste sistema as equipas que mais gostei foram México e Chile, porque faziam um triângulo a meio-campo que era quase “meio losango” que lhes permitia controlar o corredor central e depois sair para pressionar ou levar a bola para a frente. Dos Europeus, mais ninguém ensaiou este sistema como real opção. Não acho, por isso, que tal se possa, tornar tendência na Europa, embora seja referencia na América do Sul. É o “derby táctico do mundo”.

A CHAVE “DUPLO-PIVOT”

AS MÁQUINAS TAMBÉM TÊM ARTE1Outro aspecto: domínio do duplo-pivot sobre o pivot único. Pode não ter sido o resgatar duplo-pivot defensivo puro, porque um deles, como é natural, saia mais para o jogo, mas sem bola muitas equipas preferiram essa organização.

Alemanha (Schweisteiger-Khedira), Argentina (Mascherano-Biglia), Holanda (De Jong-De Guzman), Brasil (Luiz Gustavo-Paulinho), Colômbia (Sanchez-Aguilar) Suíça (Inler-Behrami) Argélia (Bentaleb-Medjani) Espanha (Busquets-Xabi Alonso).

Só a França (com Cabale e Pogba-Matuidi subidos) e a Itália (com De Rossi, e Pirlo-Verrati à frente) fugiram entre os grandes. A Bélgica tinha Witsel, mas nunca resolveu o problema de onde meter Fellaini. Por isso, admirei tanto o modelo e sistema de México e Chile que com defesa a “3” apostaram só num pivot que fizeram exibições monstruosos: Vasquez e Diaz.

O segredo é saber como, partindo de um jogo posicional com esse duplo-pivot no papel, a equipa ser capaz na sua dinâmica soltar um deles e inverter o triângulo (alternadamente). É isto que faz um “jogo interior” forte a defender e a atacar. No fundo, o que fez a Alemanha de forma tacticamente cirúrgica.

MAIOR EQUILIBRIO: PORQUÊ?

AS MÁQUINAS TAMBÉM TÊM ARTE2Um aspecto que criou impacto foi o maior equilíbrio e/ou capacidade competitiva das equipas ditas mais fracas perante as grandes. A explicação é simples. Como a diferença de qualidade individual entre elas é evidente, o segredo para esse maior equilíbrio tem de estar no coletivo: Organização.

Com essa ordem rapidamente readquirida (posicionamento) no momento de perda da bola, as equipas tornam-se espécie de peças de xadrez táctico. A Costa Rica dos três defesas (Duarte-Gonzalez-Umaña) e três avançados (Ruiz-Campbell-Bolaños) só tinham, no papel, dois médios puros (Celso Borges-Tejeda) pelo que o fez mais contenção e bloco-baixo. Preferia recuar e organizar-se defensivamente do que pressionar. Depois lançava os avançados rápidos. Foi, durante muito tempo do jogo, o sistema com maior distância entrelinhas (a defender, quase, um 5x2x1x2).

Atenção que esta noção de ordem e organização não leva a equipas “mecânicas”. Será uma “mecânica... não mecanizada”. Em suma: Têm liberdade para criar com bola. Têm obrigações para cumprir sem bola.