As máscaras do talento

08 de Abril de 2008

As máscaras do talento

Era um jogador com aptidões fantásticas. Corria 90 minutos por todo o campo, roubava qualquer bola e estava sempre pronto para ajudar um companheiro. Apenas lhe faltavam dois atributos para ser um grande jogador. O primeiro, era o pé esquerdo. O segundo, o pé direito. Mesmo assim, os adeptos adoravam-no. Esta história, que já ouvi há muito tempo, mora no imaginário da bola, mas tem uma moral futebolística quase freudiana para entender como os adeptos têm sempre mais tendência a elogiar o esforço do que o talento por si só. Porque olhamos para um jogador lutador, daqueles que come a relva, e sentimos que ele é quase como um adepto a jogar.

O talento tem uma atitude mais insolente. Olha-se para um jogador desses passeando no campo e a ideia que dá é que teria sempre melhor coisa para fazer naquela altura do que estar num relvado a jogar futebol. Mas, já que aqui estou, deixa-me tentar umas jogadas de encantar.

Os adeptos não têm, no entanto, muita sensibilidade para esta forma de vida. Aplaudem freneticamente aquele jogador que corre com a língua a arrastar pela relva atrás de uma bola que vai sair irremediavelmente pela linha de fundo, terminando esse sprint com um carrinho inútil que o deixa todo descabelado. Assobiam e esbracejam indignados o craque talentoso que tenta um drible ou um lance individual fantástico, mas falha e perde a bola. É natural, no plano humano. O simples mortal aproxima-se mais da pureza primária do esforço do que da sofisticação supra-terrena do talento.

Quando entram em campo, as equipas pensam em como jogar e em como pressionar. No primeiro, estará o talento. No segundo, o esforço. É comum, porém, pensar na pressão apenas como forma de não deixar jogar o adversário. E, assim, esgotam-na na luta. Prioridade estranha, portanto.

A fórmula está num simples pormenor: pressionar para jogar, em vez de jogar para pressionar. Unir o esforço ao talento, e vice-versa. As marcações individuais, sobretudo quando transformam todo o campo num jogo de pares, são incompatíveis com este princípio de pensamento.

Penso nisto durante o último Boavista-Benfica, vendo como o meio-campo axadrezado perdia a auto-determinação que estivera na base das boas exibições dos seus jogos anteriores. Em vez da zona, a tentação de marcar o homem. Sem renegar princípios, o ideal estaria numa noção mais inteligente de marcar e pressionar: zona pressing. É a única forma de morder o adversário e, ao mesmo tempo, manter a lucidez na transição ofensiva. Sem essa ligação, cada ataque do Benfica provocava uma tempestade nas marcações do Boavista.

Cada treinador prepara a equipa da forma que melhor se adapta à sua visão pessoal de jogo. Em qualquer estratégia, o mais importante para a dinâmica táctica é conseguir…respirar! Ou seja, em campo, ter mais zonas para respirar do que só para pressionar. Porque, depois, o bom talento nunca falta ao encontro com o esforço.