AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO: Masopust e os Diamantes rebeldes

04 de Abril de 2002

Concentrado na beleza sumptuosa de Praga, capital da antiga Boémia, no tempo do antigo Império Austro-Húngaro, o futebol checo começou a estruturar-se desde o final do século XIX, numa era onde ainda viva sob essa tutela autoritário que mantinha em sentido toda essa vasta região onde só os fantoches e as marionetas, uma constante presença pela ruas de Praga, pareciam poder falar á vontade. Em 1880 nasceram os dois grandes clubes da sua história: o Slavia e o Sparta, mas a Federação da Boémia só seria fundada em 1901. Paradoxalmente, seria o atentado ao arquiduque herdeiro da coroa imperial austro-húngara, soberana dos checos, que desenacandeou a primeira guerra mundial 1914-1918, a levar à independência do território da antiga Morávia, dando origem, finda a guerra, á Checoslováquia, o reino dos checos e os eslovacos. Na mesma época, sob a direcção sobretudo de técnicos britânicos, o futebol checo começou a moldar o seu estilo que não seria vertical e pouco imaginativo como o das ilhas, porque o seu principal arquitecto foi um técnico escocês. Como, desde sempre, a Escócia perfilhou um estilo mais técnico e de passes curtos, com dribles, o futebol checo seguiu o mesmo caminho.

Depois das grandes actuações nos anos 30, o futebol checo mergulhou, com o eclodir da segunda guerra mundial, numa profunda crise. Com fim do conflito armado e a derrota das tropas de Hitler, o território checo libertou-se dos alemães, mas, a partir desse momento, como consequência dos acordos de Yalta, passou a estar sob a tutela soviética. Após crescer sob influência austro-húngara do mágico Danúbio, o futebol checo passava agora a estar alinhado pela cortina de ferro. Mesclando o estilo rendilhado que fizera a glória centro-europeia com a frieza do futebol de leste, gerou um estilo híbrido mas atraente, que durante a segunda metade do século, viveu entre altos e baixos, conforme o talento das diferentes gerações de futebolistas que se sucederam. As suas equipas eram ao mesmo tempo fortes colectivamente, por influência de leste, e detinham grandes valores técnicos individuais, herança do período danubiano. No inicio dos anos 50, o futebol checo atravessava um período pobre e de indefinição, motivada por uma sucessão de erros cometidos pelos seus técnicos e directores.

Goleados pela Hungria, 4-1, num particular em 1954, os checos insistiam no erro primário de marcar individualmente jogadores adversários de casse e nível técnico muito superior. Na base da crise checa estava, no entanto, a falta de talentos. Os jogadores seleccionados possuíam quase todos o mesmo estilo possante mas rudimentar enquanto a linha avançada vivia órfã de valores individuais capazes de rasgos de génio, inseridos num sistema de jogo cada vez mais ultrapassado, o WM, que exigia outro tipo de jogador, diferente do checo, mais habituado ao futebol apoiado. A metamorfose estilística mergulhara na crise o futebol checo que no Mundial-58 seria implacavelmente goleado pela Irlanda do Norte, por 4-0.

AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO Masopust e os Diamantes rebeldesDo Mundial de 1962 ficaria a sensação, vendo jogar esta selecção checa, que, demasiado estendido no relvado, o 4-2-4 exigia, para ser eficaz, dois médios verdadeiramente fora-de-série para controlar a bola e o jogo a meio campo. Caso contrário o sistema ficava sem suporte e totalmente dependente da eficácia do sector defensivo e só com isso é impossível ganhar jogos. Virtuosa, sem ser fabulosa, aquela selecção checa carecia de jogadores polivalentes para dar homogeneidade ao sistema, pois o duo Bubernik e Masopust, claramente de vocação ofensiva, abria muitas vezes grandes clareiras a meio campo, aproveitadas pelos adversários. Atento, o seleccionador Rudolf Vytlacil procurou resolver o problema, que já se sentira antes do Mundial, colocando Kvasniak no meio-campo, para assim concentrar a equipa durante largos períodos de jogo num mais coeso 4-3-3. Dizia-se então que os checos praticavam o chamado futebol do gato e do rato, pois muitas vezes deixavam-se empurrar para o seu meio campo, para depois desencadear contra ataques fulminantes. Foi assim que a Checoslováquia iniciou o Mundial 62 contra a Espanha, em Viña del Mar, num jogo muito tenso, resolvido com um fabuloso golo de Stribranyi.

Com esta vitória logo na estreia, o onze checo moralizou-se pelo que quando nos quartos-de-final encontrou a secular rival Hungria já o seu jogo era outro, mais solto e ofensivo. Após bater os húngaros, com um oportuno golo de Scherer, 1-0, e a Jugoslávia na meia-final, 3-1, a Checoslováquia regressava 28 anos depois de 1934, á final de um Mundial, onde iria defrontar o fantástico Brasil de Garrincha..

AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO Masopust e os Diamantes rebeldesCom raízes que se perdem no tempo, visitar Praga é entrar num fascinante museu de história antiga. Produto da divina escola centro europeia – o mágico futebol do Danúbio- que deslumbrou o mundo nos anos 50, o futebol checoslovaco, apesar da na sua fase inicial ter sentido uma enorme influência da comunidade alemã, depois da pioneira base britânica, nunca se deixou moldar pelos rígidos ditames físicos da concepção futebolística germânica ou inglesa, e, dono de identidade regional própria, a mesma que moldou a cultura austríaca e húngara, congeminou também um estilo temível que, historicamente, mesclou a preparação física com a classe técnica da maioria dos seus melhores futebolistas. Fortes fisicamente, os checos desenharam um jogo algo duro na defesa, mas eminentemente técnico a meio campo e criativo na frente de ataque, onde tiveram sempre jogadores que repugnavam o choque e, dizia-se, tinham medo de lesões.

Ao mesmo tempo que a mente perturbada de Franz Kafka, filho da cidade, percorria as sombras e as calçadas das ruas da velha Praga, procurando explicar a impotência do homem para entender o absurdo que o rodeava no dia a dia, o futebol checo despontou para o mundo no inicio dos anos 30. Por essa altura a convivência entre checos, alemães, cerca de 25% da população do território, húngaros, ucranianos e polacos já se tornara muito tensa. Bela e virtuosa, a história do futebol checo nasceu e cresceu emoldurada em 700 anos de sublime arte europeia, expressa no legado arquitectónico e cultural que desenha a mágica Praga, povoada de Palácios e palecetes, grandiosas igrejas, estátuas e estatuetas, edifícios de encantar, onde coexistem fachadas góticas, com rococós renascentistas, enormes e praças e praçetas todas calçadas, por onde certamente caminhou Mozart e Kafka, tudo resultado dos diferentes povos, impérios e países que fizeram dela sua amante, nas margens do rio Vitava, romanticamente atravesado por doze pontes de uma beleza comovente.

O seu primeiro grande momento surgiu no Mundial 34, na Itália, quando formando uma equipa apenas composta por jogadores do Slavia e do Sparta de Praga, apresentou um futebol habilidoso, astuto e agressivo, que a levaria até á final do torneio. Muitos deles tinham aprendido a fintar e a dominar a bola no Ceske ulice, o futebol de rua checo e revelavam agora, graças á sua experiência a nível internacional, uma maturidade futebolística temível. Na baliza estava Planika, um guarda redes que fisicamente não era um gigante, mas, nos anos 30, já tinha um posicionamento e uma técnica invulgar de estar entre e fora dos postes. No meio campo, brilhava o médio centro Cabal, veterano e que muitos pensavam já sem fôlego, mas que, tecnicista, realizou exibições soberbas. Era ele que apoiava e lançava o ataque, mas raramente passava a bola para os extremos, o ponto fraco do onze.

No ataque, três grandes estrelas: Svoboda, interior-direito, Nejedly, interior-esquerdo e Puc, extremo esquerdo. Nejedly não era um criador, muitas vezes parecia até alheado do jogo, mas na hora da verdade era um executante cirúrgico, cobrando livres e penaltys. Puc era o jogador mais rápido da linha de ataque, mas a grande figura da equipa era o veterano Svoboda, um mago que quando recebia a bola parecia esconde-la entre os pés e era quase impossível roubá-la. Depois saia a jogar, com passes e aberturas que faziam dele o grande catalisador do jogo ofensivo da equipa.

AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO Masopust e os Diamantes rebeldesExibindo um futebol atraente, a Checoslováquia chegaria á final após eliminar a Roménia (2-1), Suíça (3-2) e Alemanha (3-1). Contra a Itália, no jogo decisivo, num ambiente de grande atemorizante clamor nacionalista italiano, na presença de Mussolini, os checos, apesar de realizarem uma exibição personalizada. Um espirito destemido que suporta a tese de Viktor, guarda redes checo dos anos 70, para quem as equipas checas são sempre melhores quando sentiram medo do adversário. Quando todos esperavam uma fácil vitória italiana, a Checoslováquia impôs o seu ritmo e chegou á vantagem já na segunda parte com um golo de Puc. A Itália tremeu. Pouco depois, com os italianos confundidos, Svoboda surgiu em boa posição e rematou ao poste com o guarda redes Combi batido. Poderia ter sido 2-0 e talvez hoje estivéssemos aqui a falar num titulo mundial conquistado pela Checoslováquia. A história seria no entanto bem diferente. Sentindo fortes dores numa cavilha após uma dura entrada de Monti ainda no primeiro tempo, Svoboda teve de encostar a um flanco e deixou de ser o maestro da equipa. Sem ele, o jogo checo perdeu fulgor.

A oito minutos do final, o guarda redes Planika calculou mal o tempo de saída a uma bola e Orsi com um estranho centro-remate fez o golo do empate. No prolongamento, com passar dos minutos, o onze checo acusou a veterania da maioria das suas estrelas e perdeu o controle do jogo. No meio campo Cambal e Svoboda, totalmente exausto, já mal se podiam mexer, até que os italianos fariam o 2-1, por Schiavio, e conquistaram o trofeu. Apresentando ainda a mesma estrutura base, a selecção checa surgiria de novo confiante no Mundial de 1938, mas, quando parecia embalada, cairia nos quartos-de-final contra o Brasil. Após um jogo que, terminado 2-2, se assemelhou mais a uma batalha campal do que a uma partida de futebol, o onze checo surgiu para o jogo de desempate frente aos brasileiros sem o influente Nejedly, com um pé partido, e sem o seu carismático guarda redes Planika que partira um braço, ambas lesões contraídas no jogo anterior, acabou derrotado, apesar de manter o mesmo espirito lutador, por 2-1.

Ainda hoje sinto uma profunda decepção quando recordo estes jogos. Das duas vezes tínhamos uma equipa capaz de ser campeão mundial, afirmava nostálgico e com uma ponta de mágoa, o velho guarda redes Planika no inicio dos anos 90.

AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO Masopust e os Diamantes rebeldesA grande explosão do futebol checo surgiria sob a batuta do maestro Jozef Masopust, Pépik para os amigos, o melhor jogador checo de todos os tempos que dominou todo o cenário do futebol danubiano desde meados dos anos 50. Filho de uma modesta família operária do coração da velha Boémia, em Strimice, cresceu vendo o pai trabalhar nas minas para sustentar uma casa onde as carências aumentavam. Procurando fugir aos buracos da minas, começou a jogar futebol. A guerra e a ocupação nazi iriam, no entanto, travar os seus sonhos. Só em 1945, o jovem Pepik, então com apenas 14 anos, voltaria a calçar as chuteiras no modesto Sport Klub Most, de onde sairia em 1949, porque era obrigado a cumprir o serviço militar. Pasou então pelo ATK, Club Desportivo da Armada, o actual Dukla de Praga, em memória dos mártires tombados durante a batalha de Dukla em 1944. Aí, Masopust descobriu como treinador Koisky, antigo médio internacional, que lhe explicou os principios tácticos do jogo, ensinou-o a defender e a trabalhar também para o colectivo, onde estava já o solidário sistema de marcação á zona. O sistema de marcação individual só mais atrás, na defesa. No ataque, Masopust conheceria o velho Vejvoda. Em 1954, por fim, estreava-se na selecção nacional checa, num jogo contra a forte Hungria, então com a sua equipa de ouro no auge. A missão de Masopust não era simples: marcar Puskas!

Atropelados pelo estilo magiar, a Checoslováquia seria goleada por 4-1. Depois desse jogo, Masopust já não tinha dúvidas: o futebol checo estava aprisionado por um sistema defensivo que impedia o surgir de grandes individualidades, preconizando antes uma equipa de onze soldados, quase todos iguais, pelo que o ataque, onde ele estava, vivia desamparado, sem ninguém de talento para o acompanhar. O jogo longo, de passe em profundidade, era, em suma, a negação do estilo checo. A renovação chegaria nos anos seguintes. Ao mesmo tempo, a vila onde Masopust nascera deixara de existir para se tornar num gigantesca mina de carvão. Os seus habitantes ainda lutaram por manter as suas casas mas quando os buldozzers chegaram não havia nada a fazer. Masopust ainda pensou usar o seu prestigio para defender a terrinha onde nascera, mas naquele tempo não havia discussão possível com as autoridades comunistas. Strimice seria demolida em nome do colectivo para fazer progredir a industria socialista. A cidade passaria a chamar-se Most e se há algo que ainda hoje irrita Masopsut é que lhe digam que o nome da vila onde nasceu não era Strimice, mas sim em Most.

Em 1962, no Mundial do Chile, o futebol checo iria finalmente reencontrar-se com a sua história e estilo. Essencialmente, a equipa baseava-se no extraordinário guarda-redes Schroiff, nos médios Kvasniak e Masopust e nos alas Pophluhar e Novak. Estruturada em 4-2-4, o onze checo sentiria, no entanto, dificuldades frente ao 4-3-3 brasileiro, seu adversário na final.

AS RAÍZES DO GRANDE FUTEBOL CHECO Masopust e os Diamantes rebeldesQuando chegou a Santiago para disputar a final contra o Brasil, os jogadores checos estavam calmos e descontraídos. As suas faces sorridentes, os gestos cordiais e a forma de andar revelava que qualquer que fosse o resultado, aquela selecção já tinha cumprido a missão de resgatar o prestígio e o perfume do belo futebol checo. O inicio do jogo revelou duas equipas prudentes. Ambiciosa, a equipa checa foi a primeira a acelerar o ritmo e aos quinze minutos abriu o marcador com um admirável golo de mestre Masopust. A reacção brasileira seria, no entanto terrível mas tal como sucedera com a Itália em 1934, encontraria no guarda redes checo um aliado. Depois dos erros de Planika em 34 sucederam-se os de Schroiff, em 1962, que com dois erros permitiu que os brasileiros dessem a volta ao marcador. Primeiro deixou passar entre o seu corpo e o primeiro poste um cruzamento de Amarildo subitamente transformado, depois, já no segundo tempo, largou infantilmente uma bola fácil, ao sair a um cruzamento e ofereceu o 2-1 a Vavá. No final, o seleccionador Vytlacil desabafava: Dois erros incompreensíveis do nosso guarda redes deram o titulo ao Brasil. Que se há-de fazer? Sem os erros de Schroiff, tal como os de Planika, o resultado das duas finais do Mundial disputadas pela Checoslováquia poderiam ter sido bem diferentes. Apesar da derrota, Masopust emergira, no entanto, como o grande jogador de leste que fizera tremer os brasileiros.

O seu futebol só ganhava brilho total, porém, numa equipa que tivesse um sistema de jogo que respeitasse as tendências ofensivas, onde Masopoust, inserido no 4-2-4, era o médio que organizava, distribuía e concluía todo o jogo. Com o passar dos anos tornou-se um avançado centro ao estilo dos bons velhos tempos. Daqueles que vinha buscar a bola atrás e depois saia a conduzi-la, de cabeça erguida, com grande classe buscando o golo. Com o ala direito, mais recuado, Novak e o ala Puskal encontrou os dois companheiros de equipa ideias para explanar o seu maravilhoso futebol. Masopust acabaria a careira na Bélgica, no Molenbeek, epois de, aos 37 anos, o regime comunista, em reconhecimento pelos seus bons serviços prestados á pátria, ter permitido a sua aída do pais. Estávamos em Junho de 1968. Dois anos depois, em 1970, perto de fazer 40 anos, colocava o fim na sua carreira.

Tornou-se treinador, ainda foi campeão no banco do Zbrojovka de Brno, em 1978, mas nunca descobriria grande prazer no trabalho de técnico. Retiraria-se definitivamente do futebol em Maio de 1996, com 65 anos, após treinar a modesta equipa do Diecin.

Depois do Mundial de 62, o futebol checo voltaria a desparecer dos grandes palcos do Mundial. Em 1966, 1974, 1978, e 1986 nem chegaria á fase final. Entre 1984 e 1988, Masopust foi, sem grande sucesso, o seleccionador nacional. Em 1970 e 1982, apesar de viver um período de renascimento, corado com o titulo europeu conquistado em 1976, limitou-se a ser, no torneio planetário, uma sombra do seu passado. Apesar do valor de uma geração que tinha figuras como o guarda redes Viktor, o libero Ondrus, os médios Vizek e Panenka e o grande mago Nehoda, a selecção checa, liderada pelo estudioso Josef Venglos, sempre fiel ao seu estilo desde sempre estruturado numa defesa sólida, com líbero, um meio campo denso e técnico, e um contra ataque fulminante, limitou-se a exibir o seu talento nos torneios do Velho Continente. Em 1990, na Itália, orientada por, a Checoslováquia faria a sua ultima aparição numa fase final do campeonato do Mundo. Era a equipa de Chovanek e Skuravy que, na linha táctica e técnica das suas antecessoras, atingiria os quatos-de-final, onde seria afastada pela Alemanha, 1-0, com um solitário penalty de Matthaus.

Impulsionada pelo ideal colectivista, nascia assim uma nação que ao longo de cinco décadas daria á Europa da bola, um grupo de grandes equipas, intérpretes de grandes exibições nas competições europeias e, internamente, protagonistas de titânicos derbys, por entre palácios, marionetes e rócócos, nos Estádios da mítica Praga de Kafka. Junto do Sparta, Slavia, e de outro lendário clube, o Bohemians, nasceria, em 1956, filho do comunismo, o famoso Dukla, a equipa do exército, o antigo ATK, por onde passariam, por imposição estatal, as maiores estrelas checoslovacas da época, como, acima de todos, o famoso Masopust que, para além de cinco títulos nacionais, guiou o onze militar á meia-final da Taça dos Campeões, contra o Celtic, em 1967. Depois de durante alguns anos, obrigado pelos ventos da guerra, ter mudado o seu nome para Sparta Bratrstvi e, pouco depois, para Spartak Sokolovo, o Sparta de Praga adquiria definitivamente o seu famoso nome em 1965. Os seus maiores feitos nas competições europeias foram a presença nas meias finais da Taça das Taças, em 72/73, e as campanhas de 83/84 na Taça UEFA, terminada nos quartos-de-final frente ao Hadjuk Split, após afastar o Real Madrid, na ronda inicial e na primeira Liga dos Campeões, em 91/92, quando derrotou o Barcelona Dream Team de Cruyff.

A 1 de Janeiro de 1993, na sequência do terramoto político que desmembrou toda a Europa de leste, a velha união dos checos e eslovacos desintegrou-se e a Checoslováquia desapareceu do mapa dando origem a duas novas nações: a Republica Checa e a Eslováquia. Em termos futebolísticos, o herdeiro legitimo da velha herança checoslovaca é a Republica Checa, morada do Sparta Praga. O estilo que hoje se vislumbra em Smicer, Poborsky, Nedved, actualmente a jogar no estrangeiro, como, no inicio dos anos 90, época do último fôlego checoslovaco, se via em figuras como Skuravy, Hasek e Bilek, todos antigos jogadores do Sparta, é o mesmo que fez a história do futebol checo: disciplina táctica, resistência e técnica. Um sistema que, muitas vezes, parece jogar com dois líberos tal a solidez elegante dos seus elementos defensivos, como foram os casos de Kadlec e Bejbla, em meados dos anos 90. A nível de clubes, tal desintegração territorial e política, motivou, no entanto, um claro declínio competitivo a nível internacional, só atenuado pelo Slavia de Poborsky, semi finalista da Taça UEFA em 94/95.

Enquanto o Sparta, mais independente do Estado manteve-se, apesar dos graves problemas financeiros, num nível capaz de honrar a sua história, o Dukla, a velha equipa do exército, sem o suporte estatal, entrou em colapso e, em 1994, desceu á II Divisão. Sem recursos para obter a licença profissional, o clube entrou em profunda agonia e tornou-se amador, caindo nas divisões regionais. Era o fim de uma era. Na ânsia de resgatar os velhos tempos, saiu da cidade e, em 1997, fundiu-se com um modesto clube de uma vila mineira chamada Pribram, sita a 50 quilómetros de Praga, dando origem a um novo clube que passou a ostentar o nome do novo patrocinador: Marila Pribram, hoje presente na I Divisão da nova Liga checa. Quem o vê jogar, no entanto, lutando para não descer de divisão, em nenhum momento se recorda do velho Dukla e das suas grandes noites europeias. Hoje, pertencente a Praga, figura na I Divisão checa, junto dos históricos Sparta, Slávia e Bohemians, um novo emblema: o Viktoria Zizkov, devolvido á vida em 1992, quando após ser adquirido pelo multi-milionário Vratislav Cekan, passou da III Divisão para a Divisão principal em apenas suas épocas. Ao mesmo tempo, o Dukla, financeiramente falido, extinguia-se. Sinais dos tempos. (Texto de 2001-12-27)