As “rotinas móveis”

07 de Junho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (2)

É difícil tirar conclusões de jogos particulares ou de preparação. Ou criam entusiasmos desmedidos, ou provocam depressões exageradas. Existem , porém, sinais tácticos e técnicos que podem dizer muito. Nesses jogos, das 16 seleções do Euro 2012, 7 apresentaram-se em 4x2x3x1 (Alemanha, Holanda, Dinamarca, Polónia, Inglaterra, Ucrânia e Rep. Checa) e 5 em 4x3x3 (Espanha, França, Portugal, Grécia e Rússia). A diferença mais significativa entre os dois sistemas é o uso do duplo-pivot no primeiro caso e de apenas um no segundo. Em 4x4x2 surgiram Suécia, Croácia e Rep.Irlanda, com a Itália na versão 4x3x1x2. Mas a ideia da dupla de avançados também pode nascer do 4x2x3x1. Basta que o médio-centro ofensivo jogue mais próximo do ponta-de-lança ou que um ala faça diagonais. É o que fazem Ucrânia e Inglaterra que parecem muitas vezes em 4x4x2.

Historicamente, os marcos tácticos são um livro fechado. A tendência táctica mais dominante espelha sobretudo a preocupação de manter sempre as equipas equilibradas defensivamente mal percam a bola. O poder físico é importante, mas a ocupação dos espaços é maior.

As melhores equipas são as que vivem de rotinas. Jogadores que fecham os olhos e sabem por onde andam (eles e os colegas). Por isso, nesta fase, foi a Rússia que deu a ideia de ser (ou estar) mais equipa. O seu onze é uma união Zenit & CSKA, produções futebolísticas. A dupla de centrais (Berezutsky-Ignashevich) já criou raízes no CSKA (por onde andou muito tempo o lateral-esquerdo Zhirkov) e no meio-campo está um triângulo que troca a bola por telepatia (Denisov-Shirokov-Zyryanov), base do Zenit há vários anos, sabedores de como se movimenta o ponta-de-lança móvel que quando é preciso aparece... fixo na área: Kerzhakov, exímio a dar profundidade sem sair muito do sitio. Parecido neste estilo, só Lewandowski, nº9 da Polónia.

Em campo, são como que uma espécie de esticadores do sistema. Nunca o deixam recuar muito. Estão sempre atentos para o esticar. Exemplos perfeitos de como, as chamadas seleções de segunda linha estão hoje, cada vez mais, melhor preparadas para pensar com os...pés. Em suma: rotinas em movimento.

A “Nova Gália”

As rotinas móveisNos jogos particulares, a seleção que mais me cativou foi a França. Pode ser o renascimento gaulês pós-depressão Domenech. Não se trata de uma nova geração. Trata-se de uma montagem geracional feita, com cola e tesoura, por Blanc. Os jogadores que a habitam, sobretudo a meio-campo, são aparentemente normais, por quem as revistas ou as top-models não correm logo atrás. M`Vila (só a lesão pode impedir que seja uma revelação deste Euro), Diarra, Cabaye, e o velho Malouda. Candidatos perfeitos para o prémio de melhor ator/jogador secundário.

Na defesa, receio que o estilo tão adornado com que Mexés quer jogar o exponha mais aos erros do que ao bom futebol que tem.
As estrelas estão mesmo no ataque. Ribery é, por definição, um extremo, mas quer ser mais do que isso. Quer ser o que é, também por definição, Nasri, médio criativo que joga bem no centro, mas que neste 4x3x3 começa na ala direita.

Benzema tem golo no sangue. O que me perturba quando o vejo jogar é um paradoxo: a sua inteligência de movimentos é decisiva para o ataque mover-se bem e criar oportunidades, mas, muitas vezes, tal retira-o do melhor local para finalizar.