As zonas mais sensíveis

12 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (6)

Já demos uma volta inteira às 16 equipas do Euro e todas dão prioridade de pensamento ao meio-campo. De forma diferente, todas percebem que é nesse sector que está a chave secreta para abrir o cofre-forte do jogo.

A Itália cria sempre uma dúvida metódica em torno da táctica defensiva e a estética da técnica. A Espanha é a seleção que, nos últimos anos, melhor respondeu à eterna questão sobre "o que é jogar bem" . Parece uma luta do bem contra o mal. O futebol não é, no entanto, um jogo assim tão sensível. Existem, porém, espaços específicos na qual essa sensibilidade é maior: a zona do último passe e as zonas perto da nossa baliza.

A Itália surgiu num sistema de defesa a 3 (3x5x2) mas é fundamental salientar que o homem do meio nessa linha de três (zona sensível 1) é um médio recuado, o pivot De Rossi. Quando joga na posição 6, é natural os centrais alargarem e ele recuar para pegar na bola e iniciar a construção. Portanto, a conclusão é simples: para a equipa resgatar a clássica defesa a 4 (4x4x2) basta ele dar dois passos à frente e volta a ser pivot. Para voltar ao esquema a 3, são outros dois passos para trás e regressa a terceiro-central. Nesta versão, permite que Pirlo suba mais com a bola até zonas do...ultimo passe (zona sensível 2). Viu-se no golo à Espanha, onde fez o passe fatal para o avançado com, talvez, maior poder de desmarcação da Europa: o rato velho Di Natale. Em suma: a ocupação das zonas mais sensíveis é uma questão de dois passos para a frente ou dois passos para trás.

A Inglaterra, historicamente, nunca achou que tinha nada a aprender com os tacticismos continentais, mas nos últimos anos encheu o seu futebol de treinadores italianos. Capello partiu mas a reciclagem de estilo permaneceu. Contra a França, foi fiel à escola do 4x4x2, baixou as linhas do meio-campo, juntou-as, ignorou o upgrade de técnica dos seus médios, e procurou sempre esticar rapidamente o jogo em transições com passes longos. Prende os dois médios nº8, Gerrard-Parker na casa dos trincos, mas pode jogar num relvado com as luzes apagadas que já sabe tacticamente onde pisar. É a moderna sensibilidade defensiva inglesa.

Guardar a bola

As zonas mais sensíveisA resposta espanhola sobre o que é jogar bem, começou este Europeu com a mesma teia-de-aranha de passes curtos mas sem...baliza. A tentação de fazer o transfer-Barça para a seleção, levou Del Bosque a montar um onze sem ponta-de-lança clássico. A França procurou jogar com as mesmas ideias em termos de posse mas não tem a mesma velocidade de construção apoiada em posse. Tem no entanto, dois jogadores que metem diferentes velocidades individuais. Ribery pela verticalidade, Nasri na construção. A questão do ponta-de-lança dentro de equipas que se dizem de posse pode parecer, no papel, menos relevante, pois imagina-se sempre que são os médios a entrar de trás, mas na prática é difícil, com essa fórmula, reconhecer muitas vezes esse espaço para o último passe. Dá-me ideia que Benzema move-se demais no ataque da França para ser referencia.

Na Espanha, a formalidade do ponta-de-lança é indispensável para a equipa (e seu jogo) ganhar profundidade. No resto, é o controlo do meio-campo. Nesse território, França e Espanha são as equipas que melhor guardam a bola deste europeu. Quando descobrem a zona sensível do último passe, também são as que jogaram melhor até agora.