Atlético-MG de Ronaldinho: consistência e campanha histórica no Brasileiro

02 de Setembro de 2012

Atlético-MG de Ronaldinho consistência e campanha histórica no Brasileiro2

Treze vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. Trinta e três gols a favor e treze contra. Ataque mais positivo e segunda defesa menos vazada. O notável aproveitamento de 80% em dezoito jogos é inédito na era dos pontos corridos no Campeonato Brasileiro. Em todas as edições desde 1971 só é superado pelos 84% do lendário Internacional de Falcão, campeão em 1976.

Os números impressionantes do Atlético-MG, líder e “campeão” do primeiro turno, são consequência do fantástico desempenho até aqui da equipe comandada por Cuca. Organizada, consistente e intensa. Forte na defesa e que nunca abdica do ataque, mesmo fora de casa.

O 4-2-3-1 funcional do título estadual no primeiro semestre ganhou experiência e categoria com o encaixe de Ronaldinho Gaúcho na articulação central. Com liberdade de movimentação, muitas vezes se juntando a Jô quase como um segundo atacante, o craque circula numa faixa de campo que não prejudica a equipe se errar o passe ou lançamento, seu grande problema nos tempos de Flamengo.

Nas últimas rodadas, particularmente, o agora camisa 49 – referência ao ano de nascimento da mãe, Dona Miguelina, que passou por problemas de saúde nos últimos meses – brilhou intensamente com belas jogadas, precisão nas bolas paradas e lampejos de genialidade, como no golaço no empate por 2 a 2 contra o rival Cruzeiro. O melhor do mundo em 2004 e 2005 ganha liberdade pelo trabalho abnegado dos meias pelos lados.

Inesgotáveis, Danilinho e Bernard pressionam a saída ou voltam acompanhando os laterais adversários, invertem o posicionamento pelos flancos, se movimentam por todo o ataque, procuram a linha de fundo para os cruzamentos ou as diagonais buscando as conclusões, além de funcionarem como suporte para as ultrapassagens dos laterais Marcos Rocha e Júnior César.

Atlético-MG de Ronaldinho consistência e campanha histórica no BrasileiroO 4-2-3-1 atleticano: com Danilinho e Bernard voltando pelos lados, Ronaldinho ganha liberdade para criar e se aproximar de Jô.

Apesar do brilho coletivo e de Ronaldinho atraindo as atenções, o grande destaque da equipe mineira até agora é o dinâmico Bernard. Já marcou três gols e foi responsável por seis assistências. Apesar do desgaste para executar as multifunções pela esquerda, é regular e dificilmente fica de fora. Ao contrário de Danilinho, que se contundiu e deu lugar a Guilherme e Escudero pela direita e só retornou no clássico mineiro.

Menção honrosa também à segura dupla de zaga formada por Leonardo Silva e Rever, que erra pouco à frente do ótimo goleiro Victor e ainda contribue no ataque.

O Galo alterna pressão na saída adversária forçando a ligação direta e marcação no próprio campo com duas linhas de quatro atrás de Ronaldinho e Jô. As manobras ofensivas são bem distribuídas pelos flancos e no centro, com tabelas, ultrapassagens e lançamentos para Jô reter a bola na frente e fazer a parede para quem chega de trás.

O time de Cuca ainda tem variações defensivas: quando o oponente conta com um jogador aberto pela esquerda, o volante Pierre recua, quase como um lateral-direito, e Marcos Rocha se torna mais um meia, não simplesmente um ala. Leandro Donizete, o bom volante que sai mais para o jogo, se fixa à frente da retaguarda.

Atlético-MG de Ronaldinho consistência e campanha histórica no BrasileiroVariação defensiva: o volante Pierre marca o ponta pela esquerda e o lateral Marcos Rocha se transforma em meia.

Como não existe perfeição, em alguns momentos a equipe se expõe e corre riscos sem necessidade. Apesar de toda a técnica e rodagem de Ronaldinho, Cuca não conta com um jogador para parar a bola, quebrar e dosar o ritmo.

Ao contrário da “filosofia Barça”, o estilo é vertical, sem maiores preocupações com a manutenção da posse de bola. O líder do campeonato é apenas o 11º neste quesito. Também o 15º que mais troca passes e o 13º no aproveitamento do fundamento. (números: Footstats).

O Galo é sempre intenso. Nem sempre contundente, porém. É a equipe que mais finaliza, quase quinze por jogo, mas tem apenas o sétimo melhor aproveitamento nas conclusões. Algo a ser melhorado em equipe que ainda pode progredir.

Mas já faz o suficiente para sobrar no campeonato, mesmo com um jogo a menos - contra o Flamengo no Rio de Janeiro, adiado por problemas no gramado do Engenhão - e a perseguição do Fluminense, apenas um ponto atrás na tabela. O turno vai chegando ao fim e o Atlético-MG não oscila, segue absoluto em competição tradicionalmente marcada pelo equilíbrio.

Por isso é o maior candidato ao título que não conquista desde 1971. E ainda pode igualar ou até superar a campanha histórica do arquirrival Cruzeiro em 2003 na era dos pontos corridos: 72% de aproveitamento com 23 clubes. Melhor não duvidar.

André Rocha é jornalista e escreve o blogue Olho Tático da GloboEsporte.