O “barco de pesca do futebol”

06 de Outubro de 2016

Há anos atrás. quando se falava do futebol das Ilhas Faroé, imaginava um campo rudimentar, mar atrás, neve e um guarda-redes que parecia ter saído de um barco de pesca que usava um gorro branco (ou bege, não sei bem), com um pompom em cima. E, no fim, levavam quase sempre uma goleada. Esse guarda-redes herói, que era o símbolo dessa seleção que deu o grito de independência na comunidade futebolística internacional era Jean Martin Knudsen e já deixou de jogar em 2007 (após passar a maior parte da carreira no NSI Runavik, tendo a única vez que jogou fora da Ilha sido na Islândia, no Leifur).

Desde esse tempo, confesso que o futebol das Ilhas Faroé perdeu algum encanto para mim. Era quase como se fosse banda-desenhada em relvados verdadeiros.1 Tornou-se mais uma seleção vinda o frio. Ou do gelo. E a verdade é que, com o tempo, foi-se tornando mais competitiva. É cada vez mais difícil ganhar-lhe, sobretudo em casa, já conseguiram vitórias incríveis e há pouco no nosso grupo do Mundial empataram com a Hungria. É a este território que joga e tem a bola com a mesma naturalidade que a não tem e choca com os adversários que Portugal vai visitar após defrontar primeiro o onze de Andorra que continua, essencialmente, a ser definido pelas profissões que os seus jogadores exercem durante o dia antes de ir treinar à noite. É este, depois de perder na Suíça, o nosso caminho para o Mundial nos próximos dias.

Um campeão europeu tem de saber estar em qualquer sitio. Nos melhores salões de visitas internacionais no glamour de Paris, como numa casa de pesadores em madeira com adeptos de gorro nas Ilhas Faroé.

O que quero dizer com isto é, basicamente, jogar sem o nariz no ar. Sem deslumbramentos. O Europeu já acabou e tirando a Final nem vimos um gigante de perto pelo que um dia isso terá de acontecer, mas enquanto não acontece é com estas

seleções que vamos jogando. Encará-los como seres menores com bola é um mau principio.

Futebolisticamente, em campo, gostava de ver recriado o nosso estilo de jogar. Já o disse várias vezes. Porque se perder, quero sentir como o nosso futebol é de qualidade, estética, técnica e táctica. A evolução do nosso jogo é um desafio que se coloca. Por isso, na Suíça, sem o carácter reativo de Euro, não ficou muito mais que se visse. Perdemos e, no fim, não sentimos nada.

Por fim, ao fim de varias lesões alheias, Pizzi também chega à seleção onde gostava de ver nestes jogos o Pedro Santos que está jogar muito no Braga. Afinal, são dois jogos para atacar e ganhar (e o Pizzi foi chamado pela lesão do Nani).

Ganhar é o único verbo que tenho ouvido nos últimos tempos. Jogar bem é aquele que me ecoa dentro da cabeça. Porque será?

O QUE ME FAZ (FEZ) SONHAR: Gorro com pompom

Já aqui falei nele e é impossível não o meter também nesta “caixinha de sonhos”, a poucos dias de jogarmos nas Ilhas Faroé. Quando o vi, no inicio dos anos 90, na baliza deste país que nem me lembrava que existia, mas que ganhava então à Áustria de Poulsen, nunca mais o esqueci: Jean Knudsen, um guarda-redes com um gorro com um pompom em cima. Acho que tinha um problema de saúde qualquer na cabeça que o obrigava a usar. Não importa. Aquilo era um “cartoon em campo”. Mágico!