Base: o factor qualidade

25 de Outubro de 2016

Compromisso, união, atitude, são bases da existência (e comportamento ativo) humano. Qualidade, inteligência, posicionamento, são bases da existência (e do comportamento dinâmico) futebolístico. Ambos, individualmente e em grupo.

Nenhuma destas realidades pode existir sem a outra numa equipa de futebol em busca da excelência. Uma sem a outra ficam existencialmente sozinhas. Incapazes de mudar a realidade.

O que Nuno referiu aplica-se ao funcionamento duma equipa de futebol como à organização duma empresa, ambas entendidas enquanto noção de grupo. Mas como é de futebol de que se trata, ou seja, dum jogo em que do outro lado pode estar uma equipa exatamente com os mesmo valores de existência humana de grupo, a diferença só se poderá fazer através de outros factores: maior qualidade, mais inteligência. De jogo, claro. O futebol é (tudo) isto. Atitude... inteligente, com qualidade (individual e colectiva, a táctica).

E há equipas que explicam isso hoje muito bem. Até Mourinho (ou Guardiola) sentiu isso na pele no último jogo. Não perdeu por falta de atitude. Não questiono a vontade que aqueles jogadores tinham de ganhar ao Chelsea. Da mesma forma, como os que fizeram a trincheira defensiva do Arouca estavam comprometidos com a sua missão. Ou melhor, nenhum deles, perdeu por falta de atitude. Perdeu por falta de atitude de... qualidade (táctica e até técnica). Como, em Londres, teve o Chelsea, o grupo em cooperação táctica permanente de Conte.

Não é preciso, porém, sair da nossa realidade, para perceber isso. O melhor que o FC Porto mostrou ao longo de décadas teve atitude com afirmação de qualidade.

A que hoje se pode detectar em Oliver (vendo como os seus movimentos criam espaços vazios ao jogar da equipa) ou André silva (como antes em Jackson ou Moutinho). O crescimento do atual FC Porto é essencialmente de qualidade táctico-técnica. Como também se pode ver, em sentido contrário, noutros locais.

Não vejo o Sporting de Jesus com menor compromisso e atitude. Vejo-o com menos qualidade. Uma coisa é Adrien. João Mário e Slimani. Outra é Elias, Bruno César e Dost. Compromisso igual, qualidade diferente, menor, eficácia táctica perdida.

O factor humano no grupo é decisivo mas no futebol é impossível dissociar isso do facto de tal de ser expresso num jogo, em plano competitivo, perante um outro grupo, adversário, que pode ter os mesmo valores. Por isso, Existem boas equipas unidas com atitude. E existem boas equipas unidas com atitude de... qualidade e inteligência. Essas são as melhores. Não são a mesma coisa. A táctica com “T” grande engloba tudo isso. Individual e colectiva. Compromisso de qualidade. Mental, físico e técnico.

A equipa “partida”

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De repente, desabam criticas em cima das exibições do Sporting de Jesus. Mais uma vez o “factor qualidade” que se perde sem Adrian volta a ser decisivo. Neste caso, taticamente de forma mais evidente (enquanto, em campo, o onze continua cooperante mas sem qualidade). As criticas aparecem porque taticamente a equipa recuou aos tempos mais puros da noção de “equipa partida” (entre o momento defensivo e o momento ofensivo) que Jesus gosta de promover na forma de jogar das suas equipas.

Um problema que abre uma clareira de controlo das transições e da construção em posse. Resolve-se quando aparece um jogador que, na posição nº8, consegue “colar taticamente” a equipa pelo seu compromisso táctico de qualidade (como na Luz fizeram Witsel, Enzo, Pizzi e em Alvalade Adrien).

Sem esse jogador, o modelo (onde mora o sistema desequilibrado por natureza) perde-se a meio do caminho. Sucede contra equipas grandes ou pequenas. A troca de Elias por Bruno César na posição mº8 (feita duas vezes seguidas, contra Dortmund e Tondela) denuncia onde Jesus vê o problema. A equipa parte-se e a partir dai o jogo também.