A (re)Criação segundo Rui Vitória

21 de Maio de 2016

Jesus colocou a questão de forma egocêntrica entre criação e cópia, mas, numa análise fria, a questão deste “Benfica campeão de Rui Vitória” ter, na estrutura e jogo, várias coisas do anterior criado por Jesus, é verdade. Nem poderia, aliás, deixar de ser, num aproveitamento inteligente que qualquer treinador deve fazer quando chega a um clube e encontra muito trabalho bem feito.

Rui Vitória percebeu isso e por isso não quis perder muitas dessas ideias mas sem deixar ao mesmo tempo de meter as suas. Foi o tentar desse cruzamento ideológico de modelos que retardou o adquirir da consistência táctica da equipa. Consegui-o quando definiu as pedras-base do meio-campo capazes de equilibrar o sistema e lhe darem (com linhas mais juntas em relação ao tempo de Jesus) a ligação entre os vários momentos de jogo (organização e transições) com relação entre faixas e zonas interiores, algo que na tal fase de indefinição não conseguia.

É irrelevante dizer que Rui Vitória nunca foi treinador de 4x4x2 e que jogara sempre em 4x3x3 porque (embora seja verdade essa preferência no passado) nenhum sistema tem vida própria. São os princípios que lhe dão vida. Assim, duas equipas podem jogar ambas em 4x4x2 e jogar de forma... diferente. Isso notou-se neste Benfica sobretudo na maior proximidade entrelinhas evitando que os sectores se partissem (a noção de “equipa partida”) como Jesus promovia.

As equipas são um processo de construção continua que num contexto em que se mantem os interpretes base (e suas características que promovem um determinado jogar mais especifico) tende, naturalmente, a manter muito do que vem da época anterior. Não foi, porém, pelo passado que ganhou até porque, em campo, teve de defrontar, nesse fantástico “jogo de espelhos competitivo”, o seu próprio criador que tinha colocado a fórmula em ação noutro local, Alvalade. As fotocópias não existem no futebol.