BOCA JUNIORES

01 de Abril de 2005

(1905-2005)
Perón chamou-lhe o clube dos "descamisados", espelho da sua génese popular, nascido nos gestos puros dos meninos descalços de La Boca. Um fascinante mundo de jogadores que se confundem com as suas lendas, por onde, através dos anos, desfilam, ao som nostálgico do tango, nomes como Tarascone, Cherro, Varallo, Boyé, Pescia, Lazzati, Rattin, Sanfilippo, Brindisi, Pernía, Mouzo, Maradona, Gatti, Riquelma, Palermo, e, muitos, muitos outros, ídolos eternos da mítica "bombonera"

BOCA JUNIORESToda a imensa pampa Argentina, desde El Chaco até á Ilha do Fogo, é uma intensa cocktail de emoções futebolísticas. Nenhum clube, no entanto, cativou tantos adeptos e despertou tantas paixões como o Boca Juniors, nascido em La Boca, pobre bairro de Buenos Aires, situado junto ao antigo porto, famoso pelas suas casa de cores berrantes, -vermelho, amarelo, azul- e pelo grande núcleo de emigrantes italianos, sobretudo genoveses, que, desde tempos idos, ai se fixaram. Seria num banco da praça Solis, que, em 1905, um grupo de cinco rapazes, Baglietto, Scarpatti, Sana, e os irmãos Farenga, decidiram fundar um clube de futebol representativo do bairro onde viviam. Reunidos no cais, os jovens fundadores tinham agora de escolher os equipamentos. Decidiram então, que teriam as cores da bandeira do primeiro navio que ali atracasse. O primeiro a aparecer seria um navio sueco, pelo que a camisola do Boca Juniors eternizou-se como azul e amarela. Com o tempo, a sua génese popular entrou no coração do povo, tornado-se no clube dos descamisados, como lhe chamaria Juan Perón. Em 1925, no tempo dos pachorrentos barcos a vapor, três espanhóis, Zapater, Isaesmendi e Ibañez, decidiram organizar uma digressão do Boca Juniors, reforçado com cinco jogadores de outras equipas argentinas, pela Europa. Era a primeira vez na história que um clube argentino ia jogar no velho Continente. Navegando no navio Formosa, a comitiva gaúcha levou 20 dias a chegar ao destino inicial: Vigo. Depois, durante mais de 5 meses, o Boca passou por toda a Espanha, França e Alemanha, disputando 19 jogos, ganhando 15, empatando 4 e perdendo 3. Cada integrante da equipa, que era orientada pelos jogadores Tesorieri e Elli, ganhou 10 pesos, excepto Toto Caffarena, o primeiro grande hincha boquense, que pagou todas as despesas do seu bolso e, á falta de pessoal especializado, foi também massagista e roupeiro. Viva-se a época dourada do amadorismo, período no qual o Boca conquistou 6 Campeonatos argentinos, 1919, 1920, 1923, 1924, 1926 e 1930, o último torneio amador. Desse tempo, a memória retêm os nomes de Américo Tesorieri, um guarda redes único na época tal a forma como se impunha em toda a área, atrás de uma prodigiosa dupla de backs, defesas centrais, o duro Muttis e o elegante Bidoglio. Nas acções atacantes, todos se levantavam para ver Garassini e Tarascone.

CHERRO E VARALLO: Goleadores

BOCA JUNIORES1Quando se fala no maior goleador da história do Boca Juniores, dois nomes surgem de imediato: Roberto Cherro e Francisco Varallo, ambos sente-se com direito a deter a proeza. Se tiver-se em conta os golos marcados tanto no amadorismo como no profissionalismo, o maior foi Cherro, que jogou entre 30 e 38, marcando 213 golos. O profissionalismo começou em 31, ano em que Varallo ingressou no Boca Juniores, vindo do Gimnasia. Jogou no clube até 1939, obtendo 209 golos, sempre em torneios profissionais. A polémica reside em contabilizar, ou não, o torneio amador de 30 para apurar quem de facto foi o maior goleador de todos os tempos. Seja qual for a tese aplicada, uma coisa é pacifica: ambos foram dois grandes goleadores dos anos 30. Rezam os registos da época, porém, que tinham estilos diferentes. Cherro, El Cabecita de Oro, era, como a alcunha indica, muito forte no jogo aéreo, para além de, dizem, astuto e habilidoso. Varallo, Don Pancho, impunha-se mais pela velocidade. Podia ter feito muitos mais golos, mas decidiu retirar-se em 1939, quando tinha apenas 29 anos. Juntos, Cherro e Varello conquistaram os campeonatos de 1931, 1934 e 1935, todos sob as ordens do treinador Mário Fortunato.

ANOS 40: Mi Noche Triste, O Futebol como um Tango de Gardel

JBOCA JUNIORES2ogado da profundezas da alma, o futebol argentino dos anos 40, só poderá ser bem entendido, se observado ao som da melancólica e misteriosa melodia de Mi Noche Triste, sentir dos meninos descalços do bairro de La Boca na voz de Gardel. Em 1940, o Boca passava, por fim, a jogar no seu novo Estádio, que embora tendo o nome oficial de Camilo Cichero, o presidente que projectou a sua construção, é famoso como La Bombonera, devido a que sendo construído numa área muito pequena, as suas bancadas foram ampliadas verticalmente, ficando arquitectonicamente semelhante a uma caixa de bombons. Era nessa atmosfera que se situava o sedutor futebol do extremo direito Mário Boyé, El Atómico, que, marcando 112 golos em 208 jogos, foi um digno sucessor de Varallo. No meio campo estava um memorável trio : Sosa, Lazzatti e Pescia, modelo de garra e técnica. Carlos Lucho Sosa, era um ala que desarmava e saia a jogar, Pescia, era um fosso de temperamento, que no passado jogara ao lado de Lombardo e Mouriño, enquanto que Lazzatti, era já uma lenda, que também figurara num mítico meio campo, nos anos 30, com Vernieres e Suarez. Passou 13 anos no Boca, disputando 315 jogos, conquistando os campeonatos de 34, 35, 40, 43 e 44. Regressaria, mais tarde, em 1954, como treinador, logrando, logo de entrada, o título nacional que já fugia há 10 anos. Depois disso, nunca mais treinou e tornou-se jornalista. Decisivo nos títulos de 43 e 44, seria também Severino Varela, regressado de longos anos em Montevideo, pelo muitos o tratavam por Uruguayo. Outros, porém, chamavam-lhe La Boina Fantasma, por jogar sempre com um boina branca a cobrir a cabeça, e um dia, com esse visual, ter marcado, com um fulgurante cabeceamento em voo, um decisivo golo ao River Plate. O simples recordar destes nomes emociona os velhos adeptos do Boca, como há tempos, durante um partido de campeonato, se lia num pano: Si no lo sientes, no lo entiendes!

ANOS 60: OS TEMPOS DE EL RATA RATTIN

BOCA JUNIORES4É impossível pensar no futebol argentino dos anos 60, sem lembrar de imediato a figura de Antonio Rattin, capitão da alviceleste e um símbolo do Boca Juniors, pelo qual se estreara, a substituir o credenciado Eliseo Mouriño, com apenas 18 anos, em 1956, num jogo contra o River Plate, no qual marcou de forma implacável o mítico Labruna. A partir desse dia, tornou-se no farol da equipa, o fabuloso El Rata Rattín, transmitindo sempre grande personalidade. Conquistou os campeonatos de 62, 64 e 65, disputando 352 jogos e marcando 26 golos, mas a maior recordação que o futebol mundial tem dele remonta ao Mundial-66, quando, no decorrer do Inglatera-Argentina, o árbitro alemão Kreitlen, presumiu que ele o insultara e ordenou a sua expulsão. No entanto, nu tempo em que ainda não havia cartões, Rattin negou-se abandonar o terreno e procurou explicar-se. Evidentemente Kreitlen não falava espanhol, nem Ratin alemão. Foi um diálogo de surdos que durou quase 20 minutos com o jogo interrompido, até que muito a custo, quando todo o onze já ameaçava sair com o seu capitão, Rattin decidiu, por intervenção de agentes da FIFA abandonar o relvado. No Mundial seguinte, lembrando esta situação caricata, a FIFA decidiu por fim, inventar os cartões amarelo e vermelho. Ao lado de Ratín, na cancha da Bombonera, assistiu, também, durante os intensos anos 60, cada um nos seus ciclos, ao perfume futebolístico de talentos como Orlando, El Chapa Suñe, Cholo Simeone, Angel Rojas, o brasileiro Paulo Valentim e o finíssimo lateral esquerdo Silvio Marzolini, El Adonis Rúbio, um poço de técnica e elegância no trato da bola, que entre 1960 e 1972, realizou 366 jogos pelo Boca Juniors, marcando 9 golos. Iniciava-se a era moderna do futebol argentino.

JOSÉ SANFILIPPO: O MESMO GOLO, 40 ANOS DEPOIS

Nos anos 60, jogou no Boca Juniors, um dos melhores avançados argentinos de todos os tempos. El Nene Sanfilippo, que também alinhara no San Lorenzo. Foi o herói de toda uma geração, como recorda Osvaldo Soriano numa carta escrita a seu amigo Eduardo Galeano, que este transcreveu em Fútbol, a Sol y Sombra: Fui no outro dia com Sanfilippo ao supermercado Carrefour, onde antes era o campo do San Lorenzo. De repente, no meio de queijos e filas de chouriços, abre os braços e diz-me, enquanto se cruza uma gorda que empurra um carrinho cheio de latas, bifes e verduras: “só de pensar nos grandes golos que fiz aqui...”. Concentrando, como quem espera um centro, conta: “A baliza era ali”, assinalando as caixas para pagar. “Disse a Capdevilla para me meter a bola aqui, apontando para uma pilha de frascos de maionese. A bola caiu atrás do centrais, saltei para ali onde está o arroz, vês?” Aponta o local e salta para ele como um coelho, “deixei-a pinchar e todo no ar rematei de esquerda”. Todos olhamos para as caixas, onde estava a baliza há 40 anos, e a todos nos parece que a bola vai entrar no ângulo, mesmo junto onde estavam as pilhas para rádios e os enfeites de natal. Sanfilippo ergue os braços para festejar. Os clientes e funcionários aplaudem e eu, quase que choro. Sanfilippo tinha marcado de novo aquele golo de 1962, só para que eu o pudesse ver.

O MONSTRO MOUZO E O DESPERTAR DE EL PIBE

BOCA JUNIORES5Apesar de ter começado no Argentinos Juniors, seria na Bombonera que o mais famoso jogador argentino de todos os tempos iria pela primeira vez assombrar o mundo com a sua magia. Maradona ingressou no Boca, no inicio de 1981, numa altura em que, ainda no defeso – não esquecer que a época oficial sul americana corresponde ao nosso ano civil- era pretendido pelo Rver Plate e Barcelona. O presidente do Boca, Martin Noel seria, porém, mais astuto e por cerca 900 mil contos, contrataria El Pibe de ouro, nesse tempo com apenas 20 anos. Com ele, o Boca venceu o campeonato de 1981, com 17 golos de Maradona em 28 jogos. Foram tempos inesquecíveis. Nessa fantástica equipa jogavam também o Loco guarda redes Hugo Gatti, o avançado Luís Brindisi, um dos melhores avançados de sempre, o terrível Cabón, o único homem a marcar quatro golos ao River Plate e o temperamental Vicente Pernía. No centro da defesa estava um homem que atravessara duas gerações, desde Rattín a Maradona, sempre com as cores xenises: Roberto Mouzo, o jogador que mais vezes vestiu a camisola do Boca Juniors. Desde 1971 a 1984, realizou 395 jogos e marcou 67 golos. Era um humilde muchacho de la Boca, que despontara desde pibe nas escolinhas do clube. Dava tudo dentro da cancha. Tornou-se titular indiscutível até para o hincha mais fanático desde quando, em 1975, foi chamado, pelo técnico Rogelio Domínguez, a substituir Rogel, que sairia para o México. O seu contributo para a conquista da Copa Libertadores em 77 e 78, fizeram dele um mito. Em 1995, passados 14 anos do mágico titulo de 1981, Maradona regressaria ao Boca Juniors, numa altura em que a sua careira, e toda a vida, se perdera num labirinto de contradições. A sua mera presença, no entanto, arrastava multidões. Entre 95 e 97, faria então 29 jogos e 7 golos. Fez o último jogo da sua carreira em 25 Outubro de 97, contra o River Plate, vencendo 2-1. Hoje, continua um grande adepto do clube, do qual assistia aos jogos, vibrando como o mais fanático dos hinchas, como que num simbólico regresso ás raízes da fama.

HUGO GATTI: El Loco

BOCA JUNIORES6É recordado como um loco das balizas, o primeiro guarda redes líbero do futebol mundial, mas ele gosta mais de ser recordado como o fantasista que logrou a proeza de alegrar o posto mais triste do futebol. Começou por se destacar no River Plate e no Gimnasia y Esgrima, mas a todos sempre confidenciou que o seu sonho era jogar no Boca. Ficou famoso por jogar sempre muito adiantado, antecipando-se aos avançados no limite da área, como um líbero. Era uma personagem carismática, que não parava nunca de incentivar os seus colegas e que viveu o futebol como uma festa, sem dramatismos. Uma vez, quando ainda jogava no Gimnasia foi jogar contra o Boca, na Bombonera. Conta-se então que, quando foi buscar uma bola que saíra para junto da bancada onde estava a hinchada mais fanática do Boca, levantou a camisola, no momento em que todos o começavam a assobiar, e por debaixo do equipamento principal, mostrou a camisola dos seus amores: a azul e ouro do Boca. Em 1975, quando já era um génio das redes, ingressou, por fim, no seu Boca Juniores, pelo qual fez 381 jogos, entre 1976 e 1984. Foi o mais controverso e famoso guarda redes do futebol argentino, mas nunca jogou na fase final de um Mundial. Defendeu 28 penaltys, record na história do clube, sendo o mais famoso aquele que parou, em 1977, contra o Nacional Montevideo, conquistando a primeira Copa Libertadores da história do clube. O ultimo titulo que ganhou pelo Boca, foi o campeonato de 1981, com Maradona. Jogou sempre com uma fita na cabeça e manteve-se ao mais alto nível até aos 43 anos.

ESTRELAS DA BOMBONERA, ANO 2000

BOCA JUNIORES7No final do século, a Bombonera, voltou a enlouquecer com um onze guiado pela varinha mágica do carismático técnico Carlos Bianchi. Em Junho de 1999, o seu Boca Juniors ganharia estatuto imortal, quando ultrapassou o histórico do Racing de Juan José Pizzuti que, tal como o Boca de Bianchi, permanecera 39 jornadas sem perder, entre 65 e 66. 33 anos depois, o Boca Juniors resgatou essa aura ganhadora, reconquistando o titulo argentino, a Copa Libertadores e a Taça Intercontinental, sob o impulo, no relvado, de dois novos símbolos: Riquelme e Palermo. O Maestro e o goleador. Riquelme é um clássico nº10, dono de requintada capacidade técnica. Com 22 anos, é um alquimista do toque. No seu estilo elegante, a que não falta a picardia latino americana, projecta-se o futuro do futebol argentino. O loco latino Martin Palermo, que todos os dias surge com o cabelo pintado de cor diferente, é uma força da natureza, com um remate fulminante. O seu futebol é um vulcão em permanente erupção, nas chamadas cabines telefónicas da grande área. Nos gabinetes, está o jovem Presidente Mauricio Macri, filho de um importador de automóveis, que tomando posse em 1996, com 37 anos, revolucionou todas as estruturas do clube, antes mergulhado numa grave crise desportiva e financeira. Ao longo dos anos consagrou o Boca como um clube de formação. Para continuar essa tradição, Macri contratou o famoso Jorge Griffa, considerado o melhor descobridor de jovens talentos do fútbol argentino. Com ele, o futuro está assegurado.

Fundado a 3 de Abril de 1905 Onde Joga: Estádio Dr. Camilo Cichero, La Bombonera Campeão Argentino: 1919, 1920, 1923, 1924, 1926, 1930, 1931, 1934, 1935, 1940, 1943, 1944, 1954, 1962, 1964, 1965, 1969, 1970, 1976 e 1981 (Metropolitano), 1993, 1998 (Abertura), 1999 (Clausura), 2000 (Abertura) e 2003 (Abertura). Copa Libertadores: 1977, 1978, 2000, 2001 e 2003. Taça Intercontinental: 1978, 2000 e 2003 SuperTaça Libertadores: 1989 SuperTaça Sul-Americana: 1990 (texto de 2000-12-04)