Bola e relva: o silêncio dos inocentes

10 de Julho de 2008

Bola e relva: o silêncio dos inocentes

Vender ilusões é o principal negócio do futebol actual. Uma longa viagem que cada época tem sempre um inicio romântico, mais ou menos convincente. Os três grandes do futebol português regressaram aos treinos. No meio da tempestade que cai em seu torno, uma simples bola de futebol parece que nem ser deste mundo. Mas é. E só ela pode tirar este tom “cinzento” de cima das ilusões que cada equipa, cada treinador, quer criar no seu onze. Porque FC Porto, Benfica e Sporting existem sobretudo dentro do relvado. É esse o único local onde faz sentido “discutir” futebol. Tudo o resto é “fado”.

Na segunda linha financeira do futebol europeu, a luta por descobrir grandes reforços, jogadores que vendem ilusões por si só, é quase Uma missão impossível. Falar em Aimar ou em Micolli é falar noutra classe de jogadores. “Top” mundial. Rui Costa percebe bem o sentido desta definição. Como Lucho ou Quaresma explicaram no FC Porto das últimas épocas. A construção de uma equipa tornou-se uma obra de engenharia financeira cruzada com a astúcia desportiva para saber tomar as opções certas. O Benfica, a sua história, necessita desse tipo de jogadores.

Fazer uma equipa é, no fundo, definir uma coluna vertebral forte: guarda-redes; defesa-central; médios-centro; ponta de lança; São estas as posições-chave. Quatro jogadores. No meio-campo, a definição dos pivots, defensivo e ofensivo, depende de como se quer jogar. Os três grandes mexeram nessas posições esta época. A forma como as irão decorar será decisivo para o estatuto competitivo que as equipas irão ter.

Tacticamente, saindo Quaresma, talvez o FC Porto seja a equipa a mexer mais na sua forma de jogar (o caminho do 4x3x3 até ao 4x4x2), dando mais alternativas estratégicas quando a intensidade competitiva subir (sobretudo no cenário internacional). No fundo, a importância de uma “cebola” (Cristian Rodriguez) na dimensão táctica. O 4x4x2 do Sporting de Paul Bento pode adquirir outras faces. Descobrir que Rochemback irá pisar os relvados portugueses e saber o destino de Veloso e Moutinho são os principais enigmas para saber que transformação poderá sofrer o velho losango. A nova versão espanhola da Luz ainda busca novos heróis. No centro, um velho enigma leonino que mudou de habitat. Carlos Martins. O talento em confronto com a crise existencial.

No arranque da pré-época, Jesualdo, Paulo Bento e Quique Sanchez-Flores procuram nos primeiros treinos as primeiras impressões. Antes de tudo, mobilizar emoções. Depois, a ideia (o modelo) de jogo, a preparação física e a força mental que faz a atitude competitiva. Factores que se cultivam mutuamente no futebol actual. Tudo isto, no entanto, só faz sentido quando interpretado com qualidade técnica. É nessa altura se percebe com clareza como o futebol pertence aos melhores jogadores. E, na história, não faltam exemplos, desta tese. Os três grandes portugueses vivem hoje nessa encruzilhada. É difícil vender ilusões sem imagens com força para fazer a imaginação voar.