Bola, técnica e garra

13 de Abril de 2011

Bola, técnica e garra

É a Liga dos Campeões da América do Sul. Nos últimos anos, surgiram nela também, vindos da região central, as equipas mexicanas (faltam, agora, apenas as dos EUA). Uma competição mítica que espelha a evolução da correlação de forças entre os diferentes países do continente do futebol-arte. Os novos tempos demonstram, porém, que as tendências de jogo, cada vez com maior cultura táctica, começam a ser outras.

A queda de quatro equipas brasileiras (Fluminense, Cruzeiro, Internacional e Grémio) nos oitavos-final, causou sensação mas não me parece possível tirar daí nenhuma conclusão sobre crise no futebol brasileiro. Pelo contrário. Terá sido um facto conjuntural muito motivado por a eliminatória ter surgido no meio das decisões das finais dos Estaduais em que todos (excepto o Flu) estavam envolvidos.

Tentaram fazer a gestão da equipa e falharam o plano de jogo da segunda mão. Resta o Santos, a equipa que ainda conserva mais esse perfume da arte, com dois exemplares que parece terem viajado numa máquina do tempo futebolística desde os anos 50, tal o estilo truculento e moleque (Neymar) e mais lento e dengoso (Paulo Henrique Ganso) que essas duas grandes estrelas têm.

Como principal nota da crescente cultura táctica sul-americana destacam-se as equipas paraguaias. Libertad e Cerro Porteño. O Paraguai é a único país com duas equipas nos quartos-final. Vendo jogar o Cerro de Astrada, parece que estamos a ver uma equipa italiana, tal a forma como todo onze recua e se coloca atrás da linha da bola após a sua perda. Dão sempre a iniciativa de jogo e encurtam o campo o mais possível. No papel, é um 4x4x2, mas na prática, fecha-se numa concha táctica de 4x5x1, com Fabro a funcionar como falso segundo avançado nas costas do nº9 perna-longa Nanni, muito experiente.

Villarreal e Caceres (este um excelente box-to-box) fazem o duplo-pivot defensivo. Nuñez abre na direita e Torres, o criativo, inventa desde a esquerda. Um plano de jogo que, com os laterais atentos a fechar (muito bem Pris na direita) condena Iturbe ao banco no início dos jogos.

No Uruguai, renasce o Peñarol na elite da Libertadores. Cresceu muito em termos de controlo de bola e jogo a meio-campo. É esse o segredo do seu progresso competitivo num sector onde Freitas manda à frente da defesa como trinco à moda antiga, Luís Aguiar assume-se como dinamizador das transições, e os alas, sobretudo Corujo (que também pode ser lateral) à direita, e Mier (belo jogador) à esquerda, também recuam sem bola. Na frente, tanto joga com um 9 clássico (Olivera, forte de cabeça) como solta um avançado mais rápido e móvel a entrar de trás em ruptura, Martinuccio.

Once Caldas e U. Católica

Bola, técnica e garraOutra nota táctica de qualidade, veio da Colômbia: o Once Caldas de Osório. Em 4x2x3x1, inteligente nas transições e na capacidade de meter um jogador rápido no contra-ataque (o rato Pajoy) quando os espaços aumentam. Os dois médios defensivos (Mejia-Henao) sabem de olhos fechados onde pisar. O 10 móvel, Carbonero, é um segundo avançado rompedor, e Moreno apoia um ponta-de-lança solitário, nosso conhecido: Rentería. Continua exímio nas desmarcações e recepção orientada. Depois, frente ao guarda-redes, a baliza continua a parecer encolher. A garra técnica combinada com o futebol curto tradicional da escola colombiana, torna este Once Caldas num objecto de estudo táctico muito interessante.

No Chile, o melhor perfume de futebol da U. Católica tem a marca de um argentino emprestado pelo Boca Juniores, nº10 Cañete, arquitecto de criação nas costas do forte ponta-de-lança Lucas Pratto. No controlo do meio-campo, redescobrimos Tomás Costa, com Silva mais posicional e Ormeño a fechar entre a meia esquerda e a faixa. Mais solto, na direita, o rápido Menezes, apoiado, nas tabelas, pelas subidas do lateral Valenzuela. Olhando as oito equipas presentes nos quartos-final, será o onze mais perto da definição de equipa de contra-ataque. Com espaço, pode matar qualquer adversário, mas, agora, as outras equipas também já conhecem essa arma.

Reyna, a “bomba” do América

Bola, técnica e garraO mais intrigante ao ver a forma como este jogador se move no ataque do América mexicano, recuando ou avançando desde trás, rematando depois de forma impressionante, potência e colocação (sobretudo quando recua para a zona entre-linhas e apanha a bola) está em perceber onde andou ele escondido tanto tempo (já tem 26 anos). Seu nome: Angel Reyna. Porque só agora está a explodir toda esta qualidade, remate e golos, do seu futebol? No passado (do San Luís ao Necaxa) nem estão grandes registos de golos. Até chegar ao América (desde 2009, fez 73 jogos, marcou 30 golos). Impressiona o seu remate. A bola parece que vai teleguiada ao ângulo. O América foi eliminado pelo Santos, mas Reyna, sozinho, e só entrando na segunda parte, destabilizou toda a defesa e marcações brasileiras. E não precisa de muito espaço para controlar a bola e soltar um potente remate.

Só foi três vezes à selecção, mas, confesso, fiquei rendido ao seu futebol. Merece que volte a procurar por um jogo do América só para o voltar a ver jogar. E rematar!