BRASIL: O ARCO OU A FLECHA?

26 de Julho de 2014

Podemos discutir um jogador, mas, no geral, nem a defesa, nem o ataque, levantam muitas dúvidas. Os grandes debates táticos situam-se no meio-campo. Continua a ser esse o local ideal para se conhecer uma equipa. É onde está o pensamento que, na visão e rotatividade dos médios, une os três sectores. Sem isso, a equipa perde o seu controlo posicional em campo. Não é fácil, porém, um treinador fazer esta equação.

Contra o México, Scolari sem Hulk refez o trio ofensivo do seu 4x2x3x1 e no seu lugar improvisou um médio de passada larga, Ramirez, que sabe aparecer bem na direita, mas não é, por princípio, um ala-ofensivo. A equipa ressentiu-se disso, e nunca teve profundidade a atacar por aquele flanco. Com 0-0, Scolari fez a alteração natural ao intervalo e meteu no seu lugar um extremo verdadeiro veloz, Bernard. Pensava, claro, em tornar a equipa mais perigoso/dinâmica a atacar.

A relação tática não é, no entanto, assim tão direta. Bernard fez, de facto, uma ou outra “jogada isolada” perigosa (em cima do 5x3x2 sem bola do México) mas, num ápice, a equipa perdia o meio-campo para o 3x5x2 (com bola) do México. Ou seja, o trabalho “invisível” de equilíbrio que Ramirez estava a fazer, fechando em zonas interiores sem bola (fazendo primeira linha de pressão) ou seguindo o lateral quando ele subia pela faixa, tornou-se mais evidente quando a equipa sentiu a... falta dele. E o México tomou conta do meio-campo. O resto foram as defesas estratosféricas do guarda-redes “azteca” Ochoa, defesas com “sombrero”.

Como conciliar, então, estes dois “mundos táticos” que parecem opostos? Vendo jogar este Brasil, sinto que o problema do meio-campo está no lugar de Paulinho. Não no jogador em si, mas nas suas características. Com Luiz Gustavo como pivot-fixo é necessário um “segundo volante” mais solto a sair para o jogo, pressionando e sobretudo conduzindo/construindo. Fernandinho (rápido, vertical com técnica aguerrida) podia ser o ideal, mas ainda não saiu do banco. É, no fundo, uma questão de percepção de ocupação dos espaços no momento de fronteira entre estar a atacar ou a defender.

A “PRIMEIRA VOLTA”

BRASIL O ARCO OU A FLECHAJá demos uma volta inteira ao Mundial e vimos jogar as 32 seleções. As primeiras impressões são positivas, no sentido de que este campeonato não está dominada pelo medo. Pelo contrário, impera a “coragem tática”, mesmo naquelas com menos argumentos. Sinto, confesso, que as seleções mais fracas melhoraram, mas os jogadores não. A Nigéria é um desses casos. Isto é, noto, sobretudo, melhor organização colectiva (trabalho de treinador e cultura táctica do coletivo). As equipas que perderam (Espanha, Portugal..) agonizam com dúvidas, mas devem evitar revoluções por causa de um jogo, pondo em causa um trabalho de vários anos

Recordo que, há tempos, Di Stefano dizia que a diferença entre o futebol moderno e o de antigamente era em que “antes pensava-se, hoje corre-se”. Muitas vezes, é verdade. Penso, no entanto, que este inicio de Mundial nos está a reconciliar entre os dois tempos. As equipas querem pensar o jogo. Admito, porém, que, por vezes, não resistem a correr... demais. Num Mundial em que que vai ser importante saber administrar a resistência física, isso é pode ser decisivo.