Brasil: uma finta, um tackle

08 de Maio de 2011

Brasil uma finta, um tackle

São os quatro peso-pesados do futebol paulista. Santos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras. As meias-finais do Paulistão 2011 foram um choque de grande intensidade. Cada bola dividida a meio-campo parecia ter a mesma importância de um lance de golo iminente na área. Tite, Scolari, Murucy Ramalho e Carpegani, treinadores dos mais evoluídos tacticamente dentro do futebol brasileiro. Num universo onde impera o 4x4x2 (apenas o São Paulo joga em 3x5x2) nenhum abdica dos clássicos dois volantes (o duplo-pivot brasileiro) à frente da defesa. Eis as duplas: Casemiro-Carlinhos Paraíba (São Paulo); Arouca-Danilo (Santos); Marcio Araujo- Assunção (Palmeiras); Ralf-Paulinho (Corinthians). De todos, Casemiro e Danilo, garotos que defendem e sobem com a mesma qualidade, são os que vão marcar o futuro. Paulinho é o mais robusto, Marcio Araujo o polivalente mais rotativo. Assunção, 3x anos, já joga um pouco de cadeira, mas marca livres fantásticos. Arouca já devia ter tentado a Europa, mas os anos passam e ele, embora com um motor escondido dentro dele, vai permanecendo. Ralf é o mais posicional, mas mete bem a bola.

Garantido o combate e transporte no corredor central, as equipas pedem laterais ofensivos, mas nota-se maior consistência táctica em todos eles na hora de subir. Destacam-se mais, por força do sistema, os do São Paulo (Jean, à direita, tendo Iisinho passado para o meio, e o baixinho Juan, na esquerda). Tem três zagueiros muito fortes (Miranda e Alex Silva, de passada larga, e Xandão mais choque); No centro da zaga do Corinthians, Leandro Castan será, de todos, o mais elegante e eficiente. Danilo, do Palmeiras, antecipa bem, mas bate mais forte.

Na segunda linha do meio-campo, a fórmula é arte operária. O Corinthians de Tite alterna entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2. Mete três meias móveis criativos nas costas de Liedson. São Dentinho, na direita, Bruno César solto desde o centro, e Jorge Henrique, pela esquerda.

Quando Dentinho ou Bruno César se aproximam de Liedson, eis o 4x4x2. O Palmeiras de Scolari aposta nas diabruras do chileno Valdivia, soltando Kleber na frente, apoiado pelo canhoto Luan. O São Paulo tem Dagoberto (outro craque que tarda a sair para a Europa) como arma mais esquiva e rematadora. Atenção a Marlos. Dão-lhe pouca importância, mas tem grande qualidade de movimentos com bola. O Santos é hoje, por força de Neymar (faz dupla com Zé Eduardo no ataque) e Ganso (médio elegante, com estilo de pantera-cor-de-rosa) a equipa mais criativa com bola. Desde a direita, Elano o pêndulo táctico defesa-ataque-defesa.

Na final, Santos-Corinthians. O encanto Neymar-Liedson, a corte do Ganso e os piques de Dentinho.

O bom futebol do Cruzeiro

Brasil uma finta, um tackleA goleada (1-8!) ao esforçado mas rudimentar América TO na meia-final do Estadual Mineiro, impressiona, mas não é por um simples resultado que é possível avaliar aquela que é, muito provavelmente, a equipa que pratica melhor futebol em todo o território brasileiro desde há alguns anos: o Cruzeiro. Hoje chefiado no banco por Cuca, é a melhor combinação de técnica e táctica nos gramados canarinhos. Um 4x4x2 que também se alarga para 4x3x3 com a entrada de um ponta-de-lança mais fixo (Ortigoza e Farías) mantendo sempre imaginação a atacar, com Thiago Ribeiro (mistura de ala com avançado solto perigoso e veloz a surgir nos espaço vazios. A entrada de Wallyson também deu maior versatilidade o ataque. No meio-campo, combina o equilíbrio lutador de Marquinhos Paraná, com o poder de transição defesa-ataque-defesa de Henrique e o toque criativo (com organização e sentido de ultimo passe) do arquitecto nº10 Montillo.

Falta juntar um título nacional (ficou em segundo no Brasileirão 2010) a toda esta qualidade futebolística.

Flamengo “táctico”

Brasil uma finta, um tackleDepois da Copa Guanabara, a Taça Rio, e o Flamengo do táctico Wanderley Luxemburgo conquistou o Estadual Carioca 2011 sem ter de jogar a Final. Ronaldinho, ainda com uma barriguita visível, continua o dono da equipa, mas já se nota um colectivo tacticamente mais sólido. Sem esse factor, será difícil combater os gigantes paulistas no Brasileirão. Luxemburgo monta uma espécie de 4x2x3x1 à europeia.

Como Ronaldinho só entra na organização ofensiva (não recua sem bola) mais parece um 4x4x2, pois passa quase todo o tempo junto do nº9 Deivid. Este deficit de transição defensiva, é compensado, numa faixa (vai alternando entre esquerda e direita como Thiago Neves, meia-ofensivo criativo) com o trabalho do argentino Botinelli e, sobretudo, de dois volantes muito fortes e posicionais: Willians-Renato Abreu (por vezes, demasiado fixos até).

Na lateral direita do «4» da defesa, aproveitando a lesão de Leo Moura, vão fixando o nome do garoto Galhardo, 19 anos. Corre, finta, luta, recupera, corta. O futuro é dele, podem escrever.

Paulistão: o “lado B”

Brasil uma finta, um tackleSantos, São Paulo, Corinthians e Palmeiras passaram, com lógica, às meia-finais do Estadual Paulista. As equipas eliminadas, porém, deixaram todas excelentes notas de bom futebol. É o chamado lado B do Paulistão: Oeste, Ponte Preta, Portuguesa e Mirasssol.

O Oeste (1-2 com Corinthians) numa espécie de 3x6x1 com laterais a fechar e um ponta-de-lança desterrado na frente (Fábio Santos, chuta de primeira e sabe estar nos sítios certos para receber a bola). No meio-campo, Marino marca e apoia nas transições, mas a estrela do time é Roger, médio-ofensivo.

O Ponte Preta (0-1 com o Santos) joga num falso 4x4x2 sem ponta-de-lança. Solta na frente os móveis Renatinho – Marcio Diogo, com Valber nas costas. Vale pela forma compacta como se estende em campo. O Mirassol (1-2 com Palmeiras) subiu o nível táctico do jogo com marcações individuais (Magal em cima de Valdivia) num 4x3x2x1 com a dupla Xuxa-Serginho atrás do solitário nº9 Wellington.

A Portuguesa (0-2 com o São Paulo) montou um 4x3x3 mas com o meio-campo muito distante do ataque e do ponta-de-lança Jael. Melhor apoiado podia fazer muitos golos. Assim, morou sozinho durante 90 minutos. Na defesa, o duro central Domingos tira todas as bolas.

No global, fica a forma evoluída como todos os técnicos, sabendo que iam viver a maioria do jogo sem bola, montaram a organização defensiva das equipas.

Que é que o futebol baiano tem?

Brasil uma finta, um tackleO Baianão não é dos Estaduais mais divulgados no exterior, mas quem entrar a fundo no futebol brasileiro, não pode ficar insensível ao histórico duelo Vitória-Bahia. Este ano, o Vitória caiu na Série B e o Bahia regressou à Série A, mas no duelo nas meias do Estadual o Vitória ganhou. No ar, ficou, porém, como o novo Bahia de Renê Simões pode ser uma equipa interessante de ver no Brasileirão. Monta quase uma espécie de 3x6x1, pois deixa só um avançado puro na frente (Souza). Depois, mete três médios-centro bem posicionados, dois deles a pisar forte a grama (Marcone, um bicho a marcar, subir e rematar, e Camacho, muito bem nas transições) e outro mais solto a organizar (começou com Ramon, mas foi com o colombiano Tresor Moreno, de 32 anos, que a equipa se mexeu melhor). Nas alas, soltos, a jogar verticalmente, rápido Maranhão e o renascido Lulinha. Nesta fórmula, os laterais ficam mais na posição.

O Vitória brilha como o velho Geovani a pegar no jogo na fase atacante, com o baixinho robusto Nikão a furar por entre os defesas, num sector onde Elkeson è o jogador a fixar. Joga sobre a ala esquerda, mas puxa melhor com o pé direito. Tem visão e segura/domina a bola. Claramente com valor para voos mais altos.

Mais atenção, portanto, nas viagens pelo futebol canarinho, aos segredos que o futebol baiano tem.