« BRASILEIRÃO » 2004 : De São Paulo ao Paraná

05 de Novembro de 2004

É cada vez mais difícil descobrir um drible ou um gesto técnico mais adornado nos grandes duelos do futebol brasileiro. Embora fortes técnica e tacticamente, Santos e At.Paranaense não são, no estilo, exceptuando alguns pormenores de Robinho ou Jádson, legítimos herdeiros da arte canarinha. Apesar da relva alta, não é, no entanto, tão lento como no passado, e estão cada vez mais próximos do ritmo europeu, aquilo a que o argentino Bielsa chama de ritmo internacional. Nos bancos, estão dois metódicos treinadores, talvez dos mais estudiosos no cenário brasileiro: Wanderley Luxemburgo, admirador do tacticismo europeu, e o experiente Levir Cuppi, conhecido pelo seu carácter de liderança. Defendem, no entanto, diferentes concepções de futebol.

Santos: Os esquemas de Wanderley Luxemburgo

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáNo Santos, Luxemburgo rompeu com o ciclo de Leão. Viu sair, ao longo da época, jogadores chave como Diego, Renato, Alex e Paulo Almeida, todos titulares, mas graças á sua astúcia, manteve, em 4x4x2, o equilibrio táctico do onze, embora claramente com menor criatividade, onde, sente-se a falta de um médio centro organizador mais veloz, missão desempenhada por Ricardinho, ainda pouco entrosado com os companheiros, pelo que, muitas vezes, quem assume as rédeas da equipa são, quando sobem no terreno, os volantes centrais, como Preto (ex-V.Guimarães) ou Zé Elias, deixando, nessa altura, o onze a jogar só com um cabeça de área, Fabinho, num esquema de 4x1x3x2, com o inteligente Elano a desiqulibrar na esquerda, triangulando com o lateral Leo, e dois avançados bem abertos na frente de ataque, Deivid e Robinho.

Com o decorrer do jogo, depois, tem tendência a evoluir para 4x1x2x3, variante do 4x3x3, com Basilio na ponta direita, saindo um volante. É, claramente, no ponto de vista técnico-táctico, a equipa mais forte do campeonato. Parte defensivamente de dois sólidos centrais (Ávalos-André Luiz ou Fabão) e dinamiza as movimentações atacantes partindo da capacidade ofensiva dos laterais, com Paulo César á direita e, sobretudo, o inteligente Leo, á esquerda, um desiquilibrador nato quando sobe no terreno. No meio campo, Wanderley Luxemburgo procura, sobretudo, ganhar consistência de marcação. Esta foi sempre uma das suas principais preocupações em todas as suas equipas. Para se entender esta prioridade, diga-se que o seu jogador símbolo é o aguerrido volante Vampeta, cuja aquisição tentou (em conflito aberto com a direcção) conseguir para este seu novo Santos, em Agosto último. Sem Vampeta, a aposta “operária” chama-se Zé Elias, forte na recuperação de bola e no pressing alto, mas o trinco que organiza toda a saída de bola, tocando, tocando e tocando, marcando, assim, o ritmo de jogo da equipa, dando-lhe tempo para respirar, traçando as coordenadas para fazer girar a bola.

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáMesmo não fazendo passes em profundidade e jogando quase sempre a passo, ordena o circuito preferencial de jogo do onze, onde Ricardinho, mais adiantado, procura executar o último passe para a dupla atacante Robinho-Deivid. Entre linhas, descaindo para esquerda, outro jogador fundamental é Elano, fechando muito bem a defender e abrindo a atacar, com tendência flanquear jogo e, também, a intrometer-se nas manobras ofensivas, procurando o remate. No transporte de bola para o ataque destaca-se, também, o renovado Preto Casagrande, que passou sem grande fulgor pelo Guimarães. No Brasil, noutro ritmo, é “outro” jogador, com maior disponibilidade física na luta e posse da bola. Não se lhe vislumbram grandes rasgos técnicos mas possui uma regularidade exibicional que lhe garante ser um elemento chave na ordem colectiva do onze, ocupando com cultura táctica, recuando e avançando, todo o corredor central.

At. Paranaense: Os operários de Levir Culpi

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáNo At.Paranaense, Culpi aposta, sobretudo na polivalência dos seus jogadores, onde se destaca o corre-caminhos Fernandinho (a lateral direito, trinco ou médio ofensivo), num esquema preferencial de 3x5x2, a espaços transformado em 4x4x2, opção ponderada sobretudo após uma lesão ter afastado da equipa, até ao final da época, o seu avançado mais criativo, o pequeno Dagoberto, deixando o ponta de lança Washington abandonado na frente de ataque. Rápido, 21 anos, e com grande mobilidade, fugindo pelos flancos ou recuando para vir buscar jogo mais atrás, Dagoberto é o protótipo do chamado segundo avançado moderno. É algo frágil fisicamente (1,73 m. e 64 kg.), mas, com grande visão de jogo, sabe jogar com o corpo todo na condução da bola, causando muito perigo, depois, nas jogadas de triangulação. O seu substituto, Denis Marques é um jogador de estilo oposto, daqueles que gostam de jogar mais fixo na área, sem grande velocidade, mas com excelente pode de remate, em corrida ou após dominar a bola, e boa capacidade técnica,. Como não é muito ágil, só joga, sobretudo, com a bola no pé e, nesse prisma, não desgasta muito as defesas.

Regressou este ano de uma temporada no Kuwait e ainda parece com falta de ritmo, apresentando, na maior parte do tempo, um jogo excessivamente lento. Washington, por sua vez, melhor marcador do campeonato com 27 golos, é o clássico nº9 que gosta de jogar entre os defesas. Não possui grande agilidade, mas coloca-se sempre muito bem para receber a bola ou os cruzamentos, rematando depois com grande frieza. É o que se chama um falso lento, que aos 29 anos, já conhece todos os segredos da grande área. Nas transposições defesa-meio campo-ataque há um “operário” fundamental: Fernandinho. Corre o campo todo, no transporte ou na luta pela recuperação da bola, personificado o estilo do jogador “sete vidas”. Parece jogar em bicos de pés, mas nunca treme perante uma bola dividida.

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáMesmo não sendo muito dotado tecnicamente, é o tipo de jogador que enche o campo com as suas movimentações. A seu lado, na luta do meio campo, jogam Alan Bahia e Fabiano, sobretudo este, um jogador de estilo tipicamente europeu na forma como ataca e luta pela bola, pressionando em cima o adversário, sempre com agressividade, com ou sem a bola. Na defesa, destaca-se um trio muralha, com Marinho-Rogério Coreia-Marcão, sem grandes requintes técnicos, não hesitam emm eter a bola na bancada quando a situação o pede.

Exceptuando o médio ofensivo nº10 Jádson, perfeito tecnicamente e com grande visão de jogo, mas algo lento e com um jogo demasiado curtinho, o onze tem um rosto essencialmente de combate, com três defesas, laterais ofensivos (Raulen-Ivan), dois volantes (destacando-se, ao lado de Alan Bahia, a garra de Fabiano, que também pode jogar a central), um organizador criativo (Jádson) e dois avançados (Washington-Denis Marques).

São Paulo: O novo onze de Leão

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáOrientado, após a saída de Cuca, por Leão, mentor do belo Santos de épocas anteriores, o actual S.Paulo segue a mesma linha de combate que marca, no presente, o futebol brasileiro, onde imperam volantes aguerridos (Renan-Alê ou Souza-Jean), tacticamente disciplinados, que fazem tackles e jogam de primeira sem inventar, escudados, nas suas costas, por defesas de dentes cerrados, daqueles que não pestanejam em meter a bola na bancada, caso do duro central uruguaio Lugano, ao lado das carraças de marcação Fabão e Rodrigo.

Tacticamente, Leão, que no Santos jogava em 4x3x1x2, também passou a seguir o 3x5x2, com dois excelentes laterais, muito fortes a atacar, Cicinho, á direita, e Junior, á esquerda, um enganche, Danilo, esquerdino rematador que gosta de descair sobre a direita, e dois avançados muito ágeis, o veloz Diego Tardeli, rasgando pelo flanco direito, um craque de 19 anos, cujo talento tem sido traído pelo seu temperamento irascível, e Grafite, um centro avante que está entre os centrais com o mesmo á vontade que no sofá de sua casa. Sem grandes rasgos tecnicista, é uma equipa táctica e fisicamente sólida, mas muito forte na posse de bola no meio campo adversário, missão onde se destaca o vigoroso pé esquerdo de Danilo.

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáEmbora não forme um bloco muito coeso na união entre as três linhas, o São Paulo distribui-se pelo terreno com excelente sentido e dinâmica posicional, onde á ffrente de uma dupla de volantes lutadores, solta-se o esquerdino vagabundo Danilo, dono de um excelente poder de remate de meia-distância, entrando nas costas dos avançados. Na ala, Cicinho é um craque puro, que já se destacara no Atletico Mineiro. Veloz, objectivo a subir com a bola ou a apoiar o ataque. Junior, na esquerda, já tem a escola do futebol italiano, no Parma, sobe com disciplina táctica e recua a defender com segurança. No ataque, depois da saída de Luís Fabiano, o homem mais perigoso é o avançado centro Grafite, um jogador muito diferente, menos forte nos lances de um para um, mas que se Movimenta muito bem na área e sabe jogar com outro avançado ao lado, amortecendo muitas bolas de cabeça nas alturas.

São Caetano: O motor do meio campo

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáO S.Caetano de Péricles Chamusca ressurge, nesta recta final, guiado por um excelente médio volante, Mineiro, o patrão da equipa, também sistematizada, preferencialmente, em 3x5x2, com o carismático Dininho a chefiar a defesa a «3», apoiado por Gustavo e Marcelo Mattos, numa equipa, neste momento, profundamente abalada com o trágico falecimento de Serginho, defesa central titular, em pleno relvado, no decorrer do jogo com o São Paulo. Nas faixas laterais, muita atenção a Anderson Lima, á direita, enquanto, na esquerda, o dinâmico Triguinho, que também pode jogar no centro, faz todo o corredor. O jogador mais criativo da equipa é o arquitecto artístico Marcinho, um médio ofensivo veloz e de zigzags, muito forte nas mudanças de ritmo de jogo, lançando o contra-ataque, num sector onde Mineiro é o pêndulo das transposições defesa-ataque. No ataque, o veterano Euller, 33 anos, regressado do futebol japonês, joga nos espaços vazios, muito inteligente a fugir ás marcações, libertando nas zonas de remate, dentro da área, o artilheiro Fabricio Carvalho, alto e pujante entre os centrais, que em 2001, passara, na II Liga, pelo Nacional da Madeira.

« BRASILEIRÃO » 2004 De São Paulo ao ParanáEsquematizada num 3x5x2, versão 3x4x1x2, este foi o onze base apresentado pelo São Caetano ao longo da época, na qual o malogrado central Serginho foi, quase sempre, titular. No meio campo, um triângulo que coordena toda a equipa, composto pelo pendular Mineiro, um volante que orquestra as movimentações colectivas na transposição defesa-ataque, ao lado do dinâmico Triguinho, que dá muita profundidade ao jogo ofensivo, sobretudo pela ala esquerda, apesar de ser, originariamente, um médio interior, e, mais á frente, o criativo Marcinho, o tal jogador que num lance em velocidade desmonta as marcações adversárias.