CABO VERDE RUMO À CAN: O FUTURO

17 de Novembro de 2014

CABO VERDE RUMO À CAN: O FUTURO

(Fotos: Eneias Rodrigues. A Semana. Cabo verde)

A selecção nacional de futebol de Cabo Verde foi a primeira selecção a qualificar-se para o CAN de 2015 fruto de quatro vitórias e uma derrota frente a Moçambique em Maputo, acabando para fazer o pleno em casa aqui no Estádio Nacional obtendo brilhantemente três vitórias, quedando-se pelo primeiro lugar do Grupo F, dando-lhe o estatuto de cabeça de série.

Num jogo de cumprir calendário, para os cabo-verdianos o grande dilema do seleccionador nacional Rui Águas era como motivar as suas tropas frente ao Níger que teoricamente era e provou ser a equipa mais fraca do grupo pela classificação que ostenta. Numa primeira abordagem o técnico português demonstrou uma inteligência rara, ao apostar forte no orgulho e honra do futebolista cabo-verdiano fazendo-lhe crer que o 1º lugar era a meta desejada, salvaguardando um possível mau resultado na Zâmbia caso a selecção local precisasse desse resultado para se qualificar em primeiro lugar.

Por princípio os jogadores cabo-verdianos na sua maioria agigantam-se quando lhe quer mexer na sua dignidade e honorabilidade, dando aí a partida uma motivação extra para que os jogadores encarassem o jogo com a seriedade máxima e sem excesso de qualquer tipo de confiança, nesse capítulo tolerância zero.

Nesse âmbito pensámos nós que Rui Águas ganhou a primeira aposta, pois, os seus jogadores levaram a lição bem estudada e que o termo facilitar não fazia parte do vocabulário da nossa selecção nacional, fruto da moralização existente no seio dos nossos rapazes, que querem só ganhar para retribuírem o carinho que o público lhes dispensa em cada jogo e fora dele, pois, a empatia entre os adeptos e simpatizantes com os jogadores continua em alta.

CABO VERDE RUMO À CAN: O FUTUROO selecionador nacional chamou a si, a responsabilidade do jogo, mostrando aos seus comandados que o primeiro lugar era a meta a alcançar porque poderia ajudar no emparelhamento na fase de grupos na fase final dessa competição continental e colocar Cabo Verde como cabeça de série, o que evitaria na primeira fase no nosso caminho as equipas consideradas as mais fortes da prova. Entretanto, também funcionaria como um novo estímulo para os jogadores crioulos nessa fase final.

O técnico português ao serviço de Cabo Verde, demonstrou a todos os cabo-verdianos que não estava a fazer bluff quando pregava a sete ventos que o jogo era importante para as nossas aspirações, apresentando talvez na sua óptica o melhor onze disponível, aliás, a equipa que ele apostou desde a primeira hora para essa operação CAN 2015, apesar de não contar para esse jogo com os habituais Zé Luís, GêGê, Djaniny e Peck’s que ficaram fora da convocatória por lesão.

E, logo cedo, se notou que os jogadores continuam com uma dinâmica de vitória que se assenta na nossa selecção há uns anos a esta parte, pois, sabendo deles que uma vitória ajudaria e muito o nosso país em termos imagem e do próprio ranking a nível mundial, entraram no jogo com a firma de disposição de resolvê- lo o mais depressa possível apresentando uma postura ofensiva, com um descarado 4-3-3, mas com alguns jogadores a demonstrarem muita ansiedade tentando sufocar o adversário em largos períodos da etapa inicial, aliás, é de bom realçar que a equipa de todos nós joga um futebol agradável à vista, assente na capacidade técnica e criativa dos seus excelentes executantes.

Jogo aberto, com uma defesa muito subida mas nem sempre durante os noventa minutos segura e sóbria, daí ter falhado em alguns momentos, tendo sido a equipa nigerina a criar as duas primeiras grandes oportunidades de golo com Vozinha a fazer duas defesas apertadas, o que demonstrava que o meio campo não estava tão muito pressionante, como por exemplo contra Moçambique, e, um ataque, pecando apenas em alguns momentos na finalização um processo a rever com os treinos, mais uma vez a equipa nacional demonstrou a razão que é a primeira do Grupo F, dominando a espaços a equipa do Níger, que por direito próprio está no último lugar. Uma equipa débil em termos defensivos e ofensivos, sem ligação nenhuma na zona nevrálgica do terreno ou seja, no meio campo.

Globalmente a equipa cabo-verdiana não esteve tão bem como no jogo anterior frente a Moçambique, mas a equipa jogou com alma e muita vontade de ganhar o que acabou por acontecer e deu outra grande alegria a nação cabo-verdiana que vem demonstrando um carinho muito especial para os jogadores cabo-verdianos que actuam na selecção.

Rui Águas vai ter tempo agora para estudar em pormenor a equipa e sem pressas tentar aprimorar qual deverá ser o sistema que se coaduna com a capacidade dos jogadores que tem a sua disposição. Aliás, não tendo um ponta de lança de raíz, com a lesão de Zé Luís e Djaniny, a única alternativa era o Júlio, mas preferiu deixá-lo no banco utilizando três jogadores móveis e rápidos na frente casos de Ryan, Heldon e Kuka.

É, de bom alertar essa situação aos jogadores, aos adeptos e simpatizantes, porque às vezes no futebol a onda de euforia sobrepõem o razoável, e, claro está, os jogadores perdem alguma clarividência, e entram naquela de uma anarquia táctica.

CABO VERDE RUMO À CAN: O FUTURODemos um passo importante, qualificando em primeiro do Grupo F, mas há muito a fazer, para que possamos ser uma equipa de futebol capaz de dar uma boa resposta no Campeonato Africano das Nações. Estamos em crer e como prometeu o seleccionador nacional, vai fazer várias alterações no próximo jogo contra a Zambia e assim terá uma ideia global do conjunto. Resultado justo pelo que a equipa fez principalmente durante a primeira parte numa partida em que os nossos rapazes marcaram ( Kuka, Heldon e Júlio ) três golos de elevada categoria, perante um guarda-redes simplesmente fenomenal. Quem não gostaria de ter na sua equipa um guarda-redes desse nível, seguro, domina toda a sua área de jurisdição, sóbrio, sereno nos momentos capitais do jogo, bom fora e entre os postes, enfim, vi no Níger um grande GUARDA-REDES.

Parabéns a equipa técnica, parabéns aos jogadores e parabéns ao público que mais uma vez provou que é o 12º jogador.

Individualmente os jogadores cabo-verdianos actuaram assim;

Vozinha- Ao fazer aquelas duas grandes defesas no início do jogo evitando que a equipa adversária marcasse, definiu o rumo do mesmo. E a equipa acreditou que no seu sector mas recuado tinha um guarda-redes preparado para tudo.

Jeffrey- A minha primeira impressão desse lateral confirma-se, isto é, muito seguro a defender e acima da média a atacar, vê-se que ele sabe o que está fazer dentro das quatro linhas, vai ser muito útil no CAN.

Josimar- Demonstrou alguma falta de estabilidade emocional, tentado resolver tudo depressa para não comprometer como ficou provado durante os noventa minutos, talvez por falta de alguma falta de sincronização com Varela. Mas há um ponto muito importante que precisa ser trabalhado nele, boa postura física, sério a jogar, mas o tempo de salto pela altura que tem deve ser aprimorado, tornando-o um defesa muito mais eficaz no jogo aéreo.

CABO VERDE RUMO À CAN: O FUTUROFernando Varela- Sentiu alguma falta de GêGê o que é normal num caso desses, mas continua sendo o patrão da defesa cabo-verdiana. Sóbrio, autoritário, seguro e acima de tudo respira grande confiança que lhe permite muita das vezes sair para o contra ataque criando algum desequilíbrio no meio campo do adversário. No autogolo não culpabilizo só o central cabo-verdiano, mas toda a equipa que estava distraída, pela forma eufórica como festejou o grande golo de KUKA.

Nivaldo- Não esteve tão bem a atacar e perdeu muitas bolas na altura da transição o que deixa um pouco a defesa desguarnecida, mas não comprometeu o que é importante num jogador que joga no sector recuado. Mas dá a equipa outra dinâmica ofensiva.

Calú- Outro que não esteve numa tarde tão inspirada, falhando nessa tal transição meio campo ataque, lançando muitas bolas compridas que não é ideal para os nossos avançados que são de baixa estatura e assim falhou no seu ponto forte cortar pela raiz os contra ataques do adversário, mas uma exibição globalmente positiva.

Nuno Rocha- Um jogador que adoro a jogar pela forma simples e eficaz que controla os movimentos da equipa, mas também não esteve nos seus dias, demonstrando alguma lentidão na hora do contra ataque, e fiquei com a sensação que ele não estava tão bem fisicamente, confirmação que veio na segunda parte com a sua saída em maca.

Babanco- Depende dele muito o jogo ofensivo da equipa e teve os mesmos problemas que os companheiros do sector tendo saído ao intervalo com problemas num dos joelhos e não jogou com aquela alegria que já nos habituou, não sendo, portanto, no jogo frente ao Níger o capitão que nós todos desejávamos.

Kuka- É um regalo vê-lo jogar, quanto mais eu, que há muitos anos indiquei a um clube local esse jogador, quando ele apareceu no Estádio da Várzea, na equipa do Bairro, pois, tinha a consciência afirmando que ali estava um valor seguro. Aquela jogada que deixou dois adversários por terra, ou melhor na relva, definem a classe deste miúdo, pois, tem um dribling curto e venenoso. O golo que marcou veio demonstrar que neste momento KUKA está no bom caminho para ser uma grande valor do futebol crioulo, foi um hino ao futebol.

Ryan- O sistema adoptado confundiu-lhe muito, porque quando a defesa nigerina acertou com as marcações ele teve muitas dificuldades em demonstrar toda a sua capacidade técnica. Mas vê- se que é tecnicamente dotado. Foi um jogador muito esforçado e na altura foi bem substituído, porque já estava a perder algum fulgor.

Heldon- Um caso especial de carinho do público, e isso acaba por lhe prejudicar durante o jogo, porque ele quer fazer tudo bem e depressa, e às vezes nem sempre no futebol as coisas saem como nós queremos. Prova disso, que antes do grande golo ( QUE BELO LIVRE ) que marcou foi advertido inúmeras vezes por os colegas que reclamavam o último passe, que ele aproveitava para rematar para onde estava virado. Ele quer jogar mais vezes, é um direito que lhe assiste, é legítimo, mas saber esperar também é uma grande virtude numa equipa onde existem vários jogadores de valor inquestionável. E ele neste momento, a nível da selecção, está em alta em termos mentais, porque foi e será sempre recordado como o grande herói da qualificação. Compreendo e muito bem que ele quer mostrar serviço, demonstrando uma insatisfação natural, mas no futebol há um “ timing “ certo e temos que esperar pela nossa vez. Exibição muito agradável, com um golão de um livre superiormente transformado.

Júlio- Entrou e marcou, pois, há muito que se reclamava a presença de um homem na área adversária, e, ajudou a travar os centrais e marcou o terceiro golo de grande recorte técnico, que acabou por matar o jogo.
A equipa cabo-verdiana pode sem dúvida fazer um brilharete na CAN, agora vamos aguardar pacientemente, orgulhosos dos nossos jogadores, sem pensarmos que vamos para sermos campeões, pois, apontarmos a segunda fase quanto a mim já é uma excelente fasquia.

Cabo verde, Luis Cardoso da Silva