Cada Coisa No Seu Lugar

16 de Janeiro de 2017

O jogo pode ser muitas vezes uma imagem que retiramos dele criada à margem da realidade que o envolveu. Quando Fábio Martins viu aquela bola perdida vir para ele após o corte de Coates não tinha nada pensado antes. Ou seja, aquela oportunidade de remate (que também poderia ser de segurar e passar) não lhe surgiu na sequência duma jogada bem elaborada pela sua equipa. Surgiu-lhe porque se ajustou à disposição dos jogadores em campo naquele instante.

A bola pode, então, ser um objecto de disputa ou um objecto para uma obra de arte. Fábio Martins conseguiu, naquele momento, optar e executar o segundo. Fez um golo de encantar e empatou o jogo. Procurar neste momento, lance, inspiração individual, algo com relação direta com o que antes equipas e treinadores tinham feito no jogo não faz sentido. Nada disto resulta de opções tácticas.

Deduzir que quando Jesus retira Basta Dost (o nº9 “fábrica de golos”) está a convidar o adversário a atacar, afasta todas as outras vertentes que o jogo esconde (e pode ou não soltar) nesses momentos finais de “ideias tácticas sólidas partidas”. Também seria criticado se, a ganhar perto do fim, e em inferioridade numérica, não metesse o defesa-central (depois de expulso o que estava a jogar).

Ou seja, nem com um fila de onze jogadores como Bast Dost (o verdadeiro e nove mascarados) seria possível travar aquela forma de chegar ao empate que Fábio Martins (e através dele o Chaves que perdera na segunda parte o poder do contra-ataque) descobriu no ultimo suspiro do jogo.

Há substituições que mudam o jogo. Como Bryan Ruiz ou André tinham mudado. Há substituições que podem ter a aparência de ter interferência no jogo. E, provavelmente, até têm (como já teve, noutros jogos, Jesus tirar Dost do campo...). Este universo de análise só se aplica quando se vê relação entre as coisas, não quando se a inventa à margem do real. Nenhuma delas, porem, tem o poder de travar obras de arte que vivem a planar por cima de qualquer opção táctica.

O futebol simplifica-se nas posições mais especificas (em termos de função) mas concluir que desse ponto emana depois tudo que acontece de bem ou de mal ao resto da equipa é quase sempre um “abuso de ilusão”. É o que sucede com a questão do ponta-de-lança. No contexto leonino de Bast Dost como contexto encarnado de não ter Mitroglou e enquanto isso durou chegar a estar a perder por 0-3 em casa com o Boavista. Não foi isso que convidou o onze de Miguel Leal a atacar.

A realidade de um jogo tem causas e consequências, mas busca-las de forma direta no sentido alteração individual-quebra (ou ascendente) coletivo, raramente toca na essência dos problemas ou dos resultados. Sucedeu nos dois casos.