“Caixa de ferramentas”

23 de Julho de 2011

“Caixa de ferramentas”

O Brasileirão vai na 10ª jornada e, apesar das variantes de sistema de cada treinador, a posição que continua a mandar nas actuais equipas brasileiras (selecção inclusive) é o espaço do volante, ou, em rigor táctico-colectivo, da dupla de volantes (o duplo-pivot europeu). É a grande âncora de estilo de cada equipa. Depois estão os meias e avançados, mas é atrás que está o início da pressão e construção.

Penso no chamado actual G4 (os quatro primeiros): Corinthians (Tite, 4x3x3); São Paulo (Adilson Baptista, 4x4x2) Flamengo (Luxemburgo, 4x4x2), Palmeiras (Scolari, 4x2x3x1). É o claro domínio do futebol paulista.

Na selecção, Lucas Leiva e Ramires, tornaram esse espaço numa versão light, estilo futebol a diesel, que não soube ultrapassar as piranhas adversárias, sobretudo as da pressão alta paraguaia. No actual Brasileirão, uma equipa destaca-se, claramente, nesse futebol-completo. O Corinthians de Tite, 10 jogos, 9 vitórias!

Estendendo-se num 4x3x3 de recorte europeu, tem como base do seu modelo de jogo uma pressão por todo o campo que começa na forma como os avançados…defendem, caindo em cima dos defesas adversários quando estes querem sair com a bola. É então que vemos até Liedson e Willian, avançados puros, a fazerem carrinhos na tentativa de recuperação da bola. Em casa, sobe naturalmente mais as linhas, com a dupla de volantes Ralf-Paulinho a comer todo o meio-campo, cortam e jogam rápido no passe, com Jorge Henrique sempre muito bem aberto na esquerda, recuando em ajuda e lendo muito bem o passe para zonas interiores, onde caminha o experiente Danilo, jogador de superior leitura de jogo, já com 32 anos, mas em quem estranhamente nunca ninguém na Europa reparou. Na defesa, Chicão e Leandro Castán são uma dupla de aço e com velocidade certa no corte, deixando os laterais Welder, à direita, e Fábio Santos à esquerda, subirem com critério, em apoio ou desequilíbrio. Agora vai aparecer também Alex (ex-Spartak) para organizar o processo ofensivo.

O São Paulo começou bem com Carpegani, mas hesitou, perdeu uns jogos e foi logo demitido. Adilson Baptista pegou na equipa, mas não me parece que possa mudar muito num time onde o avançado solto Marlos ganha maior protagonismo, ao lado do rápido Dagoberto. Mantem sempre dois volantes muito recuados (Rodrigo Souto-Carlinhos Paraíba fixos) pedindo a Casemiro que organize em condução a construção de jogo da equipa, sobrepondo-se a Fernandinho, jogador de rupturas, mas que não tem grande visão de jogo.

Nas próximas semanas, novas viagens pelos gramados do Brasileirão buscando o Palmeiras de Scolari e o Fluminense pós-Conca de Abel Braga.

Cruzeiro e Santos

“Caixa de ferramentas”A equipa que mais me tem intrigado mais neste início de Brasileirão é o Cruzeiro. Cuca, o treinador, demorara um ano para montar uma equipa sedutora e competitiva que, de repente, parece ter-se desligado da corrente eléctrica A queda na Libertadores (derrota com o Once Caldas) mudou tudo e junto com o mau arranque no campeonato, levou à sua demissão. Agora é Joel Santana quem orienta. O 10 argentino Montillo continua a ser o motor criativo, atrás de dois avançados (em 4x4x2) destacando-se Tiago Robeiro, que, pelas características, rápido e forte a encarar o adversário em progressão (mete a bola e vai busca-la mais à frente) também podia jogar a extremo, em 4x3x3. Mas a alma da equipa são os…volantes: Fabrício, Marquinhos Paraná e Henrique, que vai para o Santos. Saber se o Cruzeiro vai manter-se forte no G4 é das maiores dúvidas deste Brasileirão.

Já se jogaram 10 jogos, mas para o Santos de Muricy o campeonato só vai começar agora. Até este ponto, toda a equipa esteve preocupada em ganhar a Libertadores e depois perdeu para a Copa América as estrelas Neymar, Elano e Ganso. A grande dúvida, porém, está relacionada com…Portugal. Danilo é quem controla (junto com o motor Arouca) o meio-campo. Se sair agora e não em Janeiro, o onze perde o seu grande elo de ligação defesa-ataque, a jogar como médio-centro volante.

O “Fla” de Ronaldinho

“Caixa de ferramentas”O Flamengo pode ser o intruso carioca no domínio paulista. Luxemburgo aposta na qualidade de recuperação e transporte de William (bom jogador de equipa) e Renato Abreu, mas tem craques demasiado aburguesados no ataque. Tiago Neves com espaço muda o jogo sozinho, Negueba é um garoto explosivo que está a surgir, Deivid tem instinto de área mas move-se pouco. Espero muito de Diego Maurício. Arranca bem, sobre a meia-direita, passa e remata. Tudo depende da sua evolução.

Ronaldinho tem coisas tecnicamente fantásticas, mas basta olhar para ele, o peso a mais, para ver-se que está na…pré-reforma. Em 4x4x2, sobre a esquerda da dupla de ataque, isso nota-se no seu jogo. Já não encara sozinho no um para um, indo para cima do defesa e quebrando-o com uma simulação. Agora, precisa que o lateral passe nas suas costas e arraste uma marcação, para, então, ele ter espaço de puxar rápido para dentro a troca de pés e centrar ou passar o defesa. A velocidade de explosão esfumou-se. Ficou a execução perfeita. Isso… nunca se perde!