CAMPEÃO DO MUNDO 1998: AS CORES UNIDAS DA FRANÇA

01 de Julho de 1998

O Mundial de futebol e as competições europeias têm ambas a mesma origem: a vocação organizadora da França. Em 1928, na tranquilidade de Amsterdam, Jules Rimet, primeiro presidente da FIFA, lançou a ideia daquele que é hoje o maior acontecimento planetário. Junto com o seu amigo Henry Delaunay, moveu montanhas, aproximou países e reuniu continentes á volta de uma bola de futebol. Hoje o Mundial é um mundo á parte. Uma ilha rodeada de público por todos os lados em cujo solo está escondido um valioso tesouro: A Taça do Mundo e a imortalidade para quem a descobrir. Em 1968 Paris era o coração do mundo. Nas ruas, toda uma geração inventava uma nova forma de sentir a vida. 30 anos depois encontramos o então jovem rebelde com causa Daniel Cohn-Bendit como eurodeputado pelos verdes alemães. Retem o seu ar blazé. Perguntam-lhe se durante aquele tempo acreditou realmente que podiam mudar o mundo. Iconoclasta, responde: mas nós mudamos mesmo o mundo! Desse tempo as gerações do presente conservam os ícones. O que poderia hoje, três décadas depois, voltar a encher Champs-Elysée de jovens com causa.

O futebol francês nunca despertou grandes paixões. Os intelectuais de Paris sempre o olharam com desconfiança mas no passar do tempo também ele, timidamente, desenhou os seus ícones: Kopa e Fontaine, em 58, Platini e Tigana, em 82 e 86. Em 98, o design latino do futebol gaulês encontrou abrigo num elegante jogador de origem argelina, Zinedine Zidane, e foi a causa que levou de novo milhares de pessoas ao centro de Paris unidas por um ideal: a selecção francesa de futebol!

No crepúsculo do século a França, durante anos local priveligiado de refugiados politicos, conquista pela primeira vez na sua história o campeonato do mundo, com uma selecção que é um simbolo dos valores que emergiram dos ícones dos anos 60: Ela é a pura expressão da beleza de uma sociedade multirracial! Para o futebol a miscegenação de raças é uma dádiva.

A final deste Mundial coCAMPEÃO DO MUNDO 1998 AS CORES UNIDAS DA FRANÇAlocou frente a frente dois dos maiores exemplos desse fenómeno. Desailly nasceu no Ghana e foi aí adoptado por um viceconsul francês que lhe deu o nome, Thuram, Henry e Diomede vieram da Ilha de Guadalupe, Lizarazu é de origem basca, Vieira nasceu no Senegal e naturalizou-se francês, os pais de Lama são da Guyana francesa, Boghossian tem raízes na Arménia, Trezeguet é filho de argentinos, Pires pertence á segunda geração de emigrantes portugueses, Karembu provêm de um clan Kanake da Nova Caledonia, uma ilha no Oceano pacifico, o pai de Djorkaeff, também antiga glória do futebol francês, nasceu no Caúcaso e a mãe é armena, Candela têm sangue espanhol e moram no Magreb as origens de Zidane. Todos cantam a marselhesa com emoção á flor da pele. Esta é a vitória da por muitos chamada França profunda, reflexo da sua vocação imigrante ao lado da secular abertura para com regiões distantes que foram ou continuam a ser territórios ou colónias gaulesas. Uma atmosfera que o futebol francês sempre espelhou. O seu primeiro grande jogador chamou-se Ben Barek, um mulato nascido em Marrocos. Estavamos nos longuinquos anos 40, pouco tempo antes de Albert Batteux deixar a sua marca no futebol da velha Gália. Este foi o homem que criou o lendário Stade Reims e fez Kopa, Fontaine, Jonquet e Marche, isto é, a equipa da França no Mundial-58. Fontaine continua a ser, muito provavelmente para sempre, o melhor marcador da história dos mundiais: 13 golos. Também ele nascera em Marrocos, no calor de Marrakeche, que enquanto permaneceu colónia francesa deu muitos talentos aos relvados franceses. Quando Fontaine se retirou dos relvados em 1961, após grave lesão, o futebol françês sentiu a sua falta e durante os anos 60 perdeu o prestigio conquistado pelos enfants de Batteux, para eclipsar-se por completo até perto do final dos anos 70.

Foi no último mundial da década do disco sound, em 78, que se iniciou o periodo dourado do futebol françês quando Michel Hidalgo descobriu Platini, versão de Asterix como jogador de futebol. O seu projeto exibicional não tinha o génio de Pelé e Maradona, ou o fulgor de Di Stefano e Eusébio, ou até a magia de Bobby Charlton, mas tinha uma personalidade invulgar,um pouco á imagem de Bobby Moore ou Beckenbauer, era um verdadeiro leader, classe pura, jogo útil, sem osso, quase sobrenatural, sempre com a camisola fora dos calções, falando e gesticulando com os colegas. Foi, com passes em profundidade, o regista de uma orquestra de luxo estrelada por pianistas como Tigana, Giresse e Fernandez. Bastava um olhar seu para iluminar jogadas ou corrigir posições. Com Platini e o seu cativante sorriso de Gioconda, a França recuperou a elegância e aurevoir tristesse, Allez les blues!

A vitória no Euro-84 acabou por ser pouco para o brilho da geração Platini, duas vezes derrotada pela RFA nas meias finais do Mundial, em 82 e 86. Sem a sua classe o futebol francês de Papin e Cantona atravessou a década de 90 sem qualificar-se para um Mundial até ao momento em que lhe foi concedida a organização do último torneio do século. Hoje Platini, alguns quilos mais gordo mas com o mesmo sorriso, senta-se na tribuna de honra como co-organizador do França-98 mas não resiste a festejar as vitórias dos seus herdeiros. No dia da final tirou a gravata e vestiu a camisola azul da selecção. Esta conquista também é sua. No futuro ele será o homem forte da FIFA de Blater. O futuro do futebol mundial estará bem entregue.

4CAMPEÃO DO MUNDO 1998 AS CORES UNIDAS DA FRANÇA10 anos repousam entre as fintas de Kopa e as de Zidane. Os túneis do tempo descobrem sensações únicas, como as provadas por Eric Cantona, vagabundo do futebol raça, o maior e mais fascinante enigma da história do futebol francês, onde nunca encontrou espaço, onde nunca foi compreendido ou aceite. Catherine Deneuve, diva do cinema francês, diz que continua a representar porque preciso do olhar dos outros.

Durante os jogos, nos olhos de Cantona descobria-se uma serena cumplicidade com o mistério. No verão de 97 Cantona resolveu partir do futebol. Agora, vive em Barcelona e está a rodar um filme. Quer ser actor. Continua a precisar do olhar dos outros. Enquanto adolescente tinha na parede um poster de Isabelle Adjani e confessa que sempre tive dentro de mim uma alma rebelde. Creio que Isabelle sente o mesmo. Talvez seja demasiado inteligente para ficar satisfeita com o que tem. As pessoas que alcançam esse nivel de inteligencia, intelectualmente ou instintivamente, nunca podem ser verdadeiramente felizes porque entendem coisas que muitos jamais captariam. Eric nunca pareceu realizado dentro de um relvado de futebol. Percebeu desde sempre que nele existe muito mais do que apenas quatro linhas e uma bola. O grande ícone da Gália futebolistica viveu quase sempre á margem da sua selecção. Durante o Mundial nunca o vimos, nunca se falou dele. Depois de Papin e Ginola, nas suas pausas da mágoa encontrará agora os ecos de Delon e Bemondo.

CAMPEÃO DO MUNDO 1998 AS CORES UNIDAS DA FRANÇA2A selecção de 98 teve a enorme vantagem de jogar em casa. Mas até á final nunca teve o mesmo apoio de brasileiros e holandeses. Antes do jogo decisivo o capitão Deschamps fez um último apelo para que deixassem o fato e a gravata em casa e colorisssem o Stade de France com as cores da bandeira francesa. Platini foi o primeiro a dar o exemplo. O estilo de jogo desta França é, porém, muito diferente do jogado pela do seu tempo, com maior cariz ofensivo e criativo. O onze de Aimê Jacquet reflecte afinal a tendência do futebol moderno, aquele que conquista vitórias: rigor defensivo, meio campo musculado, um playmaker que sabe ocupar os espaços vazios jogando para a equipa e grande força fisica e mental. Apenas lhe falta, depois do eclipse de Papin, um verdadeiro homem-golo. Mas o futuro já corre nos relvados.

A nova geração gaulesa, personalizada em Thierry Henry e Trezeguet, reúne de forma sublime a beleza da miscegenação de genes futebolisticos de vários continentes, tesouro do futebol francês, traduzido depois num poético movimento colectivo. A aldeia de Asterix abriga hoje um século de história futebolistica. Jean Tigana, um poeta dos anos 80, também ele com genes africanos, nascido em Bamako, será o druida responsável por levar estes valores até ao Séc.XXI., sempre com o incontornável desejo de abraçar o mundo. Allez les blues!