O campeonato do “País do Eder”

14 de Agosto de 2016

Portugal ganhou o Europeu de forma perfeita. Sem Ronaldo em campo e com um grande golo do Eder. Tentem lá escrever um livro de futebol assim. Não conseguem, bem me parecia. Nem de ficção científica. E, no entanto, foi assim. Entre o debate de jogar bonito, feio, bem ou mal, surgiu um “caminho de ninfas” no calendário e um equilíbrio táctico vindo da aliança entre os três grandes do nosso futebol: João Mário. Renato Sanches, Adrien (com Danilo atrás).

Deles, para já, só partiram dos nossos relvados as “rastas encarnadas”. João Mário, parece, está quase. Nada a fazer. É o nosso destino. O que “está escrito” naquele que é um óptimo local, idílico mesmo, para fazer um pais: o nosso território (continente e ilhas). E é, também, um bom sitio para se fazer um bom campeonato, caleidoscópio de imagens e atmosferas.

Dos Estádios cheios dos grandes, ás bancadas vazias de outros campos, o nevoeiro da Choupana, as caixas de fósforos de Tondela e a velha (e em breve nova) Mata Real, o clima morno que quase adormece nos Barreiros no Funchal, as curvas até Arouca, o vento que quase leva pelo ar quem visita o campo do Rio Ave (e o Restelo ás vezes), a pedreira de Braga, o tempo que parece ter parado nas paredes do Bonfim, e tantas, tantas outras imagens, frio ou calor. Regressa Trás-os-Montes, o Chaves, mas agora subir o Marão agora já tem o “túnel de futebol” até lá.

Não existe um campeonato na Europa tão multidimensional como o nosso em termos de atmosferas diferente criadas pelos Estádios. Cada qual parece saído de uma história própria só possível naquele sitio, vila ou cidade.

Um campeonato como se fosse um “puzzle de Mordillos”, telas engraçadas de um cartoonista argentino onde coexistem, num cenário ao mesmo tempo super-confuso e harmonioso, imensos bonecos baixotes com nariz de batata nas mais diferentes atitudes aparentemente inconciliáveis. E, no entanto, são e vivem juntos. Nós vivemos aqui e gosto disto. É o tal destino. Agora, resta brincar com ele. Como se fossemos um remate do Eder em cada dia das nossas vidas.

andre silva

O primeiro jogo do campeonato confirmou as pegadas deixadas na pré-época que levavam até a um baixinho brasileiro que parece renascido a jogar a partir da faixa esquerda: Otávio. Poderá ser mesmo ele, pensando na consistência para uma época inteira, o criativo do novo FC Porto de Nuno? O argumento da qualidade de passe dá-lhe hoje essa legitimidade. Acaba bem, tornando simples, as jogadas difíceis que começa.

Não é, no entanto, um organizador e, nesse sentido, o recuo de Herrera no terreno (acabou a época passada quase a segundo-avançado, começa esta como o membro do duplo-pivot que inicia a construção de jogo) transporta essa autoridade/responsabilidade para ele no onze. Entre a criação e a organização, o FC Porto antes de definir um plantel, definiu um onze para o arranque da época.

O crescimento de André Silva parece viver à margem de toda esses factores de pressão que envolvem o mundo azul-e-branco após três anos sem ganhar. Joga encolhendo os ombros, mais musculado e agora a receber a bola cada vez mais “redonda” dos equilíbrios criativos do meio-campo. A grande questão coloca-se nos níveis de exigência competitiva muito altos que caem em cima da equipa numa fase em que devia só estar preocupada em “aprender a crescer”. Este FC Porto de Nuno já tem de “nascer tacticamente crescido” para entrar Champions. Tem as bases mas ainda não sabe verdadeiramente até onde pode ir nos jogos (isto é, até onde pode fazer subir ofensivamente o seu bloco) sem perder os equilíbrios, nem se expor aos erros. Irá perceber isso com a própria competição. Não será pois, aprendizagem. Será chocar com a sua própria realidade. Por isso, a importância do primado do onze e sua organização

O nosso destino? Resta brincar com ele. Como se fossemos um remate do Eder em cada dia das nossas vidas.

eder