Campeonato no meio do caminho: A “idade da razão tática”

30 de Novembro de 2015

Campeonato no meio do caminho A idade da razão tática

No inicio, é um relvado. Depois a chuva, o terreno revolto, a lama, tufos de relva a saltar, parece impossível dominar a bola. O jogo ameaça cair num território físico ao qual a técnica não pode chegar. Mas, de repente, a bola vai para aos pés dum jogador, Jackson Martinez, e, num ápice, parece que se joga sobre um tapete. Pelos mesmos terrenos, também Oliver fura por toda a lógica. Há jogadores que fazem parecer (ou ser) todos os relvados bem tratados, até no “fundo mar”.

O Campeonato chegou a meio e no percurso encontra diferentes habitats, climas e relvados. Uma (boa) equipa tem de resistir a tudo. E adaptar-se. O FC Porto de Lopetegui venceu em Penafiel, contra uma equipa de dentes cerrados, através desses traços de Jackson (jogador/ponta-de-lança na mistura de posições e ações) mas continua a seis pontos do líder Benfica.

A equipa de Jesus joga com a certeza e serenidade táctica da vantagem. O pseudo-dilema pós-Enzo com Talisca a nº8 dificilmente passa para a prática na assimétrica dimensão competitiva do nosso campeonato. Ou seja, Talisca tem de aprender muito sobre fundamentos defensivos mas (sem competições europeias) tal será em jogos nos quais pouco lhe é exigido....
defensivamente. Desta forma, pode errar mais vezes sem efeitos dramáticos para a equipa. Tal tranquilizará mais o jogador em campo mas não é o mais indicado para esse processo de crescimento tático. A equipa pode continuar a viver tacticamente em sossego.

Este é um campeonato para ser decidido nos jogos entre os grandes, nos quais essas exigências subitamente reaparecem. É perturbante, após meio campeonato jogado, ter esta sensação de olhar as equipas, semana após semana, e ver como o nível médio do jogador a jogar em Portugal baixou drasticamente nas ultimas épocas.

Seria um debate longo encontrar as causas (financeiras, scouting errado, planteis desequilibrados, etc). É desolador, também, para os treinadores. Porque até se nota o que querem que as equipas façam, mas, logo depois, abre-se um abismo entre pensado e realizado,
O Benfica entrou melhor na época com o seu modelo de jogo rotinado. O FC Porto entrou em plena fase de construção. Ambos modelos, embora distintos, são muito exigentes para os jogadores. Na fórmula-Jesus pela obrigação do rigor de transição defensiva. O do FC Porto pela posse circular necessitar de velocidade e ao mesmo tempo jogo interior profundo. As derivações, de jogadores e por um sistema alternativo (4x4x2 para enfiar Adrian no onze) atrasaram o processo agora estabilizado. O Benfica ignorou a exigência europeia e, internamente, mesmo com o meio-campo permanentemente em “obras”, afirmou a sua personalidade táctica sem sentir ameaças que, num campeonato mais competitivo, seriam mais sérias.

CRIAR A “CALMA TÁTICA”

O Sporting nasceu demasiado ansioso. Sentiu-se nos jogos em casa. A pior pressão para uma equipa não é a dos adversários mas sim a que sente desde dentro, a chamada “pressão interna”. Após um época de reabilitação, ouvir falar em titulo, perturbou a estabilidade emocional. Em busca de solidificar uma ideia de jogo, Marco Silva trocou jogadores e sistema. Encontrou maior serenidade com o jogo visionário de João Mário e um 4x3x3 com velocidade móvel.
Mais do que na forma de jogar, o crescimento da equipa na segunda metade da época terá de ser mental. Nesse sentido, não tirou tudo que podia da vitória personalizada no Dragão para a Taça. Estranhamente, a equipa não cresceu depois disso. Até se questionou mais. A melhoria da defesa é sobretudo resultado de um processo coletivo que começa no meio-campo. Acaba a primeira volta e fica a sensação estranha de que causou mais problemas a equipa (e seu “entorno” no clube ) a si própria, do que os adversários a ela.