Cangurus e os samurais

27 de Janeiro de 2011

A Taça da Ásia como palco de um choque entre dois mundos. A entrada da maior força futebolística da Oceânia, a Austrália, alterou as coordenadas do continente asiático. O onze canguru pode crescer com a maior exigência competitiva que agora enfrenta, mas no plano do futebol asiático, esta intromissão de uma selecção estranha ao seu mundo, subverte a pureza das suas competições de selecções, pois altera a natural correlação de forças e adultera o verdadeiro confronto de estilos do continente.

Chega à final com o Japão, ironicamente, talvez, no estilo, a selecção asiática mais europeia na forma de jogar. Com um futebol mais apoiado e de técnica, em contraste, por exemplo, com o futebol mais vertical e veloz dos coreanos, uma selecção a quem falta saber manejar melhor os ritmos de jogo mais lentos para controlar as diferentes fases dos 90 minutos.

No geral, a Taça da Ásia 2011 revelou equipas com boa organização a meio-campo. O Japão com o duplo-pivot Endo-Haebe é um exemplo dessa ideia. Seguram bem a bola numa transição em segurança e num ritmo de jogo estruturalmente lento. É curioso notar que jogando em 4x2x3x1, o principal factor de aumento de velocidade são as subidas do lateral-esquerdo Nagatomo, que ao entrar a meio do meio-campo adversário exige outro tipo de velocidade aos médios de segunda linha: a velocidade do passe. É onde aparece Honda, um jogador lento mas que resolve e passa rápido de primeira. Mais difícil é perceber o papel de Kagawa, estrela no Dortmund, mas que na selecção joga demasiado sobre a ala esquerda a conduzir a bola. O jogador que mais me cativa, porém, é Okazaki (jogador do Shimizu S-Pulse). Um nº9 escondido na direita que surge muito bem na área, não em diagonais mas nos espaços vazios, muito forte de cabeça.

A Austrália ainda conserva alguns traços do estilo britânico que tem na raiz do seu futebol pela forma rápida de jogar e facilidade com que mete passes longos no jogo. Vale sobretudo pelo seu ataque. Tem pouca presença de posse de bola a meio-campo e a defesa sofre perante avançados mais esquivos. Cahill é a alma-mater da equipa, com Emerton a encher fisicamente o lado direito e Holman (um jogador com a escola táctica do futebol holandês, no AZ) muito bem a equilibrar as transições desde a esquerda. Na frente, Kewell ainda se destaca na hora de receber a bola e definir, mas já não produz jogo por si só. A dupla de pivots Culina-Jedinak é essencialmente posicional.

Japão-Austrália não é, por isso, uma final verdadeiramente…asiática. Pelo contrário, é um desafio ao seu continente para resistir à invasão dos cangurus. E, agora, só os samurais podem salvar a honra do futebol do sol nascente.

Da Jordânia ao Iraque

Nos relvados do Qatar, Taça da Ásia, Olhando as equipas nos quartos-final, a maior surpresa foi a Jordânia. Vendo os seus jogos, detecta-se, talvez, a equipa fisicamente mais forte do torneio. Odai, avançado que faz golos arrancado desde trás, escondido no flanco esquerdo, arrasta as marcações permitindo que em torno do ponta-de-lança Abdullah Deeb, se mova um jogador muito fino no trato da bola e movimentos de organização ou ruptura: Hassan (do Al-Wahdat da Jordânia, clube sediado num território que é um campo de refugiados palestiniano).

A surpresa Iraque é apenas aos olhos europeus. Em 2007, ganharam a Taça de Ásia. A forma de jogar permanece idêntica. Um 4x2x3x1 com meio-campo em superioridade numérica e velocidade nas alas, como o perigoso Moahamed Emad endiabrado a servir, na frente de ataque, o imponente Younis Mahmoud. Com o criativo Akram a criar atrás, quem surge no apoio desde trás é a batuta de Abdulzerah (jogador do Al-Karkh) o dono da equipa.