Carlos Martins, Rebelde com causa

19 de Janeiro de 2007

Carlos Martins, Rebelde com causa

Há jogadores que parecem viver encurralados numa galáxia distante. Não tem presença constante no jogo, mas quando aparecem estremecem com todos os seus alicerces. São talentos rebeldes que desconfiam dos mecanismos colectivos, quer na forma de jogar, quer no carácter irascível. Faz lembrar Robert de Niro em Casino, quando dizia que “há três maneiras de fazer as coisas: Bem, mal, ou como eu as faço!” De repente, bastou ver dois cartões amarelos num minuto, e as análises da semana transformaram-se quase numa espécie de consultório psiquiátrico para decifrar o problema de Carlos Martins. Houve quem dissesse que desperdiçara a última oportunidade e que a sua carreira se tinha suicidado. Reacção estranha. Primeiro, porque foi a primeira expulsão da sua carreira.

Segundo, porque a sua irregularidade exibicional já o acompanha há várias épocas. Quer por lesões musculares cíclicas, quer por questões de temperamento. Depois, porque todo o jogo do Sporting suscita interrogações. Carlos Martins também tem uma maneira muito própria de fazer as coisas. Para o bem e para o mal. Há um Sporting com Carlos Martins e outro sem ele. Não duvido que o primeiro é melhor. Tem talento, garra, remate e uma segunda velocidade que abana qualquer jogo.

O controlo emocional é outra questão. Eu acho que o principal problema dele é querer ganhar, saber que tem talento para fazer a diferença nesse sentido mas muitas vezes não descobrir a melhor maneira para o fazer. O treinador tem aqui um papel muito importante para resolver este dilema. A mente do jogador também, claro. Mario Wilson dizia que jogadores deste tipo, e a história está cheia de casos semelhantes de incompatibilidade talento-carácter, precisam é de carinho, de quem entenda a sua personalidade futebolística. Há quem acredite que se é o sucesso que constrói o carácter, é o fracasso que o revela. Há jogadores a quem basta um clique para conquistar o equilíbrio táctico e emocional. Outros necessitam de uma terapia permanente. Na altura em que se aproxima da meia-idade futebolística, Carlos Martins ainda vive refém desta interferência temperamental, mas a sua rebeldia tem causa, a do bom futebol. Nos anos 80, no Real Madrid havia, salvo as devidas proporções, um jogador, também talentoso, explosivo e parecido no temperamento. Juanito. Tinha a tal segunda velocidade que estremece o jogo, mas, de repente, perdia-se, e quando voltava já tinha, tal como Carlos Martins, o cérebro e as chuteiras desconectadas. Os seus defensores diziam, porém, que todos os erros que ele cometera na carreira se colocados seguidos não chegariam sequer a ter uma sequência de um minuto. Como o futebol vive de imagens e emoções, a Carlos Martins esse minuto quer devorar-lhe toda a carreira.