Catrachos, Ticos e Astecas

17 de Outubro de 2009

A bela jogada rompe a madrugada e vem do Estadio Custaclan, em San Salvador. Um centro/passe preciso de Suazo. Um cabeceamento forte, rotação perfeita nas alturas, de Pavon. É a imagem mais forte do outro lado do Planeta do futebol rumo ao Mundial. O futebol da CONCACAF, terra de dois gigantes, México e EUA, e uma série de selecções que jogam sempre com o coração nas botas. Entre elas, Honduras e Costa Rica.
Naquela altura, apesar dos festejos, Pavón, um catedrático ponta-de-lança do futebol hondurenho (aos 36 anos joga agora no Necaxa mexicano) sentiu que ainda estava distante de fazer história no apuramento. Mais longe, nos EUA, uma selecção americana meio adormecida, perdia com a Costa Rica por 0-2.

Neste duelo à distância Honduras-Costa Rica, diferentes almas, formas de jogar muito semelhantes. O futebol centro-americano tem um estilo: com técnica apurada, aposta nas mudanças de velocidade e compensa o deficit físico com muita pressão sobre a bola.

A Costa Rica (4x4x2) também tem uma boa dupla atacante: Saborio (joga no Bristol) e, sobretudo, um esguio tecnicista que mexe na bola com grande intimidade, Brian Ruiz, autor dos dois golos. Na hora de controlar o jogo, sentiu muito, porém, a falta de Borges, um miúdo, 21 anos, que está a surgir (joga no Fredrikstadt da Noruega) e é já o melhor médio-centro dos tico-tico.

As Honduras (também 4x4x2) é mais forte no meio-campo e isso faz toda a diferença. O seu «4» de médios tem largura e profundidade. É dos mais fortes da CONCAF e merece ser visto com atenção (ver quadro em baixo).

No ataque, também pode entrar o esguio Costly (do Belchatow polaco), sempre muito perigoso. Pavon é, no entanto, mais malandro. Sabe tudo de como andar entre os centrais. Suazo, na selecção, joga mais perto da área, como avançado tipo, sobre a meia-esquerda, em 4x4x2. Por isso, destaca-se mais nos passes do que nos seus tradicionais arranques. No final, dois golos americanos desfizeram o sonho dos Ticos e fez explodir o dos Catrachos, 27 anos depois do Mundial-82. Esta selecção de 2009 é, porém, muito diferente, tem bons jogadores e merece ser descoberta.

Catrachos, Ticos e Astecas Entretanto, o México passeava tranquilo em Trinidad e Tobago. Após um inicio terrível com Eriksson, a equipa reequilibrou-se com o carisma de Aguirre, num 4x3x3 mais realista, que com Torrado e Castro a segurar o meio-campo, revela um médio muito forte nas transições, Juarez (do UNAM), apostando no ataque na mobilidade permanente dos três avançados (Blanco, Giovani, Franco ou Sabah). Qualquer um deles pode surgir no centro, embora Sabah seja o mais fixo, enquanto Blanco, 36 anos, o velho inventor da finta da rã, continua a ser o grande vagabundo.

Os «aromas» da Sérvia

É, talvez, a nota mais positiva da fase de apuramento. O belo futebol da Sérvia de Antic. Abandonou o sistema de três centrais, 3x5x2, sempre mais susceptível de se desequilibrar do que as estruturas mais clássicas, e montou um 4x4x2 muito mais seguro. No jogo, porém, os princípios defensivos não são muito diferentes. A duvida é saber quem acompanha Vidic no centro (Lukovic, Subotic ou Dragutinovic), ficando Ivanovic a fechar na direita e soltando mais Kolarov na esquerda.

A atacar, o onze ganhou maior dinâmica. Um estilo rápido e imaginativo que começa nos alas, com Krasic, na direita, e Jovanovic, na esquerda, um jogador-serpente que, aos 28 anos, custa perceber como andou tantos anos com o seu enorme talento escondido. Joga há quatro épocas no Standard mas tem, claramente, valor para voos maiores.

No ataque, a dupla Zigic-Pantelic combina na perfeição. Zigic (2,02m.) chega a todas a bolas, e solta Pantelic nos espaços vazios.
A maior questão em aberto é a posição de médio-centro. Falta um grande pivot de referência no actual futebol sérvio. Frente à Roménia, foi Stankovic que, muitas vezes, mais recuado no terreno, iniciava a saída da bola, apoiado por Milijas (do Wolverhampton) um médio que imprime sempre grande intensidade de jogo.

É, por isso, uma equipa mais forte nas faixas do que no corredor central. Uma equação táctica para Antic resolver.

A Bósnia de Pjanic

A goleada sofrida com a Espanha é uma perigosa ilusão. Até porque, no inicio, aquele onze rápido e criativo estava a dizer, a cada passe, desmarcação ou remate, o que é bom futebol. Falo da selecção da Bósnia.

Essa impressão resulta directamente do seu poder atacante (o problema do onze está na defesa) onde na ligação meio-campo/ataque, solta quatro jogadores fantásticos. A dupla atacante Ibesevic-Dzeko e dois médios organizadores/criativos Misimovic-Pjanic. Na táctica, Misimovic parte da esquerda (Muratovic, na direita, defende mais) mas quem pega no jogo, é, no centro, uma das maiores promessas do actual futebol europeu: Pjanic. Apenas 19 anos e já brilha no Lyon (cresceu no Metz). Como não tem muito peso (1, 80m. e 68kg.) ilude com a sua leveza, mas cada bola que toca mostra a robustez do seu futebol.

Joga entre as linhas adversárias, nas costas dos avançados. Marca livres e inventa espaços para golo com uma naturalidade impressionante. Vendo o jogar, parece que o construir bom futebol é a coisa mais simples do mundo.