CHAMPIONS Notas Internacionais 14/15 (17)

17 de Dezembro de 2014

CHAMPIONS Notas Internacionais 14 15 (17)

1. POSSE: O BARÇA COM TRÊS DEFESAS E O CASO-CAVANI

Ainda é difícil perceber onde poderá ir, a nível de qualidade e consistência de jogo, o Barcelona de Luis Enrique. Com o génio de Messi pode ir até à lua, claro, mas no jogo coletivo, apesar da posse, a equipa ainda não estabilizou o seu jogar e contra o PSG surgiu num novo esquema de defesa a “3”. Uma espécie de 3x2x3x2 (sem Dani Alves, com Barta-Piqué-Mathieu; Busquets-Mascherano; Pedro-Iniesta-Neymar; Luiz Suarez-Messi).

O que mais surpreendeu em termos de posicionamento foi ver Pedro como mais a interior, atento às ações de Matuidi, e, depois, dando largura, a descair na faixa a atacar. A equipa só melhorou mesmo, porém, na sua identidade, quando, nesse espaço, passou a jogar Rakitic e, assim, voltou a ter bola com visão de posse e linhas de passe. Será difícil, portanto, ver a equipa evoluir o seu modelo dentro deste sistema sem perder equilíbrio defensivo.

Sempre que vejo o PSG, penso sempre no problema existencial de Cavani, jogando a partir duma faixa e tão dependente da vontade de Ibrahimovic em recuar para então poder surgir no centro. Jogando os dois mais em dupla nessa zona central, o onze melhora a atacar, mas exige mais aos alas para fechar, algo que limita muito o local de arranque de Lucas nos contra-ataques sobre a direita, uma das principais armas desequilibradoras da equipa.

É, claro, uma boa equipa, mas pouco intensa a meio-campo. Parece que chega à Champions ainda com o ritmo dócil da liga francesa e só depois com o decorrer é que que cresce de intensidade. Um processo que pode ser visto, em termos individuais, na atitude do jogo de Verrati.

2. TÉCNICA: O NOVO AT.MADRID E O RITMO-PIRLO

Depois de uma época elogiado pelo seu bloco tático inteligente, o At.
Madrid de Simeone continua com a intensidade de jogo, intacta, mas, agora, algo diferente por ter menos profundidade na frente. É a troca de Diego Costa por Mandzukic. Perdeu poder de contra-ataque, porque em vez de um n.º 9 que esticava o jogo indo buscar as bolas longas metida no espaço, tem agora um n.º 9 mais fixo, clássico, que espera centros e jogo aéreo. A equipa teve de rotinar outros princípios de conclusão das jogadas ofensivas, trocando mais a bola entrelinhas.

Continua com um processo defensivo muito sólido (que, começa, em Mandzukic, como contra Juventus pela forma como recuava para marcar Pirlo na saída de bola italiana) mas o momento em que sinto a equipa com maior número de soluções de jogo é quando a bola vai ter com Arda Turan. Ora dá largura na faixa direita (combinando com o lateral ofensivo Juanfran) ora segura a bola, permitindo à equipa respirar nas jogadas de ataque.

No mesmo grupo, passa, por fim, a Juventus, onde Alegri se converteu ao passado tático de Conte em 3x5x2. A necessidade da bola passar sempre por Pirlo é, ao mesmo tempo o que a torna mais forte (pela qualidade com que sai o passe de início de construção) e mais frágil (porque torna a transição mais lenta e baixa o ritmo da equipa). Pode ser uma heresia futebolística escrever isto, mas apesar da sua classe (e não podendo só entrar para marcar livres) o jogo coletivo ganha outra dimensão e velocidade quando sai por outro lado (através do baixar de um interior ou a condução de um lateral).

3. TÁTICA: O “jogo de estratégia” de Basileia ao Mónaco

CHAMPIONS Notas Internacionais 14 15 (17)A maior sensação entre os apurados para os oitavos da Champions é o Basileia de Paulo Sousa. Uma proeza que surge num dos clubes mais bem organizados (em termos de inteligência desportiva/financeira na construção de sucessivos plantéis) da chamada segunda linha do futebol europeu.

Eliminou, no jogo decisivo, o Liverpool, realizando uma exibição tática que traduz bem como o treinador português é, na sua essência, muito forte no futebol de estratégia. Ou seja, exemplificando com este caso específico, o Basileia não pode ter um modelo de jogo assente em linhas tão baixas, pois retira-lhe o fator posse (trocando bem a bola) em que é forte nos princípios que Paulo Sousa lhe quer incutir, mas pode, pensando em como ganhar um jogo em que o adversário tinha de arriscar, optar estrategicamente por essa organização.

E ganhou assim, num 4x5x1 em que os alas fechavam quando não tinham a bola, sobretudo Gashi na esquerda, indo então o lateral Safari mais para dentro, quase desenhando então uma linha de três centrais. Em posse, com Frei-Elnanny no duplo-pivot, soltava a mobilidade de Gonzalez desde a direita e mantinha presença na frente, fixando os centrais adversários, de Streller, velho caminhante n.º 9. A criar/organizar jogo, o patrão da equipa no passe, Zuffi.

CHAMPIONS Notas Internacionais 14 15 (17)Vendo como também Jardim construiu a sua proeza no Mónaco, percebe-se, ao mesmo tempo, esta linha de estilo dos treinadores portugueses.

Existem, porém, diferenças, pois o modelo de Jardim (já visto com ele noutros clubes) passa muito pelo primado da organização defensiva, sem receio com isso de baixar o bloco.

As suas equipas raramente são apanhadas desorganizadas sem bola (no momento da perda) e isso é dos maiores tesouros táticos que um onze pode exibir no futebol moderno. Apenas sofreu um golo em seis jogos desta fase de grupos. Notável.