Clássico “mustang”

20 de Abril de 2008

Clássico “mustang”

Se cada jogador é um mundo particular, há alguns que conseguem mudar o mundo global sempre que pegam na bola. Em geral, quem o faz são os que vivem numa qualidade superior. Há noites, porém, em que, por causas quase sobrenaturais, todos parecem possuídos por essa poção mágica. O Sporting tinha caído no seu labirinto habitual. Perdia 0-2 e o jogo tornara-se previsível. Estrategicamente não se via, mais uma vez, outro caminho. Chalana, com os óculos na ponta do nariz, parecia ter-se desligado do jogo. Faltavam só pouco mais de 20 minutos e ganhava por dois golos… Mas Petit já não disfarçava a máscara de sofrimento, Rui Costa já não segurava o vendaval (jogo e clima), Quim começava a ter de ser uma montanha, os laterais não saiam…

Derlei entra e, num ápice, o Sporting descobre outra estrada para jogar, outra estratégia para o seu 4x4x2. A base? A passagem de Djaló (trocando com Romagnoli) para a posição de vértice ofensivo do losango nas costas da dupla móvel Liedon-Derlei. Mais atrás, no mesmo corredor central, já sem controlo, pois o homem que o devia começar a marcar no inicio da transição (Rui Costa) extinguira-se fisicamente, o motor Moutinho. Os desequilíbrios podem nascer das faixas, com as diabruras de Izmailov e o remate de borracha de Vukcevic, mas é no eixo central que mais se pode mexer com o lado estratégico do jogo.

A passada semana, após mais um choque táctico, frente ao Rangers, referi que o problema do Sporting não era não ter sistema alternativo ao seu 4x4x2 losango. Era não conseguir jogar de forma diferente no mesmo sistema. Ontem, na chuva, descobriu por fim essa outra forma, quando colocou o “pique” e versatilidade de Djaló numa posição onde antes Romagnoli fugia do lugar, indo sempre para a faixa, em vez de atacar a área e mexer com as marcações adversárias. Esse traço, combinado com Moutinho no lugar onde rende mais (primeiro pivot à frente da defesa) e Derlei dentro da área, mudou o jogo. Nesse momento, o jogo parecia ser só dos jogadores, mas não era em assim. Porque Bento conseguira mexer nele. Tinha razões para se “sentir treinador”. Porque Chalana não conseguira reagir perante ele. Tinha razões para “não se sentir” treinador. E, no fim, falou em penaltys por marcar...

Clássico “mustang”Diz Mourinho que “5-4 (neste caso foi 5-3) não é um resultado de futebol. É um resultado de hóquei! Se num treino o resultado chega a esse ponto, mando imediatamente todos para o balneário. Porque já ninguém defende, porque não é futebol, é apenas uma desgraça!” A sua ideia tem fundamento do ponto de vista do ordenamento táctico. Em termos de cobertura de espaços, num confronto entre rigor posicional na defesa e ataque móvel com inteligência, é um “jogo perdido”. Mas, existe o lado emocional. O que nos faz levantar excitados das cadeiras ou sofás, fazendo tombar cervejas e taças de amendoins.

Qual é a essência verdadeira do futebol? Eu diria que as duas e este jogo teve esse “cocktail” em muitos momentos, apesar da anarquia táctica defensiva em que caíra, espelho sobretudo da cristalização do pensamento táctico que assolou o banco do Benfica numa altura em que, com o exército de Bento jogando de alma solta, não conseguiu ser inteligente para saber gerir o jogo, por-lhe gelo e “fechar a porta”. Deixou que um jogo de futebol se torna-se um jogo de hóquei, portanto. Ideal para a “aparição extraterrestre” de Yanick Dajaló, daqueles jogadores que tem alegria até no nome, Moutinho, Liedson ou Vuckcevic, ontem, durante 25 minutos, outros “Ets” com riscas verdes e brancas, heróis de um “clássico mustang” para a história.