Clube e treinador: Nunca vires costas à tua essência

18 de Janeiro de 2016

A teoria mais comum no futebol quando as coisas não correm bem é a de que “os jogadores mandaram embora o treinador”. Em geral a tese aparece quando, visto da bancada, o divórcio de todos com esse treinador atingiu um ponto de ruptura que se presente irreversível.
Nessa altura, quase sempre a análise profunda a tudo o mais fica insensivelmente de fora, como se nada mais existisse. Só o treinador, culpado, e onze jogadores que não rendem mais por sua causa e que, no limite, acabaram por o mandar embora. É uma análise demasiado simplista. E quando ela fica por ai a tendência é o problema visível repetir-se e a sua causa, o problema “invisível”, manter-se camuflado.

Lopetegui falhou no FC Porto depois de ter chegado com uma ideia de jogo de traço espanhol interessante. Com o passar do tempo, porém, o seu distanciamento em relação a tudo o que é o “mundo Porto” dentro do futebol português tornou-se cada vez maior. Em tudo. Discurso e método.
Acabou, inevitavelmente, por sair numa altura em que os jogadores quiseram. Isto é, embora não acreditando na tese da primeira frase no sentido terminal que ela comporta, acredito antes que o que acontece neste percurso em que as relações se deterioram até ao limite, é os jogadores, na sua “inteligência ou esperteza”, levarem esse treinador até à berma do precipício. Na relação interna e, no que cria mais impacto, no que jogam dentro do campo. Depois, basta um sopro de vento dentro deste (um/dois maus resultados) e ele cai. Implacavelmente. Foi o que sucedeu.
Fica, porém, todo o resto do problema e que, no fundo, é a (maior) causa de tudo.
Ao falhar Lopetegui falha mais um projeto do FC Porto nos últimos três anos. Falha cada vez mais a sensação de força interna inabalável que o FC Porto transmitia. Estes jogadores, a sua maioria, os tais “que o mandaram embora” depois de o por na berma do precipício, já não são jogadores da mesma casta que eram feitos os velhos jogadores do FC Porto que, no traço e no gesto, fizeram o código genético do jogador "à Porto" que ganhou tanto, impondo personalidade, ao longo das últimas três décadas. Tudo o que os rodeiam tendencialmente também não.
E esta é a questão-macro: Ao longo de 30 anos, o FC Porto nunca ganhou doutra forma, nunca soube ganhar de outra forma. Ganhou sempre reinventando a mesma essência que fundou “esta ideia confrontadora de FC Porto” desde os remotos anos 70. Agora, está confrontado com outros tempos, outro tipo de jogadores, outro tipo de balneário, outro tipo de mercado, outro tipo de relações internas (e externas) e, por fim, na escolha natural, outro tipo de treinador, o elo por onde a corda parte.
A análise deve ser feita, portanto, olhando todos estes itens referidos na fase anterior e mexer ao máximo em todos o que for possível até chegar ao último. O treinador só é o mais importante quando todos os outros antes não o conseguem ser (como sempre foram nos melhores momentos do FC Porto).
O treinador é aquele para quem todos olham quando se está no deserto, mas todos sabemos que quando vemos algo no deserto, isso é quase sempre uma miragem. Como foi Lopetegui. Quando se manda embora um treinador, imagina-se sempre que se manda embora o problema. É possível. Mas só a parte que é visível.