A coisa mais bonita é uma coisa que já não existe

27 de Novembro de 2016

 

E agora? Como será, eu sem futebol? Mais do que futebolística, uma questão de vida. “Adoro jogar, o treino, o dia a dia, competir, adorei todo este meu percurso com os seus altos e baixos ao longo dos anos”, confessava Gerrard esta semana, finda a aventura americana, no LA Galaxy, quando anunciou mesmo a despedida definitiva dos relvados.

Tenho, porém, a sensação que Gerrard se retirou duas vezes. A outra foi há dois anos, quando se retirou do Liverpool, o seu clube da vida. Terá sido este, interiormente, o seu verdadeiro fim de carreira: “O que significa o Liverpool para mim? O mundo! Comecei como adepto muito miúdo. Foi o clube que fez de mim um ser humano decente e um bom futebolista”. Um sentimento que, no fundo, o fez nunca sair de Liverpool ao longo da carreira quando esteve no auge das suas qualidades.

Não faltaram oportunidades para isso. Numa delas esteve quase a ir para o Chelsea, onde era muito desejado por Mourinho. A época já tinha começado, mas o Liverpool, então de Benítez, voltara a começar mal. Com o mercado aberto, os clubes chegaram a acordo até que chegou o dia de Gerrard sair.

Pelas entranhas de Anfield, despediu-se emocionado de todos que o conheciam desde pequeno. Saiu e entrou no táxi com o emissário do Chelsea que o ia a acompanhar na viagem até Londres. Foi então que, nesse caminho entre Anfield e o aeroporto, passando por vários locais por onde crescera através dos anos em Liverpool, começou a ser devorado pelas memórias.

Os velhos locais onde estivera com amigos, onde falara, aprendera ou jogara futebol de rua, da adolescência a adulto, futebol e família. Telefonou para os país, disse que os amava, foi recordando velhos tempos à medida que passava pelos locais e começou a chorar. Cada vez mais, até que, chegado ao aeroporto, devorado por dentro, não resistiu. Não podia deixar tudo aquilo.

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Podia ser um grande contrato, a hipótese de ganhar títulos como tanto queria, mas o que trocava por isso era a sua.... vida. O emissário do Chelsea tentou convencê-lo, que fazia parte da carreira, mas Gerrard não resistiu e saiu do táxi para apanhar outro de regresso. “Não posso ir, não consigo deixar tudo isto!”.

Os clubes acabaram por se entender. Nunca mais nenhum o tentou tirar de Liverpool durante a sua carreira ao mais alto nível, quando estava no pleno das suas qualidades. Gerrard jogou mais anos em Anfield, mas nunca seria campeão.

Houve um ano, com Brendan Rodgers, que esteve quase, andou em primeiro quase até ao fim (foi mítica a forma como no final de um jogo ganho ao City reuniu os jogadores no centro do relvado para atacar essa recta final), até que chegou um jogo decisivo, que tinham de ganhar, em casa, contra o Chelsea que já não tinha nada a jogar, e no momento mais importante, quando ia sair a jogar desde trás, carregando a equipa como fazia tantas vezes, escorregou, tentou reequilibrar-se, voltou a escorregar e Demba Ba roubou a bola e foi sozinho para a baliza. Correu, correu e golo. O Liverpool perdia o jogo (e, nas contas do campeonato, o titulo mítico que continua perdido desde 90).

Há histórias que me fazem acreditar no destino. A de Gerrard, carreira, fidelidade ao emblema (clube, memórias e vida) e drama de escorregar no momento mais sonhado, não tem a lógica das histórias mediáticas dos jogadores do futebol moderno (pop-stars ou craques irascíveis). Gerrard foi o último jogador inglês à moda antiga, cuja imagem se confunde com um clube.

Quando contava histórias, Charles Dickens dizia que não sabia se ela acontecera rigorosamente daquela forma, mas que era assim que a gostava de recordar.

Digo o mesmo da viagem de táxi e telefonema de Gerrard quando ia a sair de Liverpool. A outra, o escorregar e com isso o título fugir de Liverpool foi exatamente assim. Ambas, porém, aconteceram mesmo. Com ou sem sombra de romance.

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