Colar o “jogo partido”

19 de Junho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (13)

Laudrup, velho poeta da bola, disse um dia que “no jogo, não há nada pior do que correr atrás da bola”. É verdade, mas há jogadores que, mais criativos ou operários, sentem mais esse lado lunar do futebol sem bola. O Portugal-Holanda foi o espelho dessas sensibilidades de jogo. O onze laranja tem muitas estrelas ofensivas, daquelas de tirar coelhos da cartola, mas nenhuma com vocação para ir atrás da bola. O onze português perdeu a imaginação de outrora no meio-campo, mas tem jogadores (Veloso, Meireles e sobretudo Moutinho) que parecem jogar com um radar que lhes permite saber sempre onde a bola vai cair.

Entraram no jogo, porém, à procura de uma razão para decidir o que fazer. Esperavam esse sinal da equipa holandesa. O impacto inicial foi, por isso, assustador. Nem pressão, nem posse. O suficiente para ficarmos a perder. Estavam na equipa, no entanto, os tais jogadores com antena na cabeça para selecionar a melhor resposta a dar essa situação táctica. O aumento de intensidade de pressão no meio-campo debloqueou táctico-mentalmente o nosso jogo. Passamos a recuperar e sair com a bola em vez de andar apenas atrás dela.

Os treinadores têm a tendência de, perante situações de maior distância entre-linhas e espaços vazios, dizer que “o jogo partiu-se”. Dizem-no como se então não houvesse nada a fazer. Errado. É nessa altura, exatamente, que é importante a equipa (com indicações do treinador) voltar a colar o jogo, sobretudo com o meio-campo. A equipa da Holanda parece...duas equipas. A equipa dos avançados, temível. E a equipa dos defesas, frágil. No meio desta equação laranja, Portugal tinha a sua equipa de...médios. E tendo esta equipa ativa (com radar) o jogo nunca se parte.

Fala-se em Ronaldo como um jogador anárquico. É um pouco verdade (e não defende) mas do que se trata mesmo é que para ele, a sua ordem de jogo é diferente. Superada a ansiedade, com o seu talento, há que aceitá-lo e adaptar a equipa a essas circunstâncias. Porque a distância que vai entre tirar um coelho da cartola e amassar a cartola com o coelho lá dentro é, afinal, muito pouca. No futebol, claro.

Inglaterra com Rooney

Ao terceiro jogo, a Inglaterra vai estrear o seu melhor onze com...Rooney. Vista como o patinho feio dos pseudo-candidatos, dá a sensação de ser uma equipa na qual os jogadores, mais do que o treinador, tomaram conta dela. Na casa táctica de Rooney, atrás do ponta-de-lança, jogou Ashley Young (contra a França, em 4x2x3x1) e, depois, contra a Suécia, mudou para 4x4x2, metendo uma dupla clássica de pontas-de-lança, Welbeck-Carrol, passando Ashley Young para a esquerda. Com Rooney, voltará ao 4x2x3x1, dando-lhe o lugar de organizador de ruptura na terceira linha do meio-campo (as outas duas linhas, são Parker a sair e Gerrard mais solto). Desta forma, Ashley Young que vejo, claramente, como jogador de faixa, incorporará definitivamente o papel de extremo.

Por enquanto, ainda ninguém olha para esta Inglaterra como capaz de abanar o Europeu. Não tenho tanta certeza disso. Se a bola não vai ter com Rooney, vai Rooney ter com a bola. Olhando o cenário táctico equilibrado que está a dominar este Europeu, acho que um jogador destes pode ser um factor de diferença com consequências imprevisíveis.