“Colorindo” jogadores

12 de Julho de 2012

Planeta do Europeu (7)

Shevchenko e Balotelli. Abram as muralhas do futebol. Golpes de atrevimento no jogo que traduzem imagens diferentes do Europeu. O futebol lunático de Balotelli confirmou-se no primeiro jogo da Itália neste euro. Da maneira mais estranha. Ganhou uma bola quase impossível e partiu isolado para a baliza da Espanha. Arrancou, continuar a correr, correu, cada vez mais devagar, a hesitar, a olhar (se só esta frase já está a demorar tempo demais a ler, agora imaginei a jogada), até quase parar, voltar a olhar e, zás, surge Sérgio Ramos, o homem a quem tinha o ganho lance dividido, a tirar-lhe a bola, facilmente, com limpeza.

Passou pouco mais de um dia e aparece Shevchenko. Tenho sempre uma especial devoção por estes velhos caminhantes dos relvados que insistem continuar a jogar. E acho mesmo que este culto do veterano faz muita falta a muitas seleções, inclusive a nossa.

Quando, por vezes, durante um jogo vemos algo acontecer com um jogador sem detectarmos logo a causa e efeito de tal ter sucedido, logo nos socorremos de palavras tão indefinidas como instinto. Sheva, com a balzaquiana leveza dos seus 35 anos, fez saltar todos os cadeados da defesa sueca com dois golos contados com todo o corpo: precisão, execução, rotação ou voo para cabecear. Dois golpes de atrevimento contra o futuro. As melhores mentiras que um jogador pode contar em campo são contadas pelo seu corpo.

Por isso também gosto muito de Mandzukic, o ponta-de-lança da Croácia (ao lado de Jelavic, em 4x4x2). Está longe de ser um virtuoso, mas está muito perto de ser dos avançados mais elegantes deste Euro. Olhando o seu primeiro golo à Irlanda, aparece naturalmente a definição oportunista. O mistério para desvendar estes jogadores que fazem coisas no jogo (neste caso golos) quase parecendo saídos de um alçapão debaixo do relvado e com o corpo quase em posição contra-natura está longe do mero instinto ou oportunismo. Tem antes raízes mais profundas: sabedoria acumulada

De Shevchenko a Mandzukic, começando tudo, porém, por Balotelli, a mesma pergunta para os três: como pode ser que, em campo, só sejam capazes de fazer o mais difícil?

Contar "mentiras"

Colorindo jogadoresFaz crer aos seus marcadores que vai fazer uma coisa ao contrário do que no fim da jogada acaba por fazer. Em geral, este contar de mentiras no jogo é mais dos avançados ou de um criativo puro. Neste caso, estou a a pensar num dos médios europeus mais completos da atualidade: Modric, o box-to-box fisicamente mais frágil de que tenho memória. Joga à base de simulações (temporiza com a bola) e passes que contam coisas até então desconhecidas ao jogo. Não é um nº10, não é um nº8. É um médio pássaro-exótico croata que desenha sistemas diferentes para a equipa à medida que recua e avança no terreno.

Noutro espaço, a faixa, outro jogador: tem algo de malandro na forma como conduz a bola e encara o defesa que o afasta dos traços naturais de leste. Konoplyanka, o extremo esquerdo que só joga com o pé direito, o elemento que, sempre que toca na bola, melhor despoja a Ucrânia de todo o resto do seu futebol demasiado físico e burocrático. Afasta-se da área e dos seu marcadores para os distrair. Depois, aparece. Clarifica o jogo em espaços curtos e mete a bola em passes meio-longos. Desta forma de jogar, pode-se viver toda a carreira.