Como avançar com a bola

30 de Janeiro de 2016

Porquê querer regressar ao “duplo-pivot”?

A estreia de um treinador a meio da época costuma ter um efeito essencialmente emocional. A equipa como que leva um “choque eléctrico” e de repente começa a correr mais depressa, mas para além desse processo “instintivamente reativo” há sempre algo de novo no plano das ideias.
Não esperava que Peseiro mexesse daquela forma no meio-campo. De 4x3x3 para 4x2x3x1. E, assim, o debate vindo de Lopetegui continua. O desenho e dinâmicas a partir do meio-campo, espaço nuclear onde a rotatividade permanente, de jogadores e estrutura, nunca deu estabilidade de jogo à equipa.
Conceptualmente, não sou adepto duma equipa grande no nosso campeonato a jogar com duplo-pivot. Não vejo necessidade táctica para isso em face dos adversários que defronta. Mas se tiver jogadores para isso, e, sobretudo, não tiver um 6 que assuma essa posição sozinho de forma indiscutível (como, no exemplo do FC Porto, era Fernando) admito que bem rotinada em complementaridade (quem fica, quem sai) pode dar resultado.
Na prática, esse inicio de construção “a dois” que Lopetegui já fazia tinha como consequência retardar a saída de bola desde trás (dando tempo ao adversário de baixar linhas ou pressionar logo nessa fase).
Outra questão tem a ver com as características dos jogadores. Ficando Danilo mais posicional, pedir a Herrera para iniciar a “construção profunda mais vertical” traduz-se, na prática, em por o jogador a correr mais com a bola (porque ele pensa/age no jogo assim). Diferente seria conduzir a bola “queimando linhas” como fazia Imbula em Marselha mas que no Porto não sai da “garagem”.
O FC Porto necessita de “outro tipo de jogador” no plano das ideias próprias para essa a saída de jogo. Conciliar jogadores tão diferentes e tão próximos em campo como Danilo e Ruben Neves é, nesse sentido, o grande desafio de Peseiro. André André declaramente a 10 é outra questão, para outro artigo.sporting4

Quando quatro jogadores parecem jogar de mãos dadas

Preparar um jogo quase em contra-sistema não é fácil. Para as ditas equipas de “segunda linha” do nosso campeonato, isso é inevitável sempre que defrontam um grande. Nesta jornada, sucedeu com Paços Ferreira, Arouca e Marítimo.
O plano menos conseguido, menos “problemático”, foi onde se esperava mais, o do Paços. Sem o médio-centro ofensivo titular, Andrezinho, base do seu modelo e estrutura, Jorge Simão procurou resgatar Jota (que tinha sempre com ele jogada na ala) para essa posição.
Em campo, o 4x2x3x1 mantinha-se mas com o rigor posicional mais pregado na cabeça dos jogadores criou uma distância excessiva entre as duas linhas, a do duplo-pivot Romeu-Pelé e do 10 Jota, por onde o catedrático meio-campo leonino da “posse, condução e passe” passeou táctico-tecnicamente o seu futebol: William-Adrian-João Mário-Ruiz parece que jogam presos por cordas ou de mãos dadas.
Na segunda parte, Simão tentou meter um terceiro médio no meio-campo (Christian, passando Jota para a faixa) mas o problema já estava instalado. Talvez se fizesse um triângulo no sector conseguisse melhor (ou, pelo menos, maior) ocupação do espaço, mas deu a ideia que durante a semana tinha ensaiado sobretudo a primeira versão em que apostou.
Mais uma vez, numa demonstração que surge sobretudo nos jogos “fora”, o Sporting de Jesus nunca perdeu a noção de bloco. O facto de Jesus renunciar à velha noção de “equipa partida” para atacar dá mais segurança tática à equipa noutros momentos do jogo. Se, com bola, Adrien é, de facto quem “leva a equipa para a frente” (sobretudo em face do jogo cada vez mais posicional e curto de William, como Jesus quer), é João Mário que, depois, vindo da faixa, pega no jogo no meio.
E reparem que escrevi “pega no jogo”, e não “pega na bola” (embora isso também suceda). A diferença é “mecânica”: se Adrien é o “motor”, João Mário é a “caixa de velocidades” .