Como criamos o nosso “pequeno monstro”

10 de Julho de 2016

Atingir esta Final como um, digamos, tipo de “futebol diferente” do nosso habitual, com menos posse, controlando mais os espaços, e mesmo assim ganhar, é quase como chegar ao cume da montanha da evolução de uma potência.

Até ganhar estatuto de finalista justo mesmo sem ter feito grandes exibições uma seleção –ou melhor, o futebol de um pais- tem de caminhar muito. Tem de passar por muitas coisas, muitas experiências e sensações. Até ao ponto da exigência sobre o seu jogo ser superior a outras seleções ditas sonhadoras que quando chegam longe num grande torneio são vistas com deslumbramento. Foi a forma como olharam para a Islândia e o próprio País de Gales. Portugal, não. Ninguém de fora parece gostar de o ver aqui.

É visto já como uma potência do futebol europeu (embora a um passo dos “monstros mais clássicos”). Olham para ele como uma ameaça que pode ganhar a qualquer outra seleção com o seu futebol de estratégia, criatividade e Ronaldo.

Durante muito tempo, rotularam-nos de “equipa de contra-ataque” e de “um futebol de médios”. As últimas décadas construiu uma imagem mais temível de Portugal. Por isso, atingir esta Final como um, digamos, tipo de “futebol diferente” do nosso habitual, com menos posse, controlando mais os espaços, e mesmo assim ganhar, é quase como chegar ao cume da montanha da evolução de uma potência. Os tais “monstros” que chegam às Finais sem precisar muitas vezes de fazer um jogo deslumbrante, mas que ninguém estranha de os ver nesse ponto porque a sua história já os autoriza leva a considerar como natural e quase por estatuto futebolístico. (pensem na Alemanha em tantas ocasiões).

Esta pode ser uma forma de olhar para o percurso (jogo, resultados e reações) de Portugal neste Euro. De certa forma, também criamos o “nosso monstro” de futebol. Capaz de ser feio ou sedutor conforme as circunstâncias, internas (os problemas da equipa) ou externas (os adversários que defrontamos) sem ficar com dilemas estéticos por causa disso. Mesmo nas criticas a equipa não caiu em crise existencial.

Muitas vezes, tudo parece ser possível só por causa de um penalty ou de um golo ao minuto 117, mas antes e em torno de tudo isso há muito mais.

FRANCAE

Esta França também mudou muito a sua forma genética de jogar. A técnica deu lugar a mais músculo. Há casos mesmo em que mais do que um acrescento, houve mesmo uma anexação de estilo. Parece, na postura em campo (a correr ou parados) que cresceram de tamanho mas quando a bola está na relva, como gosto de dizer, temos todo o mesmo tamanho. E, nessa altura, o futebolista português mais “roda-baixa” sempre soube fugir como “um rato com queijo” e furar adversários. Gosto de continuar a imaginar estes nossos médios dessa forma (os que jogam à frente da “montanha William Carvalho”, claro).

Há dez anos, íamos jogar uma meia-final com a França. Era um Mundial e então escrevi, citando, que “se podes imaginar, também podes conseguir”. Estava em Munique. Perdemos num penalty. Uma década depois, novamente os franceses.

Agora é um Europeu, a Final. E estamos em Paris. Longe do romantismo final da cena de Casablanca, será, no entanto, sempre um momento de despedida. Teremos, nessa visão cinematográfica, sempre, as suas memórias (“Teremos sempre Paris”).

Longe do preto-e-branco, esta meia-final tem cores muito diferentes. Mesmo na questão dos tempos confusos das identidades confundidas em que vivemos. É fácil (e tentador) imaginar o fim deste “filme de futebol” com um golo de Cristiano Ronaldo. Faria todo o sentido no novo cenário real.

No reinventado futebol das “pop-stars”, ele faz da bola o que quer (por terra e ar) e é a expressão supra-planetária do tal nosso novo “pequeno monstro” em forma de equipa futebol. Ganhar um grande torneio sendo criticada pela forma de jogar, só as melhores seleções do mundo conseguiram na história (para as outras, até o mórbido feito grego, é visto como um sonho concretizado e romanceado). O percurso de Portugal nestas décadas fez com que ele passasse a pertencer à primeira casta.