COMO FAZER DA TÁCTICA UM “AMIGO”

25 de Julho de 2014

A Argentina estrou-se duas vezes durante o mesmo jogo neste Mundial. Entre a sua relação com o jogo e a sua relação com a baliza, vive entre dois sistemas táticos que ora confunde, ora liberta, um conjunto de jogadores que necessitam de ter uma ordem mais clara como ponto de partida para entrarem em campo. Do 3x5x2 disfuncional que fez a equipa recuar posicionalmente na primeira parte, até ao 4x3x3 que a soltou na dinâmica da segunda, existe um abismo conceptual a separar as duas ideias.

No fim do jogo, Messi disse que melhoramos no segundo tempo porque “jogamos com mais um”. Poderia pensar-se que a Argentina teria ficado em superioridade numérica no jogo. Não. Esse “mais um”, era um terceiro avançado, um ponta-de-lança puro (Higuain) que o técnico Sabella metera em campo (fazendo sair um “central”, Campagnaro, e voltando à clássica defesa a “4”) permitindo que Messi e Aguero tivessem agora uma referencia que, prendendo os centrais Bósnios, lhe permitisse girar em seu torno.

Ao mesmo tempo, o meio-campo iluminava-se com um médio que sabe ter bola no sentido da construção (Gago uns metros à frente de Mascherano). Di Maria passou então a soltar-se mais em diagonais de “dentro para fora”, isto é, desde o centro para a faixa. De interior-esquerdo para extremo-esquerdo nas dinâmicas das jogadas.

Um jogo de futebol é, muitas vezes, uma aventura táctica inventada por um treinador. Cada jogador na sua melhor posição ajuda mesmo aqueles que, mesmo vindos da terra dos génios, tem de fazer na relva essa busca pelo melhor futebol.

Messi viveu quase tido o jogo numa “caverna” que parece ter “entristecido” o seu futebol. “Porque não se ri?” perguntariam muitos que seguiam o jogo. Até que, de repente, a meio da segunda parte, como se tivessem esfregado a lâmpada de Aladino”, ele saiu dentro dela e surgiu serpenteando por entre a população bósnia até rematar, com precisão, para o golo. A sua expressão mudava, então, num ápice.

Não se pode ser poeta e operário ao mesmo tempo. A “segunda Argentina” que se estreou neste Mundial é a que melhor humaniza a “máquina táctica”. A que lhe permite, entre o real e o ilusório, jogar “com mais um” em campo.

UMA “MONTANHA” DE FUTEBOL

COMO FAZER DA TÁCTICA UM AMIGOA bola tanto pode ser um objecto de desejo, como pode ser um objecto por quem lutar. Colômbia arrancou no Mundial com o seu estilo apoiado mas Pekerman meteu-lhe agora, no corpo dos jogadores e na cabeça da equipa, uma consciência defensiva que a tornam num bloco mais unido, com ou sem bola.

As “ginganas” de James e o instinto de Teo Gutierrez fizeram os golos, mas o jogador que torna todo aquele onze realmente numa “equipa” taticamente falando é o “gigante” Ibarbo. Parte como falso ala de um 4x2x3x1 mas depois é ele que baixa para fechar o flanco completando a linha de “4” do meio-campo na organização defensiva subida. Com bola segue com os olhos os movimentos “vagabundos” de James e coloca-se, sempre, nos locais certos para, mais pelo centro. Os defesas, de repente, não percebem o que é que aquela “montanha de músculos e futebol” está ali a fazer aparentemente impassível. É Ibarbo. Assim se posiciona e move o jogador-chave da Colômbia de Perkerman. Sem adornar jogadas, mas dando-lhes moldura e corpo. Está a dar, para ele e sobretudo para a equipa, o tempo suficiente para “jogar bem”. Táctica e tecnicamente.