Como nasceu na cabeça de Panenka o… “penalty à Panenka”?

09 de Junho de 2016

Confessa que marcou 35 penaltys dessa maneira e só falhou um. Durante os anos, muitas vezes se pergunta o que teria acontecido se essa falha tivesse sido na decisão de 76.

Conta Hugo Sanchez, uma autoridade quando se trata de falar em grandes goleadores, que um dia, durante um jogo disputado numa cancha mexicana, um árbitro muito astuto marcou três penaltys, todos a favor da mesma equipa, mas, embora trocando sempre de marcador, ela falhou-os todos.

No último minuto, o árbitro, sempre “olho-vivo”, marcou um quarto penalty para o mesmo lado. O jogo estava empatado. Um teimoso 0-0. Nas bancadas os hinchas voltaram a levantar-se para assistir ao grande momento que poderia dar a vitória. Aterrorizado, no entanto, o capitão de equipa, assustado com a possibilidade de voltar a falhá-lo, chegou junto do árbitro e, em surdina, pediu-lhe que o troca-se por um pontapé de canto...

Perdida entre o mundo real e o imaginário, esta história, algo caricata, espelha, no entanto, a dimensão dramática que o penalty adquire num jogo de futebol, o único momento em que o carrasco se pode tornar, subitamente, vítima, provando como está errada aquela velha teoria da “angústia do guarda redes no momento do penalty”. Angústia tem o avançado que o vai marcar. Para o guarda redes é, apenas, a grande oportunidade de se tornar herói.

panenkafala

 

Antonín Panenka foi um dos grande jogadores da história do futebol checo, mas, apesar das grandes exibições realizadas, nas frias noites europeias, com a camisola do Bohemians, o clube da sua vida, ou da velha selecção da Checoslováquia, a dimensão global da sua carreira acabaria por ser devorada por um simples penalty que cobrou na final do Europeu 1976.

O jogo decisivo disputou-se em Belgrado, então capital da antiga Jugoslávia. Frente a frente, a poderosa Alemanha, velha RFA, de Beckenbauer, Bonhof, Muller, Vogts, entre outros, e a sensacional Checoslováquia que eliminara, na meia-final, a idolatrada Holanda de Cruyff e do futebol-total. No onze checoslovaco, treinado pelo sábio Jezek, tendo a seu lado então um ainda promissor técnico adjunto chamado Venglos, brilhavam estrelas como Nehoda, Ondrus, Jurkemik, Masny, Viktor...

Depois de 2-2 no final dos 90 minutos e prolongamento, a decisão entrou no cruel desempate por grandes penalidades. Depois de ambos terem concretizados os quatro primeiros pontapés, no quinto, Honess chutou por cima da barra. Com 4-4, Panenka tinha o decisivo penalty nos seus pés.

Se marcasse a Checoslováquia era campeã da Europa. Até esse momento, os seus companheiros tinham sido infalíveis. Dos quatro remates, porém, três tinham sido praticamente para o meio da baliza, dois deles poucos centímetros desviados para o lado direito do gigante Maier que tinha sempre tendência em tombar ligeiramente para o lado contrário o esquerdo. Assim tinham marcado Nehoda e Masny, a meia altura, enquanto que Ondrus marcara raso, ao canto inferior direito. Maier voara para o mesmo lado, mas não conseguira alcançar a bola.

No último remate antes do seu, Panenka vira Jurkemin optar por um potente pontapé mesmo para o meio da baliza. Maier movera-se ligeiramente para a esquerda e a bola passou-lhe como um balázio a centímetros da luva direita.

 

panenkagolo1
Quando partiu para a bola, Panenka tinha toda a Europa suspensa a olhar para ele. Mesmo assim, o seu bigode escovinha nunca tremeu. Deu sete passos em corrida, chegou junto da bola, e, na hora de levantar a chuteira para o remate, reparou que, como quase sempre, Maier já começara a tombar lentamente, antes da bola partir, para o lado esquerdo, esperando, talvez, um potente disparo como o anterior.

Fracções de segundo suficientes para em vez de chutar forte, Panenka meter o bico da bota por baixo da bola e dar-lhe apenas um leve toque que a fez levantar num pequeno chapéu que começou a descer, em folha-seca, mesmo ao passar pela linha de golo, perante o desespero de Maier, uma montanha em forma de guarda redes que se deixara cair como um castelo de cartas para o lado.

Apesar de ser um polvo gigante e estar a centímetros da bola que lhe passava tão devagar a seu lado, era impossível, pela sua posição, conseguir lhe tocar. Limitou-se a assistir, desesperado, a como ela, tão mansamente, se aninhava no fundo das redes. Golo! Enquanto o gigante alemão jazia deitado na relva com as mãos na cabeça, Panenka corria extasiado até ser derrubado e submerso em abraços pelos seus colegas.

Era a invenção do mórbido estilo-Panenka de marcar penaltys, algo que, soube-se depois, ele próprio já ensaiara meses antes, pelo Bohemians, em jogos do campeonato checo.

Desde essa data, muitos outros jogadores, ao longo dos tempos, repetiram a sua forma ousada de marcar o tal pontapé que, segundo Pelé, reveste-se de tamanha importância num jogo de futebol que deveria ser marcado pelo próprio presidente do clube...

Na desempate por pontapés da marca da grande penalidade, entre Holanda e Itália, na meia-final do Euro-2000, Totti, outro profeta do futebol artístico também marcou ao esguio Van der Vaart um mórbido penalty folha-seca, destacando-se, ao mais alto nível, entre a galeria de magos italianos profetas do estilo-Panenka, onde também moram Vialli e Del Piero. Revisitando anos passados, detectamos também a mesma magia nos pés de Djalminha, provando como a arte de Paneka atravessou continentes e penetrou no universo mais belo e artístico do futebol mundial, o Brasil, num gesto então açucarado pelo seu aroma sul-americano que, entre outros muitos jogos, emergiu em pleno Highbury Park, frente ao Arsenal, quando enganou o grande guarda-redes inglês Davis Seaman com uma leve chapeúzinho da marca de penalty. A última grande aventura de estilo Panenka surgiu na final do Mundial-2006. Pelos pés de Zidane. A bola até subiu demais e bateu na barra, mas, quando caiu, fez justiça com a lenda e bateu para lá da linha de golo…

 

panenkagolo

 

A fórmula-Panenka de marcar penaltys assenta, basicamente, num ponto essencial: o guarda-redes move-se sempre na hora da cobrança ou, para ser mais exacto, quando o marcador inicia o movimento de remate. É muito raro aquele que fica parado no centro, imóvel, nesse momento. Se, por hipótese remota, fica-se estático, sem se mexer, e não tomba-se ou se lançasse para um dos lados, agarraria, sem qualquer dificuldade, uma bola assim tão docilmente chutada. É nesse aspecto, para além de ser impossível prever quando ele será marcado dessa forma – pois tal nunca passa pela cabeça dos guarda-redes- que repousa o segredo do sucesso do estilo-Panenka de marcar penaltys.

O que muitos não sabiam é que antes de o marcar nessa histórica data, já o tinha ensaiado muito nos treinos. Quando todos se retiravam para o duche, ficava sozinho com o guarda redes a treinar remates. Apostavam cervejas e chocolates. Como perdia quase sempre as apostas, o sagaz Panenka saiu-se um dia com aquele estilo. Foi golo e a partir dai passou a fazê-lo nos jogos. Conta que marcou 35 penaltys dessa maneira e só falhou um. Durante os anos, muitas vezes se pergunta o que teria acontecido se essa falha tivesse sido na decisão de 76. Certamente, num tempo em que o comunismo respirava de plena saúde e usava os trunfos desportivos como instrumento de propaganda, conta, sorrindo, que talvez fosse obrigado a mudar de profissão, passando a ser operário de alguma fábrica...

Toda a sua fantástica carreira foi, porém, devorada por esse penalty.  Era um jogador para quem a bola não tinha segredos, moldado pelo estilo de leste, com grande sentido colectivo de jogo. Lutador, não parava um segundo, acabava sempre com a camisola encharcada, exímio a jogar ao primeiro toque, mas, ao mesmo tempo, capaz de lances individuais, que embora sem grandes malabarismos, o faziam brilhar com luz própria por entre um estilo que vivia sobretudo dos mecanismos colectivos.

Poucos dos adeptos do presente sabem, porém, que tipo de jogador foi Panekas. Ao invés, todos conhecem o seu nome e a sua forma inventiva e insolente de marcar penaltys.