Como ser um jogador diferente. O “habitat” e a visão

13 de Janeiro de 2015

Como ser um jogador diferente. O “habitat” e a visão

No passado, tínhamos referências em quem nos abrigar. Basta a bola passar por Baggio, Zidane, Laudrup e tudo, de repente, voltava a fazer sentido. Era futebol com paz interior mesmo nos jogos mais escaldantes.

Eles filtravam tudo, porque viam tudo, com tanta capacidade para construir como... Incapacidade para destruir. O novo futebol condenou esta última face do jogo. O jogador tem que saber defender. E, em geral, tirou-os do sítio (meteu-os numa faixa) ou obrigou-os a correr (mesmo atrás do mais rudimentar trinco).

A ordem tática mudou. Penso na questão de recuar jogadores no terreno como causa mas tal não me convence. Pirlo, por exemplo, fez esse trajeto (de 10 para 6) e não perdeu qualquer capacidade de construir. Pelo contrário, até a aumentou. E porquê? Porque aumentou o seu ângulo de visão sobre o jogo. Aumentou a, digamos, amplitude periférica de intervenção sobre ele, algo que é determinado sobretudo a partir da posição em que se joga. Por isso, mais do que atrás ou à frente, a grande diferença está em jogar na faixa ou no centro.

Para sustentar esta tese, basta um exercício geométrico. Desde a faixa, o jogador olha para o campo e tem uma visão de 180 graus. Atrás dele, está a linha lateral. A partir do centro, o jogador tem uma área de intervenção de 360 graus. Em torno dele, está todo o relvado, por onde pode recuar, bascular, avançar. Simples. Penso, claro, nos criativos/organizadores que pegam na bola e ordenam o jogo, pensadores ou combatentes com arte técnico-tática. Não penso no extremo puro que fazi linha recta na faixa.

Vários jogadores me fazem hoje pensar nisto. De espécies diferentes, mas problema semelhante. Desde logo, vendo como Enzo, saindo da faixa para o centro mudou o seu jogo. Tem cabeça de estratega (como faz jogar a equipa) e de elemento desequilibrante e solidário (sai da zona de pressão e dá a bola fazendo avançar a equipa).

Mas isso também vele para os avançados. No At. Madrid, Griezmann, antes ala puro da Real Sociedad, agora a jogar mais no meio atrás do ponta-de-lança. A sua tal visão sobre o relvado com que começava a... Jogar, mudou. Agora sente (pressente) tudo em seu redor. E pode eleger entre mais opções, não só as diagonais. As ruturas mudaram, são mais imprevisíveis. Gaitán, no Benfica, também faz pensar um pouco nisso.
Tanta visão de jogo com um ângulo de 180 graus quando pega na bola. Devia ter os tais 360.

Dirão que na faixa fogem mais às marcações. Não pensem nisso.

Com este tipo de jogadores, são os adversários que devem pensar em como os travar e não tanto eles em como se colocar para lhes fugir. Esta parte é-lhes natural. Como a amplitude periférica de ação e campo de visão dever ser sempre o maior possível. Do pivot ao avançado.

PIRLO: QUANDO RECUOU, RECUAMOS TODOS!

Como ser um jogador diferente. O “habitat” e a visão Muitos outros jogadores convidam-me para aquela reflexão. Sinto tanto o jogo quando vejo que quando Pirlo recuou a sua posição no relvado, todos nós, simples espectadores, recuamos com ele no relvado na forma de olhar para o jogo. Esse tipo de efeito só este tipo de jogador-360º consegue ter, jogue perto ou longe da baliza. Ele desfaz o conceito de ser defensivo ou ofensivo porque transforma tudo o que faz numa mescla de tudo que o jogo esconde. Pode ser mais lento ou já ter sido mais rápido.

Isso é importante, claro. Mas, na cabeça, a sua velocidade não mudou. E a bola continua a correr da mesma forma.

O seu recuo no terreno tornou-o um jogador mais... Ofensivo. Parece estranho mas é mesmo assim no plano da sua intervenção em atacar o... Jogo. Muito diferente de atacar a baliza diretamente embora o que faça seja o princípio disso tudo que, depois, passa à frente. É o tal futebol com paz interior.