Conhece-te a ti próprio!

15 de Abril de 2008

Conhece-te a ti próprio!

A paisagem global que um treinador tem do jogo existe antes da bola começar a rolar. É uma filosofia que, depois, será construída especificamente para cada equipa, cada jogo. É a adequação do seu modelo de jogo global a cada realidade particular. Há treinadores que defendem o modelo ser negociável. Isto é, depende da equipa onde estão e dos jogadores ao dispor. É uma opção discutível que, no limite, turva a construção da sua identidade. Sem ele, o treinador não tem terra firme para pisar. Seria como ter vários bilhetes de identidade. Nem pontos de partida para pensar. Mesmo quando está no desemprego. O problema é outro. O segredo é perceber que, no fundo, o modelo é apenas uma intenção, um plano conceptual de jogo optimizado. Depois há que percorrer o caminho até à sua realização. Terá que existir como que uma modelação do modelo de jogo.

O que está em questão é, com realidades diferentes, descobrir como colocar em prática as mesmas ideias. Pode demorar mais tempo, pode implicar treinar de forma diferente, pode obrigar várias nuances, mas o modelo global é inegociável. Por isso, o princípio da progressão complexa de construção desse jogar tem de ser sempre feito com especificidade, adaptado às realidades, percebendo como as características dos jogadores encaixam na missão pretendida. Sempre em especificidade. Atingindo isso, atinge-se a melhor forma do treinador contextualizar o seu modelo de jogo.

A Académica de Domingos é uma forma de perceber esta reflexão. Porque Domingos é um treinador que busca trabalhar em especificidade, adaptando exercícios às realidades dos seus jogadores, mas que, paradoxalmente, defende muitas vezes a negociabilidade do modelo. Não faz sentido. A sensação que dá é que, por fim, a equipa está a atingir o ponto de conexão entre a intenção e concretização do seu jogo. Mais do que a contextualização, vejo questões de estratégia e posições-chave para isso suceder.

Sem mexer na estrutura (4x1x3x2), as lesões de Pavlovic e Paulo Sérgio acabaram por desvendar o melhor jogador para a zona à frente da defesa: Nuno Piloto, antes mais adiantado ou sobre uma ala. Deu à equipa outra capacidade para iniciar a transição e fazer o primeiro passe (mesmo em bloco-baixo) com outra segurança. A subida de Luís Aguiar preenche de forma mais natural a segunda linha no corredor central, antes dependente das diagonais de Tiero desde a faixa direita. Maneja os avanços ou recuos e a velocidade dos alas (Lito, Miguel Pedro, soltos na Luz, ou Ivanildo, outra opção, tal como também fora Hélder Barbosa) que, assim, já não parecem demasiado rápidos para uma equipa que antes nunca os conseguia acompanhar na transição ofensiva.

Existirá sempre a tentação de considerar o primeiro e terceiro golo como fortuitos (consequência de um mau atraso e um ressalto). Outro caminho será acreditar no contributo do acaso para dar dimensão qualitativa às boas ideias.