Conquistadores de espaços

26 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (17)

A defesa checa escavara uma trincheira à frente da sua baliza. Já nem saia dela e alimentava-se dos mantimentos que trouxera da primeira parte.

Minuto 80: Quando Moutinho arranca para a bola, ganha-a na antecipação e faz um auto-passe que a mete nas costas da defesa checa, de repente abre-se uma clareira de espaço que antes parecia não ser possível de existir. Depois quando o seu cruzamento parte, o melhor espaço para finalizar está ocupado pelo defesa-lateral checo Selassie e parece fechado, só que quando a bola se aproxima dessa zona, Ronaldo arranca desde trás e surge-lhe na frente, antecipando-se no espaço de ataque à bola e, mortífero, cabeceou para o golo.

Ou seja, em nenhum destes momentos (arranque de Moutinho-finalização de Ronaldo) Portugal aproveitou espaços vazios. Pelo contrário, Portugal (Moutinho e Ronaldo) transformaram esses espaços que antes pareciam territórios ocupados checos, em espaços livres, e -com técnica de execução pensada- espetaram a bandeira portuguesa em plena caverna defensiva checa.

Não é o mesmo ter concentração e antecipação no jogo do que ter esse mesmo poder sobre apenas sobre a bola. Porque a inteligência (e velocidade) deve incidir sobre o jogo (e na antecipação aos adversários). A bola, essa, não pensa. Faz o que lhe mandarem.

Os jogadores portugueses souberam dar-lhe as ordens nos locais e no ritmo certo de circulação que soltaram na segunda parte do jogo contra a rochosa Rep.Checa. Nesses 45 minutos, foi a melhor exibição que vi uma seleção fazer neste Euro. Porque uma coisa é tirar a bola do adversário, outra é recuperá-la. Quando apenas se o tira, a seguir até se pode deita-la fora. Quando se recupera, é como a partir daquele momento ela passa-se a ser propriedade da equipa, circulando por todo o onze.

A atacar, partindo a bola do pivot Veloso, a grande incerteza de ocupação espacial que se dá à bola e entrada de jogadores, faz com que uma jogada nunca seja igual à outra seguinte. A capacidade de gerar respostas e jogadas diferentes de Moutinho e Ronaldo é infinita. Numa definição, são ambos conquistadores de espaços de bom futebol.

Táctica "inter-ativa"

Conquistadores de espaçosO pior que se pode falar de uma equipa é dizer que ela tem de mudar de velocidade de pensamento para mudar do ataque para a defesa. É como uma equipa se coloca sem bola que vemos logo se ela será forte ou não quando passar a ter a s posse. Por isso, ver a Rep.Checa ou a Grécia à espera do adversário (o tal futebol de expectativa), não é a mesma coisa de ver Portugal baixar estrategicamente as suas linhas (e à espera do momento de iniciativa).

Desde que um jogador ocupe um lugar dentro do campo, sempre tem algo para fazer. Mesmo quando a bola anda longe dele. Espanha e França são as duas seleções com um estilo de futebol mais apoiado e de construção em passes curtos. A Espanha procura aumentar de velocidade com o passe. A França mete melhor velocidade de transição em condução de bola. Um ala rápido (Ribery) pode significar essa diferença. Por isso a importância do factor-Navas na Espanha. Neste confronto de técnica contra técnica, a dimensão táctica tem quatro itens: decisão rápida, resistência física, poder mental e execução técnica. Quem as unir melhor ganha. É a chamada táctica inter-ativa.