Controlar com a “mente”

11 de Junho de 2012

Planeta Europeu (4)

Primeiro jogo do Europeu: espelho de como 90 minutos (gestão e influência dos treinadores) podem passar por múltiplos cenários. E, no fim, as duas equipas, por caminhos diferentes, chegarem ao mesmo destino. A Polónia dominou na primeira parte. A Grécia controlou na segunda. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente.

Dominar um jogo implica cair em cima do adversário, sufoca-lo, imprimir a cada jogada intencionalidade clara de chegar à baliza. A velocidade também entra nesta ideia de domínio, como o onze polaco made in Dortmund -Pizczek (lateral), Kuba (extremo) e Lewandowski (ponta-de-lança)- mostrou na primeira parte em que acabou a ganhar.

A grande missão de um treinador é conseguir prever o maior numero possíveis de situações que podem passar num jogo e preparar a equipa para elas. Sobretudo as piores, claro. Onde é importante reagir depressa. Na palestra ao intervalo -a ganhar, dominar e com mais um jogador-Zmuda, técnico polaco, não meteu a possibilidade de, mesmo assim, sofrer o imprevisível empate. Quando no inicio do segundo tempo isso aconteceu, sem lógica aparente, a equipa nunca mais se encontrou no jogo porque, pura e simplesmente, nunca imaginara que tal pudesse acontecer.

E a Grécia foi recuperando o seu equilíbrio. Mas nunca dominou o jogo. Nem tentou. Limitou-se a controlá-lo. Como? Controlar um jogo implica saber colocar o adversário em espaços que não ameacem muito e recuperada a bola ter ideias claras para chegar à baliza. A noção de baixar o ritmo de jogo, entra nesta ideia de controlo, como o onze grego reequilibrado ao intervalo por Fernando Santos demonstrou. Recuou linhas e meteu um avançado rápido a fazer diagonais desde a faixa (Salpingidis), obrigatório num 4x3x3 sem extremos. Empatou e ainda falhou um penalty.

Pode parecer estranho, mas uma equipa dominadora pode estar mais perto de perder um jogo ao menor percalço, do que aquela que parece entrar apenas à espera de fazer o que o jogo lhe pedir. Não tem a bola, mas sente-se cómoda. Porque, mentalmente, a sensação de controlo dá maior lucidez táctica para reagir a situações imprevisíveis do que o mero domínio.

A primeira "estrela"

Primeira figura do Euro: Dzagoev, novo inventor russo. Dois golos e um jogo de inteligência e astúcia. Como é natural na táctica moderna, jogou descaído sobre um flanco, o destino/posição natural dos artistas do presente, visto que no corredor central do meio-campo o treinador prefere jogadores mais operários no sentido de controlar as transições, sobretudo defensivas. Por isso, também não é por acaso, que o outro inventor do onze, o velho, jogue no outro flanco, Arshavin. Aqui está, portanto, uma bela imagem do futebol atual: 4x3x3, dois criativos (mescla de médio com segundo-avançado) e ambos metidos nas alas.

A Rússia de Advocaat tem bases sólidas e sabe como se comportar sem bola. Não se entusiasma muito com os jogos, nem quando eles estão a correr-lhe bem demais.

Do outro lado, o criativo da Rep.Checa, Rosicky, viveu o jogo todo em zonas...centrais. E acabou preso pela teia-de-aranha do triângulo de médios russo. Estranho tempo este em que os mais criativos têm de ir para a faixa (quase como saísse do restaurante para fumar) para, por fim, encontrar espaço no relvado para deixar respirar o seu bom futebol.