Copa América 2015 Dia 19

31 de Julho de 2015

 

O ataque baseado na criatividade... defensiva

Tem se dito muito que esta seleção chilena brilha por um jogo ofensivo rápido e vertical, movendo a bola sempre a alta velocidade e surgindo na frente com muitos homens. Esta última parte é verdade. Surge, de facto, com muitos homens na conclusão atacante, mas nenhum é um ponta-de-lança.

Quanto à tal velocidade alta é verdade a partir da entrada para o último terço do terreno, porque atrás, no inicio da construção, a equipa pausa o jogo para sair com segurança. Projeta logo os laterais, mas Diaz vem pegar com “cabeça” no jogo atrás e Aranguiz é um constante “apoio equilibrador” da equipa, para que ela não se parta na voragem do tal dinamismo ofensivo.

A provar essa noção táctica recuada, Sampaoli, nos quartos e meias, mudou a face da linha defensiva do onze. Deixou a defesa a “3” e montou a clássica a “4”, fechando melhor em largura.

COPA-AMÉRICA-2015-DIA-15O castigo de Jara e Mena, acabaram por dar maior presença posicional ao sector. Albornoz (a lateral mas que também fecha dentro como central) deu contra as “torres peruanas” um upgrade físico à “defesa dos baixinhos” e meteu 1,80 m no sector (não é muito, mas defende bem nas bolas paradas).

Os golos de Vargas (sobretudo o tiro de longe no 2-1 que pareceu apanhar Gallese fora do... campo) são a imagem mais poderosa do triunfo sobre o Peru, mas metendo o “bisturi táctico” no jogo chileno, vê-se que a base que suporta tudo está atrás (e na forma como Sampaoli mexe nos posicionamentos e dinâmicas da defesa). É uma espécie de... criatividade defensiva.

Do outro lado, com dez jogadores desde os 20 minutos, Gareca deu outra lição de como organizar uma equipa. Para além dessa superior noção colectiva, um destaque individual que nos faz abrir os olhos: Advincula é uma locomotiva no flanco direito, 90 minutos a voar com pujança e velocidade (furando e criando desequilíbrios para centrar). Em Setúbal já se via que era uma “mota” na faixa, mas neste cenário de seleção colocou, acredito, muitos clubes europeus maiores a olhar para ele. A ilusão da vertigem de jogar em velocidade consegue sempre estas proezas.

dunga copa américa 2015

Brasil: o problema não é a técnica

Leio Mano Menezes após o fracasso da “canarinha” na Copa América e ele diz que “o jogador brasileiro perdeu qualidades, domina e passa mal”. No global do que se joga hoje no Brasil até pode ter fundo de verdade, mas ao ver Willian, Coutinho, Fernandinho, Robinho, Firmino e Douglas Costa (os que jogaram com o Paraguai) é impossível encaixar neles essa impressão. O jogador brasileiro a este nível continua com uma qualidade técnica invulgar. Faz da bola o que quer.

O problema é outro e detecta-se comparando o(s) mesmo jogador(es) em diferentes habitats: Inseridos no contexto europeu eles sabem meter essa técnica numa dinâmica táctica adequada. Inseridos no contexto sul-americano (seleção/clubes) eles perdem essa bússola e passam a... pensar mal onde se devem colocar.

Ou seja, o domínio e passe não existem no vazio. Existem inseridos num enquadramento táctico-coletivo adequado. É isso que falta ao jogador brasileiro (jogo/equipas/seleção). É, como já escrevi por estas colunas, um claro problema de treinadores e forma táctico-técnica limitada de ver o jogo.