Copa América 2015 Dia 20

31 de Julho de 2015

 

Porque Pastore não pode ser dos melhores do mundo?

É comum sempre que se o vê jogar no seu estilo dengoso e ao mesmo tempo genial, tecnicista mas pouco intenso, com grande visão de jogo mas sempre algo lento, dizer que Pastore tinha tudo para ser considerado um dos melhores jogadores e só não o é porque não quer, porque não corre mais, porque é lento.

COPA-AMÉRICA-2015-DIA-15São análises e uma conclusão que traduz o tipo de pensamento mais básico sobre o jogo e que emerge, sem filtros, da forma de expressão morfológica do seu futebol, como se ela fosse inimiga da sua técnica notável.

Em alguns casos, até será. No caso de Pastore tudo é mais rebuscado, porque parece que ele não é mais rápido porque não quer. Que ele é, afinal, um dos legítimos sucessores de velhos craques argentinos de classe galã, que quando lhes pediam mais ganas e esforço de pernas, respondiam do alto da sua forma de tratar a bola: “era só o que faltava que para jogar futebol tivesse de correr! Isso é para cobardes!”.

Já lhe chamei, numa metáfora que gosto de fazer, uma espécie de “pantera cor de rosa a jogar futebol”. Lá está, essa visão metafórica resulta da imagem da sua forma de correr, em trotes lentos e elegantes com a bola por qualquer local do campo, mais atrás ou dentro da área mesmo.

Contra o Paraguai, o seu recital de “futebol de chuteiras de veludo” teve, porém, um aspecto fundamental: as ideias de Martino e o jogo de Messi. Ou seja, uma estrutura com duplo-pivot Mascherano-Biglia, com Messi à frente pegando no jogo e a lançar, em muitos lances, Pastore, que vinha de trás para receber mais à frente em espaços vazios de perigo entrelinhas. A seguir, com um remate ou um grande “passe com olhos”, resolvia a jogada da melhor maneira. Perfeito “y muy lindo”, como dizem os argentinos.

Pastore não poderia nunca jogar de forma diferente, porque isso iria condenar o seu estilo. Faria dele outro tipo de jogador. Talvez mais esforçado e veloz, mas sem o encanto e a sedução que tem no seu trote e gestos técnicos maravilhosos. Respeitem o ecossistema do futebol onde Pastore é uma “espécie em vias de extinção”. Das melhores do mundo!

zabaleta copa america 2015

Chave tática: defesa e... lateral

Um exercício para estudar futebol é olhar as equipas e detectar para além do óbvio dos génios, os outros jogadores que, “heróis discretos”, são também fundamentais para a máquina colectiva rolar com qualidade.

Nesta Argentina, houve uma alteração do primeiro jogo (2-2 com Paraguai) para os seguintes, que mudou muito dessa qualidade desde trás (posicionamento) para a frente (saída com projeção). Foi a troca de defesa-lateral direito. Saiu Roncaglia e entrou Zabaleta. A equipa ganhou logo maior profundidade que transformou o corredor direito.

Zabaleta foi sempre uma “chave discreta” por todas as equipas por onde passa. Até no confuso Manchester City, ele é sempre uma referência que mantém a equipa equilibrada com dinâmica. A chave tem a ver com a forma bífida como o defini: defesa-lateral. Não é a mesma coisa chamar-lhe só defesa-esquerdo (com enfoque na postura defensiva) ou só lateral-esquerdo (e já se está então a imagina-lo a subir pela faixa). Zabaleta percebe os dois momentos com fundamentos evoluídos. E, mais importante, sabe bem os timings certos para os alternar.