COPA AMÉRICA 2015 DIA 8

26 de Julho de 2015

COPA AMÉRICA 2015 DIA 8

DIÁRIO DA COPA AMÉRICA 8

Os novos aromas do velho futebol peruano

Para quem começou a ver futebol nos anos 70/80, o futebol peruano tem uma ressonância mítica de grandes seleções e jogadores como Chumpitaz, Sotil, Oblitas e, claro, Cubillas. Citei de memória os que mais fazem parte do meu imaginário de miúdo. Nunca mais tiveram uma seleção destas, mas se há algo em que o futebol peruano parece que parou no tempo é no ritmo de jogo. Dengoso, lento mesmo por vezes, talvez o menos aguerrido da América-latina e o mais próximo do rendilhado de técnica brasileira.

O argentino Gareca procura reciclar o estilo peruano. Na senda dos bons treinadores argentinos, monta uma equipa versátil tacticamente. Viu-se, perdendo e ganhando, com Brasil e Venezuela.

De um jogo para outro, passou dum 4x2x3x1 com Farfan atrás de Guerrero, para um 4x4x2, com Pizarro ao lado de Guerrero. O golpe táctico surgiria, porém, quando a jogar com mais um frente à Venezuela desfez o duplo-pivot (passou a 4x1x3x2) colocou Pizarro entrelinhas atrás de Guerrero e na frente um avançado rápido, Reyna.

COPA AMÉRICA 2015 DIA 8Aos 36 anos, naquela posição, Pizarro consegue ser quase um “segundo treinador” em campo. Vê-se até na forma como fala do relvado para o banco. Durante o jogo, por exemplo, ia chamando a atenção para como era preciso Advincula subir mais no flanco direito. E quando a “seta” de Setúbal subia, notava-se logo a diferença.

O jogador que mais gosto de ver jogar neste Perú é, no entanto, o ala vagabundo, de arranque, simulação e diagonais, Cueva (23, Alianza Lima). É imprevisível sempre que recebe a bola. Só se adivinha que vai meter velocidade.

Mas, voltemos à origem, a quem mais carrega o estilo puro do jogo: o médio Lobotón, 35. Parece que joga só com a “memória”, mas, na verdade, ele jogou sempre assim. Joga bem mas no tal ritmo dengoso que o impediu, no seu tempo, de dar o salto para a Europa.

Agora, todos estes diferentes estilos temporais cruzam-se na seleção de Gareca. Joga bem, mas custa perceber que para ter hipóteses de passar aos quartos, não pode deixar-se “peruanizar” geneticamente. Tem de meter os seus genes nos novos ritmos. Como Pizarro e Reyna explicam.

Um “bicho do meio-campo”

 COPA AMÉRICA 2015 DIA 8Confesso. As apresentadoras da televisão venezuelana fizeram-me torcer um pouco mais pela Venezuela. O resto vem da admiração de ver como uma seleção conseguiu crescer tanto competitivamente nos últimos anos: em talento, confiança e organização. Só assim aguenta uma defesa tão lenta, sobretudo na dupla de centrais: Tunêz-Viscarrondo.

Contra o Perú, vendo-se só com dez em campo, recompôs de imediato a sua defesa a “4” (com Chichero a lateral-esquerdo) e fez de um pivot, Sejas, uma espécie de ala a fechar. Arango, 35 anos, acompanhou toda a década de explosão do fútbol venezuelano, mas agora já lhe custa fazer esse papel na faixa. Só lá cai para jogar com o cérebro e a precisão cirúrgica de centro parábola do pé esquerdo.

Por isso acaba agora a jogar no meio de “cadeira”, o que torna como principal figura do onze “vino tinto” um médio todo-terreno, “bicho do meio-campo”, que pega na bola, mete força, técnica e segura toda a equipa pelo pescoço. É Tomas Rincon. A “formatação” físico-táctica europeia perfeita após cinco anos de Bundesliga e um em Génova.