Copa América 2016: Os “siameses tácticos”

05 de Junho de 2016

Brasil vs Equador: O primeiro jogo do Brasil nesta Copa América foi decepcionante, um empate sem golos frente ao bem organizado Equador, que se dispôs de forma competente atrás da linha da bola.

Por David Guimarães 

A “canarinha” começou autoritária, impositiva na posse e circulação apoiada entre todos os elementos. O central Gil (forte no posicionamento e dobras) não é muito fiável na saída de bola, por isso, era o pivot Casemiro quem recuava iniciando a construção. Foram as suas variações de centro de jogo que permitiram a largura necessária para a intervenção atacante dos laterais (Filipe Luís e Daniel Alves), sempre prestáveis como solução de passe para os médios interiores Elias e Renato Augusto (muito subidos no momento ofensivo). O 4x3x3 brasileiro fica completo com o trio Philippe Coutinho (movimentos interiores), Willian (brilhantes rasgos individuais sobre a faixa) e Jonas (movimentos de recuo para arrastamentos).

bolaños

A “amarelinha” sofre nos momentos pós-perda. Com os interiores de perfil, bastante adiantados, sem capacidade de recuperação e os laterais excessivamente projectados, o contragolpe equatoriano foi sempre perigoso, com incursões que chegavam rapidamente aos últimos 30 metros (faltou qualidade no último passe). O seu 4x2x3x1, quase sempre em organização baixa, contou com uma dupla de trincos de cobertura (Christian Noboa e Carlos Gruezo) que se juntavam ao sector recuado. Comportamento que libertava Bolaños (qualidade e critério de passe) como referência organizativa, que, sem oposição, tinha tempo de receber, levantar a cabeça e colocar a bola para a invasão espacial do trio de velocistas, Antonio Valencia (explosão na direita), Jefferson Montero (verticalidade na esquerda) e Enner Valencia (mobilidade ao centro). A sua compleição robusta permite também uma procura de jogo mais directo, incentivando batalhas aéreas e a luta pelas segundas-bolas. A aposta não foi nesse sentido, mas, nas poucas solicitações de bola longa, foi evidente o sofrimento do central brasileiro Marquinhos.

 

No segundo tempo o seleccionador equatoriano (Gustavo Quinteros) respondeu tacticamente ao domínio brasileiro. Definiu duas linhas de “4” mais subidas e dois homens soltos, orquestrando uma pressão mais proactiva. Elias e Renato Augusto foram rechaçados e Casemiro importunado, incapaz de estabelecer a anterior ligação com a linha avançada. Coutinho fora bem vigiado, Willian, demasiado aberto (condicionado por uma entrada dura na primeira parte), não apoiou convenientemente Jonas (que não manifesta o seu melhor futebol sendo o jogador mais adiantado). Dunga trocou atletas, mas não alterou qualquer dinâmica. Gabriel (estático) entrou para o lugar de Jonas, mas não foi capaz de impor a sua presença entre os centrais (importa, neste contexto, destacar Arturo Mina, alto, rápido, activo no controlo da profundidade e desperto nas compensações). Lucas Moura (muito expedito, com destreza e rapidez de processos) substituiu William e justificou mais tempo de jogo. Lucas Lima entrou tarde, mas, tendo em conta os “siameses tácticos” (Elias e Renato Augusto), não deixa grandes dúvidas sobre a capacidade que tem para ser o médio de terceira linha que permita definir um posicionamento mais versátil, numa complementaridade que junte definição (último passe/remate) ao binómio circulação/transporte já bem oleado.