Corinthians: mais moderno do Brasil, senhor da América

22 de Julho de 2012

Corinthians mais moderno do Brasil, senhor da América

Compactação, disciplina, organização, trabalho coletivo, pressão, intensidade, concentração. Conceitos e características pouco valorizados no futebol brasileiro, que se acostumou a reconhecer apenas a técnica, o lampejo do talento e a qualidade individual.

Mas que estão na essência da proposta de jogo moderna do Corinthians campeão brasileiro em 2011 e que agora entra para a história do clube com o tão sonhado título da Libertadores. A campanha invicta - oito vitórias, seis empates, 22 gols marcados e apenas quatro gols sofridos em 14 jogos - foi consagrada com o triunfo final sobre o Boca Juniors de Riquelme, gigante de seis títulos e dez finais no principal torneio de clubes na América do Sul.

Na decisão e ao longo da trajetória segura, a equipe do técnico Tite foi sólida, atenta, com coordenação entre os setores, variação de jogadas e linhas agrupadas adiantando a marcação. Contou também com inteligência tática para se adequar aos adversários e também às próprias limitações.

Com os seguidos problemas físicos de Liédson, o treinador abriu mão da referência fixa no ataque e manteve o 4-2-3-1 como base tática alternando os meias Danilo e Alex como uma espécie de “falso nove” e aproveitando as infiltrações em diagonal dos ponteiros Jorge Henrique e Emerson. A mudança funcionou estrategicamente na reta final reforçando ainda mais a marcação.

Nos empates em 1 a 1 contra o Boca na Bombonera e diante do Santos de Neymar no Pacaembu pela semifinal, o Corinthians deixou a ocupação do campo adversário sem a bola e recuou as linhas. Permitiu a saída dos zagueiros e iniciou a marcação a partir da própria intermediária, bloqueando as descidas de laterais e volantes e duplicando ou até triplicando o cerco pelos flancos, abafando a criatividade dos oponentes.

Corinthians mais moderno do Brasil, senhor da AméricaO 4-2-3-1 corintiano, compacto e alternando Alex e Danilo como “falso nove” à frente, abrindo espaços para os ponteiros infiltrando em diagonal e marcando a partir da própria intermediária, quando preciso.

A solução protegeu os laterais Alessandro e Fabio Santos e facilitou a cobertura dos zagueiros Chicão e Leandro Castán - este um dos grandes destaques da campanha com desempenho que lhe rendeu a negociação com a Roma. À frente da retaguarda, outro ponto forte do time: a dupla de volantes formada por Ralf e Paulinho.

O primeiro é exímio marcador, mas sem as típicas perseguições individuais do futebol brasileiro. Não colou em Neymar, nem seguiu Riquelme. Marcando por setor, negou espaços aos oponentes e deu liberdade ao companheiro Paulinho para se transformar em um quarto meia e aparecer na frente para ser decisivo, como no gol sobre o Vasco que classificou o Corinthians nas quartas de final. A dupla tem força, personalidade e fina sintonia.

No duelo final contra o time xeneize, a maior prova da aguçada visão tática e estratégica de Tite: percebendo o oponente forçando triangulações e a movimentação de Riquelme no setor de Fabio Santos, que não tinha o auxílio de Emerson, Tite inverteu o camisa 11 com Danilo, que foi para o lado esquerdo. Segundo o próprio treinador, um “Plano B” pensado e treinado antes. O Corinthians acertou a marcação e ganhou o jogo e a taça com dois gols do “Sheik” atuando centralizado, como referência na frente em um 4-2-3-1 mais típico.

Corinthians mais moderno do Brasil, senhor da AméricaNa final contra o Boca Juniors, Tite inverteu o posicionamento de Danilo, que foi jogar e marcar à esquerda, e Emerson, que definiu o jogo e o título com dois gols como referência do ataque.

O Corinthians forte, organizado, compacto, que sabe jogar em 30 metros de campo. Que não tem o craque que atrai toda a atenção e os méritos. O time confiável que marca, joga e acalma a torcida famosa por se autoproclamar “sofredora”.

Com reforços no ataque como o peruano Guerrero e o argentino Martínez e voltando a investir na base que levou Romarinho a ser herói na Bombonera com o gol de empate, tem potencial para desafiar o Chelsea e quem mais aparecer pela frente no Mundial de Clubes em dezembro.

Nem fantasia, nem retranca. O Corinthians que manda no Brasil e na América se sustenta em estilo moderno e vencedor. Um norte seguro para o futebol jogado no país e até na seleção, ainda em busca da própria identidade.

André Rocha é jornalista e escreve o blogue Olho Tático da GloboEsporte.