Dança e finta por cima de toda a equipa… E adversários

30 de Novembro de 2014

Um jogador é muito mais do que se vê em campo. Nani sempre foi um jogador que cresceu por entre vários enigmas na expressão do talento, desde o losango de Bento até Manchester onde entrou sem tremer. Seguiram-se jogos fantásticos e épocas intrigantes em que saiu da equipa sem lógica desportiva, nem se decifrar claros problemas de balneário. O seu regresso (emprestado) a Alvalade seguiu, por isso, o trilho desse enigma, a forma como tirou a bola das mãos de um companheiro para marcar um penalty no primeiro jogo lançou o debate de como estaria a sua cabeça. O último que este novo Sporting em reconstrução precisava era de um jogador que se achasse mais importante do que a equipa. O passar dos jogos desmentiu essa ideia. O futebol de Nani levou a equipa para outra dimensão, ritmo e jogo, marcando a diferença. Aroma de craque puro.

Todo este trajeto torna, por isso, difícil decifrar todas as declarações dos últimos dias. A única coisa indiscutível é a qualidade do seu futebol que o Sporting não pode arriscar perder nesta fase da época.

A sua dança com a bola na área do Maribor, arrastando seis adversários eslovenos em seu torno, simulando, segurando, fintando, tudo como se tivesse um íman na bota, sem nunca se precipitar em rematar, jogando com a inteligência e o perfume da técnica até abrir uma clareira num espaço curto e bang! Fuzila as redes, mostra de que matéria é feito verdadeiramente um grande jogador. A serenidade da classe inteligente num local onde quase todos os querem é rematar sem pensar. Nani pensa o seu futebol em todos os movimentos e toques.

O Sporting de Marco Silva continua a ter muito por onde crescer nesta época. Não me parece que seja a nível de alternativas de sistemas táticos mas sim de variantes do seu preferencial 4x3x3. Nani pode ser um ala mas também pode jogar por dentro, não só nas diagonais, mas também mais fixo fazendo a diferença no corredor central.

Pelo mesmo corredor, mais atrás, o outro enigma é William Carvalho. Redescobrir o seu melhor futebol para a posição taticamente mais importante no futebol atual, pivot. O local onde um treinador deve mexer menos e ter menos dúvidas. O onze é muito do que essa posição lhe dá. Diz-me que pivot tens e dir-te-ei como jogas.

Com, ao mesmo tempo, João Mario (a crescer) e Adrien (estabilizado na ligação do meio-campo), enquanto Carrillo voltou a ser o talento de picos, e o repentismo de Mané (que não tem o lado cerebral para jogar no centro, podendo ser naturalmente mais truculento desde a faixa) o onze tem as virtudes e os defeitos onde se encaixam aqueles melhores jogadores: Nani e William Carvalho. A chave é saber em que momento mental-futebolístico estão.

Dança e finta por cima de toda a equipa E adversáriosAs variantes do 4x4x3 são mais a forma da equipa crescer do que o 4x4x2, que mete a dimensão física de Slimani a n.º 9, mas que não tem, depois, um verdadeiro segundo-avançado mascarado de 10, missão para na qual Montero fica indefinido, porque (embora jogando bem em apoios) nunca pensa como um médio no sentido tático do termo. Sempre que joga nas costas de Slimani, a equipa como que fica num limbo entre o 4x3x3 e o 4x4x2 e perde o melhor que o seu meio-campo pode dar.

Seja qual for o prisma por onde se olhe para a equipa, a face com maior personalidade surge sempre com a bola nos pés de Nani. Na sua cabeça e botas está um nível de jogo e que parecia impensável o Sporting poder atingir tão cedo nesta reconstrução. A insustentável leveza das suas afirmações e jogo são, por isso, sempre aparentes. Tudo o que faz, ou diz, tem um sentido.