DE ABIDJAN A BEVEREN: OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIM

30 de Setembro de 2004

22 Maio de 2004, o Estádio do Heysel, em Bruxelas, fervia antes da disputa final da Taça da Bélgica, que, ao contrário de outras paragens, ainda é considerado como o maior jogo da época no futebol belga. Frente a frente, o campeão FC Bruges e um outsider que terminara o campeonato num modesto 12º lugar, o KSK Beveren. Do lado dos campeões, figuras como Verlinden, Verheyen, Simmons e Van der Heyden. Do lado do sonhador Beveren, nomes como N`Dri, Seydou, Kaiper, Mahan., entre outros, todos, á excepção de um, o lituano Stefanovs, com sabor a África. Embora o futebol belga seja, historicamente, daqueles que sempre revelou maior atracção pelos talentos africanos, sobretudo os oriundos das suas antigas colónias, como o Congo belga, a imagem que cativa todos os espectadores quando o Beveren entra em campo com o seu equipamento amarelo e preto, tem a ver com o facto de quase todos os seus jogadores serem negros.

A sua origem é comum: a Costa do Marfim, um infinito viveiro de talentos explorado pelo clube desde há várias épocas e que, na temporada passada, chegou ao ponto de formar o seu onze principal, em vários jogos do campeonato e na final da Taça, com dez jogadores da Costa do Marfim, sendo o único intruso europeu um defesa da Letónia, Stepanovs, emprestado pelo Arsenal. Uma tendência que atingiu os 100%, esta temporada, no jogo inaugural do Campeonato 2004/05, frente ao Brugge (1-1), quando alinhou de inicio com onze africanos. No plantel, porém, figuram hoje, em principio, 12-14 jogadores vindos da Costa do Marfim: Seydou Badjan, Copa Boubacar, Armand Mahan, Emmmanuel Eboué, Joss Péhé, N`Dri Romaric, Diabis Diawara, Marc Né, Mohamed Diallo, Abdoulaye Junior, Roméo Seka, Alexandre Topka, Moussa Sanogo, Zito, Arunya, Outara e Kipre Kaiper. Eles são a base do onze titular e a imagem e o coração do clube. O que originou e o que se esconde por trás deste estranho e curioso fenómeno futebolístico?

Costa do Marfim: paraíso africano

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMSituada na região ocidental do continente negro, a sul do deserto do Saara, a Costa do Marfim é, neste ponto da história, um dos países africanos mais ricos, plantado num território que divide a zona costeira com um interior rasgado por vales e rios, com cerca de 12 milhões de habitantes, falando francês ou seculares dialectos locais, é um país também, como toda a África, devoto do futebol, um fosso de paixões que se estende da capital Abidjan a outras terras como Buaké, Gagnoa e Man, morada de clubes históricos no contexto africano, entre os quais emerge o ASEC Mimosas. Apesar do valor de muitos jogadores que gerou através dos textos, no tempo do colonialismo ou já na fase da independência conquistada em 1960, nunca conseguiu chegar á Fase final de um Mundial. A sua maior coroa de glória internacional foi a conquista da Taça de África em 1992, com uma equipa onde estavam nomes como Tiéhi, Traoré, que passou pelo Sp.Braga, Sékana, Magui, entre outros, treinados por Martial. No decorrer das últimas épocas, porém, a Costa do Marfim descobriu outro supremo embaixador do seu futebol nos relvados europeus: Dider Drogba.

A sua transferência do Marselha para o Chelsea, por 36 milhões de Euros, alucinou todo o país que o venera como um Deus da bola, mas, apesar do entusiasmo que rodeia a sua imagem, ele não é o espelho mais fiel do futebol da Costa do Marfim que, apesar da estabilidade do país e dos imensos talentos que o percorrem descalços atrás de uma bola desde meninos, ainda continua muito distante da elite mundial. O seu futebol é ainda um diamante em bruto que precisa ser lapidado técnica-tacticamente.

O missionário Guillou

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMJean-Marc Guilllou foi um razoável jogador francês nos anos 70, sendo internacional pela selecção gaulesa por 19 vezes. A sua grande vocação, depois de pendurar as chuteiras, estava, porém, na vida de treinador. Começou como jogador-treinador do Neuchatel Xamax, na Suíça, passou depois pelo Cannes, Mulhouse e Servette, mas, estranhamente nunca se sentiu realizado. A sua grande vocação, viria a saber um dia, estava no futebol-formação. Aí sim, nesse mundo de sonhos, poderia lapidar talentos e abordar o jogador como um artista em bruto que, seguindo os seus conselhos, transformar-se-ia, no futuro, num grande futebolista sénior, ao invés do que sucedia com profissionais adultos, já feitos mas pouco receptivos a receber, por exemplo, lições de posicionamento em campo. Com os jovens, porém, tudo é diferente, pois a função primordial de um treinador-formador é mesmo essa: ensinar e dar conselhos. Para desenvolver essa sua vocação, Guillou não teve duvidas em virar-se para África, morada do chamado “futebol do futuro”.

Nessas paragens deslumbrantes que despertam as mais profundas emoções, ao invés da França onde todas as estruturas dos centros de formação dos clubes estão montadas e os novos projectos necessitam de aprovação superior, em África basta surgir com uma bola debaixo do braço, chamar uma dezena de miúdos, dar-lhes umas camisolas, montar um campinho de futebol num terreno baldio, dois paus e uma trave a servirem de balizas e o jogo bonito, como lhe chamou Pelé, pode correr solto. Foi isso que atraiu Guillou para a Costa do marfim, onde chegou em 1993, para fundar uma Academia de futebol, sediada em Abidjan, com a intenção de descobrir e formar jovens talentos, assinando um protocolo de cooperação com o histórico ASEC Mimosas, que, estando nessa altura em grandes dificuldades financeiras, de imediato viu com agrado o projecto. Assim, entre 1994 e 2000, a Academia de Jean Marc Guillou passou a utilizar as instalações de Sol Béni.

O primeiro passo de Guillou na Costa do marfim foi organizar jornadas de captação. Milhares de jovens passaram pelos campos da Academia e, num ápice, mais do que um projecto meramente futebolístico, tornou-se também num projecto humano fascinante, sobretudo quando se fixa, olhos nos olhos, meninos africanos com apenas 11 ou 12 anos, carregados de sonhos. O grande segredo, em todo o processo de formação, é deixar sempre espaço para eles soltarem as suas inatas capacidades criativas e de improvisação típicas da África negra, pelo que, diz Guillou, nos primeiros dois-três anos, devem mesmo treinar descalços, o ideal para aperfeiçoar os gestos técnicos, numa teoria que faz lembrar um velho conceito do treinador brasileiro Telê Santana que um dia disse nenhuma chuteira no mundo ter conseguido reproduzir a mesma intinidade revelada entre a bola e um pé descalço. Só aos 14-15, eles começam a calçar as chuteiras, altura em que o trabalho táctico e físico ganha outra dimensão. A base, no entanto, é a técnica, os, digamos, pilares da personalidade futebolística de um jogador que, como diria Cruyff, se forma até aos 12 anos .

Mais do quem em longas prelecções diante de um tabuleiro, explicando tácticas e movimentos, Guillou prefere a formação prática em campo, que, diz, é, ao mesmo tempo, um local de musculação melhor que o ginásio e um local mais eficaz para aperfeiçoar conceitos táctico-posicionais do que rabiscos num quadro do balneário.

O protocolo Academia-ASEC

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMPara financiar o seu projecto, que foi crescendo no tempo, Guilou procurou sempre parcerias com clubes, não só na Costa do Marfim, mas, também, na Europa, no futebol francês, onde sempre teve muitos conhecimentos, pelo que, nos primeiros três anos, teve o apoio do Mónaco, importante para o decisivo triénio de 97, 98 e 99, onde se gastou cerca de 320 000 Euros. Este três anos, decorridos num fase em que a Academia já começara a formar os seus próprios filhos futebolísticos, isto é, jogadores já com idade para jogar nas primeiras equipas seniores, teria como ponto alto a SuperTaça de África de 1999, quando muitos jogadores do ASEC terem decido abandonar o clube, após ganharem a Taça dos Campeões Africanos. Impotente, o clube ficou sem bases para refazer toda a equipa de um momento para o outro. Com o aproximar da disputa da SuperTaça frente ao poderoso Esperance Tunis, campeão da Tunísia, a solução foi formar uma equipa, orientada por Guillou, que nesse ano passou também a ser treinador principal do clube, formada á base de jovens jogadores saídos da sua Academia.

No principio, a ideia assustou os adeptos e a direcção, mas poucos minutos depois do jogo começar, viu-se que a ousadia de Guillou estava certa. Realizando uma exibição bela, alegre e personalizada, os académicos de Guillou venceram o Esperance por 3-1 e o ASEC conquistou a Supertaça Africana. Com o tempo, porém, as relações entre Guillou e a direcção do ASEC foram perdendo o encanto e a pureza inicial, sobretudo quando começaram a surgir sobre a mesa propostas para a aquisição de alguns dos talentos saídos da Academia. Esse facto, motivou, desde logo, acesas discussões sobre que percentagem pertenceria a cada parte. Foi então que, revoltado, por entender estar-se a atacar a filosofia do seu projecto, querendo transformá-lo num negócio de empresário, Guillou rescindiu, em Dezembro de 2000, o protocolo com o ASEC, abandonou Sol Béni, regressou aos terrenos de origem que sempre conservou em Abidjan e rebaptizou a Academia com o seu próprio nome (Academia Jean-Marc Guillou). O caso continua, no entanto, em aberto e o ASEC tem, neste momento, sempre direito a uma percentagem nas transferência para o estrangeiro de jogadores formados na Academia.

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMAo mesmo tempo, na Bélgica, um pequeno-médio clube, o KSV Berveren, atravessava, como muitos outros da sua dimensão por toda a Europa, uma grave crise financeira, afundado em dívidas que chegavam aos 2 milhões de Euros, ameaçando-o de dissolução. Longe de ser um grande do futebol belga, o Beveren, um clube dos arredores de Antuérpia, tem, no entanto, uma história respeitada na Bélgica, cujo ponto alto se situa entre as décadas de 70/80, quando, treinadas pelo sábio Guy Thijs, ganhou em 1978, a Taça da Bélgica, e, em 1979, o primeiro titulo de campeão belga, com uma equipa onde a sua principal estrela era o célebre guada-redes voador Jean Marie Pfaff, feito repetido em 1984. Foram anos gloriosos que se diluiriam, porém, no decorrer das décadas seguintes, durante as quais o clube caiu em divisões secundárias, nunca mais chegando perto do topo, até que, a época passada, ressurgiu com uma atraente equipa na final da Taça da Bélgica. Por trás deste renascimento estava, no entanto, a Costa do Marfim e a Academia de Jean-Marc Guillou.

Beveren ou « Litlle Costa do Marfim»

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMTudo começara no período da crise de 2001. Conhecedor da agonia em que vivia o Beveren, Guillou propõe então aos seus dirigentes entrar com 1,5 milhões de Euros, criar um protocolo de cinco anos com o clube para qual traria quatro jogadores da sua Academia todos os anos, passando também a ser seu Admnistrador-Delegado, o que, na prática, faria dele uma espécie de manager geral supervisor para todo o futebol do clube. Foi salvação do Beveren, onde, desta forma, época após época, foram chegando jogadores da sua Academia na Costa do Marfim. Em Dezembro de 2003, eram 14 a fazerem parte do plantel principal. Não se tratou, no entanto, de um processo fácil. De inicio, os adeptos recusaram a ideia e, por toda a Bélgica, a equipa era recebida com o público adversário atirando-lhes bananas e imitando gritos de macacos. Por outro lado, haveria que ter muito cuidado com a adaptação social desses jovens africanos a uma nova realidade europeia. Aos poucos, porém, Guillou foi impondo o seu projecto. Em campo, a equipa jogava um futebol agradável que, muitas vezes, por ser mais técnico e ofensivo, contrastava com os fechados esquemas belgas, tristes e sem a alegria daqueles jovens rebeldes africanos chegados da Costa do Mafim. Embora sem conseguir grandes resultados, o clube estabilizou a meio da tabela e recuperou a tranquilidade perdida. O facto de entrar em campo muitas vezes com 10 jogadores da Costa do Marfim passou a ser visto com maior naturalidade num país onde não existe qualquer limitação ao uso de estrangeiros, comunitários ou não. Um dos maiores problemas reside agora quando esses jogadores são convocados para jogar pela selecção da Costa Do Marfim, o que desfalca gravemente a equipa, facto que tem provocado permanentes polémicas entre o Beveren, que se recusa a ceder os jogadores, e a Federação africana de origem.

Touré e Dindane: símbolos da Academia-Guillou

DE ABIDJAN A BEVEREN OS «CAÇA-SONHOS» DA COSTA DO MARFIMAo mesmo tempo, o Beveren também criava o seu próprio centro de formação em conjugação com a Academia de Abidjan. Para divulgar o seu projecto por toda a Eurpa, Guillou falou então com o seu amigo Arsene Wenger, e, desde a época passada, o Arsenal passou a ser o mais próximo parceiro técnico do Beveren e da sua Academia da Costa do Marfim, muito admirada por Wenger, e da qual, em 2002, já saíra directamente para Londres, o defesa Touré, hoje titular da principal onze do Arsenal. No seguimento deste entendimento Guillou-Wenger, Arsenal-Beveren, outros dois talentos de marfim, Marco Né e Emmanuel Eboué, participaram, neste inicio de época, com a camisola do Arsenal no Torneio de Amsterdão, despertando a admiração do público e de jogadores dos gunners, como Henry.

No final, regressaram ao Beveren onde irão jogar esta temporada. O jogador mais conhecido que saiu da Academia para a Europa é, no entanto, o avançado do Anderlecht, Aruna Dindane, que começou a dar os primeiros pontapés na bola, ainda menino magro, descalço e franzino, nos campos de Guillou, que, ainda hoje, é para ele como um segundo pai a quem telefona sempre a pedir conselhos antes de decidir fazer qualquer coisa na sua carreira. Foi com ele que começou a dar os primeiros passos no mundo sénior, pelo Iconditionel de Adjamé, um clube de um quarteirão de Abidjan. Seria, porém, quando já jogava no ASEC, que seria descoberto, pelos olheiros do Anderlecht, no Torneio de Toulon, jogando pela selecção Sub-21 da Costa do Marfim. Era o inicio de uma carreira que o coloca, no presente, entre os melhores avançados, com maior margem de progressão do futebol europeu. Quando regressa á sua terra, continua a sonhar fazer uma dupla atacante imparável com Drogba e levar a Costa do Marfim ao mundo maravilhoso de um Mundial.

O mais natural, porém, ao contrário de Dindane, é os jogadores saírem para grandes clubes depois de passarem pelo Beveren. Foi o que sucedeu, entre outros, Yaya Igor Lolo, e Yaya Touré, irmão de Kolo Touré, que foram para o Donetesk na Ucrania, enquanto para França, rumaram Yapi Lolo, para o Nantes, Zezé para o Guingamp, Boka para o Strasbourg, entre outros. Quando estes saem, outros chegam e a continuação do projecto continua garantido, criando, ao mesmo tempo, na equipa, um estilo de jogo muito próprio, no qual são agora os jogadores belgas que eventualmente surjam a terem-se de adaptar e não o contrário, pelo que, neste momento, não é exagero afirmar estarmos perante uma equipa africana a competir no campeonato belga. É por isso que, há dias, Mahan dizia que, por vezes, quando no clube, quase se sentia como estivesse a passear em Abidjan com todos os seus amigos por perto.

A outra face da globalização, rumo a Madagascar...

Com projectos deste tipo, embora louváveis na génese, o verdadeiro futebol belga, pura e simplesmente, desapareceria. O grande alvo deste trabalho de Guillou deveria ser o futebol africano e, mais particularmente, o seu desenvolvimento na Costa do Marfim e não a mera importação dos seus valores para o futebol europeu. A selecção da Costa do Marfim já integra hoje muitos dos seus produtos da Academia, mas era importante, que, ao invés do clube, eles colocassem como prioridade a representação nacional. O futuro dirá qual o destino final da Academia de Guillou na Costa do Marfim e o que será o Beveren daqui a alguns anos, mas, neste momento, o missionário Guillou já tem outro objectivo na mente: Madagascar, outro país de expressão francófona, com cerca de um milhão de habitantes, plantado na África Central insular, onde já começou a trabalhar no lançamento de outra Academia, chamada Ny-Antsika Jean-Marc Guillou, situada em Antsirabé, no centro do país, em ligação com a capital Tananarive, tendo já um staff permanente de formadores franceses a trabalharem no centro, para já apenas com miúdos de 13-15 anos, aplicando os mesmos princípios de Abidjan.

Quem sabe, pois, se daqui a alguns anos, também não teremos, em qualquer ponto do Velho Continente, uma equipa composta maioritariamente por jovens talentos de Madagascar a competir numa Liga Europeia. São as novas babilónias que o futebol moderno gerou...

De Abidjan a Beveren: África, Europa e futebol. Uma história que nasce das profundezas de África, congeminada por um missionário treinador francês, Jean-Marc Guillou, criador, em 1993, há onze anos, de uma Academia de Futebol em Abidjan, capital da Costa do Marfim. Nesse tempo, só levava uma bola debaixo do braço, hoje, é o grande educador dentro de um pacato e rico país que sonha também ser grande nos relvados mundiais. Desde há duas épocas, no seguimento de um projecto nascido em 2001, o Beveren tornou-se numa extensão futebolística desse sonhos africanos, ao ponto de, neste momento, ser uma equipa belga que entra em campo alinhando no seu onze, quase sempre, dez jogadores da Costa Do Marfim, de entre os 14-15 que compõem o seu plantel. Esta é uma história das novas babilónias futebolísticas.